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A hora e a vez de Sueli Massuda

Entrevista com a professora e ceramista Sueli Massuda – que refutou o pragmatismo das perguntas e respostas, optando por uma prosa sobre cerâmica, imigração e vida

28 de outubro de 2025

Texto: 

Natália Clima

Imagens: 

Natália Clima

Sueli Massuda seria amiga de Guimarães Rosa. Em meros minutos, o escritor mineiro retiraria um novo Sagarana da ceramista paulista. Dentro de seu ateliê, na rua Carlos Peti, bairro da Vila Mariana, a pesquisadora e professora de artes compartilharia histórias de vida com nossa reportagem. Naquela noite de quinta, 16/10, nossas perguntas raquíticas sobre gentrificação e política seriam substituídas por uma jornada surreal pelo mundo das artes.

A entrevista com Massuda ultrapassou uma pauta comum.

Um pequeno ateliê afogado em uma cidade em constante mudança.

Ao redor de prateleiras e prateleiras de cerâmica, esfumaçava-se a fronteira entre ateliê, galeria, sala de aula e residência – o mix de vida e arte se alastrava pela conversa. Durante às três horas de gravação, registramos contos humanos: Um imigrante que busca reencontrar a casa perdida, uma alemã cruzando o mundo para ser aprendiz de uma japonesa, crianças duvidando se as freiras do colégio são aliens, etc.

Buscando capturar a essência narrativa de Massuda, transliteramos a conversa. Guardando as idas e vindas da fala, recortando dois eixos: a história da cerâmica contemporânea e jornada de formação de uma artista.

Prateleiras somam testes e estudos das alunas do ateliê. Foto: Natália Clima

Terremotos em Tóquio levaram à imigração o Pai de Sueli. Abandonando os destroços no Pacífico, para aportar no Atlântico. O Brasil trouxe uma nova vida nas lavouras paulistas. Mesmo assim, os anos na enxada não apagaram o desejo de voltar: reencontrar seu lar perdido. Reviver Tóquio de anos passados.

Sueli não herdou uma criação nostálgica

Peculiarmente, Sueli não herdou uma criação nostálgica. Pelo contrário, seu contato com a colônia nipônica foi restrito. Cresceu em colégio de freiras, correndo das devotas junto de crianças negras, árabes, italianas. Se surgia uma amiguinha japonesa, durava pouco – aos fins de semana, a comunidade nipônica organizava festas e reuniões, exclusivas para quem frequentasse escolas exclusivamente japonesas, separando Sueli junto dos burajiros.

Como boa muleka, não guardou rancor. Preferia rir e provocar aquelas mulheres de véu. Com o hábito religioso tornando-as tão estranhas, que mais pareciam alienígenas.

Mesa utilizada para modelagem de peças. No quadro, fórmulas de esmalte. Foto: Natália Clima

O início do milênio, marcou o fim da carreira de Sueli no Liceu de Artes e Ofícios. Suas aulas de torno e esmalte, que haviam começado em 89, precisariam de um novo lar. Rapidamente, a professora buscou erguer um ateliê. Junto de uma amiga ceramista, encontrou teto na Rua Carlos Petit.

A primeira massa de estudantes tinha uma argila fraca. A maioria vinha pelo hobby. Alguns até viam a cerâmica como uma arte, dedicando-se ao aprendizado, mas não desejavam se profissionalizar. Com o passar dos anos, a cena de arte mudou. Faculdades de arte cresceram pelo país, galeristas passaram a expor esculturas de cerâmica. Os tornos do ateliê foram, então, tomados por alunas que se esmeravam para erguer, cortar, moldar, quebrar, repetir, repetir, repetir até alcançar um objeto de arte.

Sueli Massuda folheando catálogo europeu de cerâmica. Foto: Natália Clima

Quando uma recém-formada Sueli aterrissou no Japão, cerâmicas já brilhavam nas vitrines das depato, tradicionais lojas de departamento (relativamente similares às galerias comerciais do centro de São Paulo). Na terra do Sol nascente, cuja cerâmica acompanhou o desenvolvimento do país, a divisão entre utilitário e escultura era fraca. Se no Brasil ainda se relegava artes manuais ao caseiro/menor, na Ásia, o refino de um prato fundo era apreciado. O peso da tradição hierárquica levava à valorização do metódico e da rigidez da técnica.

Tal fato encantou Sueli. Após o curso de Design Industrial na FAAP, decidira viajar até o Japão por influência dos pais. Lá esperava encontrar emprego na área. Entretanto, os japoneses fechavam suas portas aos brasileiros. Nos meados dos anos 80, a migração de retorno se fortalecia. A comunidade latina era hospedada no Nihon como indivíduos engraçados e necessitados, mão de obra inferior e útil. Vagas em empresas, com boa remuneração, era exclusiva aos nativos.

o japonês oferecia apenas simpatia, não trabalho

Sueli encontrou moradia na pensão da YMCA, associação cristã de mulheres, buscando cursos livres e empregos na área de design. Durante a busca por um trabalho, ela começou a frequentar o cenário artístico de Tokio. Foi nele que encontrou as primeiras referências fortes em cerâmica. Dentro das lojas de departamento, estrangeiros como Miró e Dali somavam-se com ceramistas inovadoras como Kishi Eiko e Suzuki Osamu.

Fachada do ateliê vista por dentro. Foto: Natália Clima

Em outro momento, o Pai de Sueli havia voltado ao Japão. Sonhando reencontrar sua casa, perguntou pelos bairros, pelas esquinas. Revirou pedras e vielas. Nada. Suas memórias haviam sido engolidas pela terra.

Suas memórias haviam sido engolidas pela terra.

Uma senhora se identificou com aquela criança-adulta perdida. Estreitou laços e ajudou na busca. Quando a filha daquele homem veio visitar o país, ela se pôs a ajuda-la também.

Ao ser convidada para a casa da amiga do Pai, Sueli esperava conseguir um emprego. O marido da batchanzinha tinha renome na área de embalagens, seria uma boa porta de entrada. Porém, o casal japonês oferecia apenas simpatia, não trabalho.

Decepcionada, Sueli já planejava ir embora, até ouvir aquela senhora comentar de uma ceramista em Okazaki.

Estreito corredor divide o hall da entrada com o espaço de aulas. Foto: Natália Clima

Depois de cinco anos no Japão, Sueli desejava o retorno aos trópicos. O país da cerâmica a havia ensinado técnicas inacreditáveis, mas a frieza tornava o convívio difícil.

Durante uma conversa com amigos, um comentário escapou: No Brasil, haviam construído um forno de alta temperatura em Vargem Grande.

Afastado dos centros urbanos, ceramistas podem experimentar novos tipos de queima – passagem essencial para obter um fechamento eficaz dos poros da cerâmica, conseguindo uma resistência e qualidade melhor. Diferentes tipos de massas, assim como variadas fórmulas de esmaltes, cobram temperaturas específicas. A fuligem e o calor necessário da uma queima de altíssima temperatura, inviabiliza sua realização na metrópole.

Apesar da imensa dificuldade em construir um forno, o de Vargem Grande havia sido abandonado. Seus construtores o realizaram para uma encomenda específica, que, após concluída, não mobilizou usos posteriores. Restando disponível para quaisquer novas artistas.

A notícia mobilizou o retorno de Sueli ao Brasil.

Tornos utilizados durantes as aulas. Foto: Natália Clima

O ateliê em Okazaki era longe de Tóquio. A artista que o gerenciava tinha uma fama mundial, mas prezava pela reclusão. Quando a jovem Sueli a encontrou, a ceramista não desejava novos aprendizes.

Trabalharia no ateliê, aprenderia as técnicas, mas faria o serviço de cozinha, faxina, transporte.

Em realidade, a artesã havia recentemente se separado de uma outra aprendiz, uma alemã. Durante uma exposição na Alemanha, a artista de Okazaki ganhou uma fã um pouco... excessiva. Uma jovem alemã se mostrava encantada, eufórica, em trabalhar com a japonesa. No entanto, a ceramista não desejava alunas. A recusa não impediu a alemã. Em poucos meses ela se mudou para o Japão, buscando pela mestra. A insistência resultou um acordo de troca: trabalharia no ateliê, aprenderia as técnicas, mas faria o serviço de cozinha, faxina, transporte. Sem menos, a alemã firmou o pacto.

Torno manual, utilizado em cima de mesas ou bancos. Foto: Natália Clima

Anos depois, Sueli subia pela floresta de Okazaki para repetir o pedido da alemã. Enquanto uma ia, a outra voltava – a ceramista reviva o drama do passado. Mais uma vez abrigaria uma gaijin? Mais uma vez reviveria dramas sobre sujeira na pia, peças mal-feitas, calçados virados... Mais uma vez olharia para aqueles olhos estranhos e os ensinaria?

Ao fim, Sueli, cujo repertório na cerâmica mal marcava dois anos, conseguiu a vaga de aprendiz em Okazaki.

Artista junto de suas peças. Foto: Natália Clima

Depois de anos em Okazaki, com a promessa de recomeçar em Vargem Grande, Sueli voltou ao Brasil.

Seu primeiro problema foi o estado do forno prometido. Abandonado, o teto havia desabado e a natureza o clamava de volta.

Um roceiro da região se empolgou com a chegada de Sueli. De pronto se mobilizou na reconstrução do forno. Estudou manuais, encomendou ferramentas. Juntou suas mãos naquele projeto alienígena. Queimar cerâmica no meio do mato, em um país que pouco valorizava a técnica.

Refizeram o teto. Remodelaram o interior do forno. Afastaram as ervas pegajosas do descaso. A encomenda de prateleiras novas logo chegaria, possibilitando um retorno magno.

Queimar cerâmica no meio do mato, em um país que pouco valorizava a técnica.

Animada, Sueli convidou demais artistas para a queima. Reuniram as peças e com esperança cimentaram o forno. Faltava pouco para um novo início.

Devido ao longo processo de queima, que pode levar dias e exige uma observação contínua das chamas, ceramistas costumam se reversar na manutenção do forno. Uma noite, após horas monitorando o fogo, Sueli deixou que os demais cuidassem da vigília. Ao acordar, no segundo ou terceiro dia de queima, ela encontrou um burburinho estranho no grupo. Eles se acumulavam perto da escotilha, abertura que permite ver o interior do forno. Porém, onde deveria estar as peças, via-se apenas paredes cinzas. Optaram por interromper a fusão e abrir o forno. As prateleiras importadas não haviam aguentado a alta temperatura. Racharam e derrubaram todas as cerâmicas. Cacos se acumulavam junto do nó na garganta.

Salão superior do ateliê, dividido entre espaço de exposição e residência. Foto: Natália Clima

Hoje, aquela jovem indecisa se tornara uma professora e pesquisadora respeitada.

Aos poucos, o Japão se tornou passado. As freiras alienígenas, a busca do pai, as aulas no Liceu, Vargem Grande, tudo se misturava na neblina da memória. As histórias de uma vida se tornaram... histórias. Acontecimentos, casos, que sopramos ao léu.

Hoje, dentro de seu ateliê, aquela jovem indecisa se tornara uma professora e pesquisadora respeitada. Os papeis se inverteram, era ela quem abrigava estrangeiras: artistas internacionais que viam dar workshops em seu ateliê. Recebia encomendas de restaurantes de luxo. Suas pesquisas sobre mistura de massas, reciclagem de esmalte, causavam reboliços na indústria. A vida não terminara, e dia após dia novos contos surgiam. Mas a noite cresce, a reportagem se alonga. É preciso ir.

Em um último momento, Sueli mostra suas peças – inspiradas em contornos inusitados, que poderiam vir de fotos de revistas, sementes, folhas etc.

Cerâmica de Sueli Massuda Foto: Natália Clima

Um pequeno corpo esguio e afunila, até se achatar, abrupto, em um mini oceano oval. Encomenda para um restaurante japonês de luxo, no qual, é possível imaginar o público devolvendo o salmão ao mar, mordida por mordida.

Cerâmica de Sueli Massuda Foto: Natália Clima

Pratos verde, que de tão leves tem nas bordas dobraduras de papel, ganham um pequeno traço. Uma pincelada sutil. Nuvem girando, infinita, por gramíneas.

Cerâmica de Sueli Massuda Foto: Natália Clima

Corpos gordos e roxos, desafiam a gravidade no pezinho de ballet.

Cerâmica de Sueli Massuda Foto: Natália Clima

Névoa azul no buraco negro de trombetas.

Cerâmica de Sueli Massuda Foto: Natália Clima

Uma semente endurece em argila. Com o esmalte escuro reluzindo o mundo, enquanto a peça de uma pia, esboça o descer d’água por uma válvula contorcida.

Dramas humanos e histórias de amor.

Peças e peças que torcem o senso comum de utilitário e escultura. Dividindo espaço com testes de esmalte, livros e experimentos de alunas. Prateleiras de vidro colecionando anos de estudos – resultados de dramas humanos e histórias de amor. Um pequeno ateliê afogado em um bairro, em uma cidade, em um mundo, em constante mudança. Cujo o azul escuro na noite, é, aos poucos, roubado por prédios, obras, engarrafamentos. Revitalizando a necessidade de contar histórias e guardar a memória. Em seus contos de Sagarana, Sueli Massuda esmalta um grande museu da vida.

*Agradecimento à Sueli Massuda, que nos concedeu tempo e afeto.

São Paulo, Outubro 2025

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