As faces do Antiprisma: O novo lançamento e a trajetória de Elisa Moos e Victor José

A dupla lança sua primeira gravação de uma apresentação ao vivo, pela Urutu Fitas, registro analógico e com versões acústicas de suas músicas elétricas. O lançamento da dupla promete ser a retomada de seus interesses no folk mais intimista.

27 de fevereiro de 2026

Texto: 

Matheus Cerullo

Imagens: 

Giovanni Giani (@thegiovannigiani) e Matheus Cerullo (@matheus_cerullo_rock_)

No distante agosto de 2025 me encontrei pela primeira vez com a dupla, Elisa Moos e Victor José para entrevistá-los. Na época estava seguindo o rastro do meu livro fotográfico e pensava que iria montá-lo com perfis. Ledo engano. No entanto, o tempo me mostrou o caminho certo para perfilar o Antiprisma, o projeto musical dos dois, que carrega influências do folk, sertanejo e até o indie dos Strokes com uma cara de Jack e Mag White, além da carga de Rolling Stones, sim, a afinação em Sol aberto usada por eles - rio abaixo para os íntimos da viola -  também tem influência de Keith Richards.

Ao encontrar os dois pela primeira vez, é possível ter uma impressão muito forte, as referências e imagens que podem cruzar sua mente para defini-los são diversas, e essas referências imagéticas também refletem o amplo leque de inspirações deles, como o outro duo já citado, o White Stripes. Algo sintetiza os dois com uma simples batida de olho, como disse Luiza Villa ao ver uma foto que tirei de Victor e Elisa: “Eles saíram direto dos anos setenta!”. Talvez seja algo mais próximo de Rita Lee e Roberto de Carvalho? Não importa, o que salta aos olhos ao vê-los, até mesmo com roupas comuns são seu jeito e seus penteados: Os cabelos negros, compridos e escorridos com uma franja volumosa de Elisa carregam o ar retrô, assim como os cabelos castanhos e longos de Victor, que ainda conta com uma grande presença de espírito complementada pela sua estatura.

Escrevendo esse texto no calor insuportável do verão, o frio que fazia naquela época de nossa primeira entrevista parece coisa de ficção científica, entretanto as características do inverno não escapam à memória, as vozes anasaladas das gripes tão corriqueiras da estação gélida também não passaram despercebidas quando começamos a falar sobre a trajetória dos dois na música e suas inspirações. Um primeiro passo para minha desmistificação pessoal dos dois, sendo capaz de ver o que constitui esses artistas.  

O primeiro encontro com a dupla me permitiu conhecer dois artistas que já admirava pela qualidade de suas músicas, cheias de espírito, simplicidade calculada e introspecção. Depois pude ver outro aspecto de Victor que está nas músicas do Antiprisma, a viola caipira, instrumento que tocou no show de Clóvis Cosmo.

Foto por: Matheus Cerullo e Giovanni Giaini.

Apoiado nas experimentações sertanejas de Clóvis, vi com clareza a exploração que empreende na viola, timbres que remetem às características folclóricas das músicas de diversas culturas, o drone constante que aparece no alaúde, cítara e outros. Victor comprou sua viola quando sentiu a necessidade de achar uma nova sonoridade para as gravações do álbum “Planos para Esta Encarnação”. Indeciso se deveria procurar um violão com doze cordas ou a viola, optou pela última, assim que a tinha em mãos, partiu para encontrar com Elisa depois de seu expediente de trabalho para mostrar a nova aquisição.

Após o show de Clóvis, surgiu um convite para assistir uma sessão que o Antiprisma gravaria no Estúdio Urutu, resultando no registro de uma performance intimista com versões totalmente acústicas de suas músicas elétricas, como acontece nos shows em dupla, mas que nunca tiveram um registro oficial. Se quiser dar uma espiada em como era a atmosfera geral da gravação, você pode conferir o vídeo que fiz da canção “São duas horas e está tudo bem” clicando aqui. o Lançamento também conta com uma nova versão da música “Vampiros”. 

Para escutar o lançamento completo, basta acessar o link ou procurar “Urutu Fitas - Antiprisma (Ao Vivo)” em sua plataforma de preferência.


A GRAVAÇÃO NO ESTÚDIO URUTU 

Os técnicos se moviam entre a sala de gravação e a sala onde o registro da fita era digitalizado e monitorada em tempo real. Os equipamentos analógicos chamavam atenção, assim como um velho teclado vintage parado no espaço de convivência. As marcas de queimado e de bitucas de cigarro nas teclas destacavam-se. Afinal, qual poderiam ser as histórias por trás daquelas deformações no instrumento? Tal pergunta continuaria sem resposta, mas o passado recente do estúdio tem explicação. 

A gravação analógica seria feita em uma fita com cerca de meia hora de duração, sem repetições ou pausas, todas músicas tocadas de uma vez só. Momentos antes do play derradeiro ser dado, o estúdio vivia uma mistura de tensão e felicidade. O público convidado para assistir os artistas, se acumulava no aquário para ver a apresentação, enquanto o som seria transmitido por todos ambientes do estúdio. 

Elisa e Victor após gravação no Estúdio Urutu. Foto por: Matheus Cerullo.

O Estúdio Urutu, como boa parte da cena musical, foi atravessado abruptamente pela pandemia, e essa iniciativa que tiveram em um final de semana em novembro de 2025 fez parte do movimento de retomada e expansão de suas atividades para gravações analógicas. Em um sábado gravaram com o Antiprisma e no domingo com a Bombay Groovy, que também já teve sua gravação analógica lançada. 

Como explica Otávio Cintra (dono e diretor técnico do estúdio, também responsável pela captação e mixagem da gravação), “A gente recebeu esse equipamento analógico do Lisciel Franco, uma máquina com 24 canais, uma TASCAM ATR80, com a intenção de implementar uma filosofia 100% analógica.” As máquinas analógicas obrigam os músicos a pensarem melhor em como fazer suas músicas, tomar cuidado com a forma que o produto final vai ser entregue e buscar algo a mais, “uma verdade cristalizada”. Otávio comenta como a ponte foi feita: “O Lisciel chegou até mim através do Daniel Daibem, que é um guitarrista incrível e comunicador. E eu estava com ele há alguns anos como técnico de PA em alguns eventos aqui perto, no centro. Os dois se conheciam e essa indicação veio. O meu nome apareceu por uma aproximação de filosofia em relação ao método de captação, trocamos muita ideia (em referência ao Lisciel)”. Algo muito diferente do processo no digital “gravar e command Z, vamos mais um take”, ressaltando que aquilo gravado na fita é algo único e que atravessa o tempo.

Foto por: Giovanni Giani e Matheus Cerullo.

Para o estúdio comportar o novo equipamento, ele teve de ser adaptado e desde o primeiro momento das reformas, o Antiprisma já era um dos nomes que surgiram na cabeça deles, justamente pelo esmero da performance cativante dos dois. E essa tentativa de encapsular o tempo se ramifica durante as atuações do estúdio. Vicente Barroso (produtor executivo do projeto e do estúdio) comentou que fazendo a gravação com o público, perceberam que aquele momento poderia ser melhor registrado, desdobrando o projeto - que agora existe apenas em áudio - em um formato audiovisual, lançando as gravações com vídeo de artistas contemporâneos e autorais, mostrando que a evolução desse tipo de projeto é constante. 

Na ocasião da gravação, fiquei conversando com os músicos, tentando entender melhor a visão que eles tinham sobre o seu som, aparecendo artistas em comum que adoramos, como Roy Harper, cujo álbum Storm Cock influência a música “Caos” e tantas outras. Música do álbum Hemisférios (2019), composta com mais uma afinação famosa para os guitarristas e interessados em folk de plantão, “DADGAD”. O papo de guitarra vai e depois vem, até que reparamos em uma Gibson de dois braços ao lado do sofá do estúdio. Eu e Victor ficamos de cara com aquilo, pensando que em matéria de rock and roll, não dá para ficar mais descolado do que aquilo, um lampejo de um passado de glória deixado pelo Jimmy Page. 

As gravações ocorreram de forma tranquila e enquanto outro artista se preparava para sua vez de gravar de forma analógica, voltamos a conversar sobre nosso gosto musical, até que chegamos em Pink Floyd, uma banda que Elisa adora e que possui diversos LPs deixados por seu pai, como eu ainda viria a descobrir quando fosse visitá-los em sua casa para uma entrevista e tirar algumas fotos dos dois.

O ANTIPRISMA 

Os dois criaram o Antiprisma após algumas experiências frustradas com bandas em suas vidas, a principal delas sendo a última com a Carrancazul, banda onde seus caminhos se cruzaram brevemente pela primeira vez. Depois de sucessivas experiências frustrantes em grupo, os dois começaram a conversar e chegaram em uma simples conclusão: em alguns casos menos é mais e passaram a fazer música juntos.  

Ainda no verão, marcamos nossa data para as fotos e entrevista no dia 01 de fevereiro de 2026, apenas alguns meses depois da última vez que nos vimos. Eu  e meu amigo Giovanni combinamos de conduzir a entrevista e as fotos, com direito a fundo fotográfico e tudo mais na casa dos dois. Quem nos recebe no portão é Victor e a cachorra do casal, Olga - uma border collie com heterocromia, seus olhos azuis e castanhos, a pelagem marrom. Ao entrar, cumprimentamos Elisa e deixamos nossos  equipamentos na sala, onde passava o jogo do Corinthians contra o Flamengo. A primeira coisa que reparei após bater o olho na TV foi a vitrola ao lado direito da mesma. Repousando em cima dela estava o encarte com o LP “Vela Aberta” de Walter Franco. Quando vi isso, sabia de alguma forma que estava no caminho certo. Afinal, minha inspiração para escrever este texto foi um perfil de Walter, escrito por Joca Reiners Terron.

Partimos para um café e aos poucos os elementos mencionados em entrevistas anteriores tomaram um novo corpo. Eu já estava com uma versão impressa de meu TCC para mostrar aos dois e Victor, formado em Jornalismo assim como eu, pegou da grande estante recheadas de livros perto da porta de entrada o seu TCC. Um livro-reportagem sobre a importância da gravadora Philips para a música brasileira.

Foto por: Giovanni Giani e Matheus Cerullo.

É engraçado notar as curvas que o tempo toma, já que naquela altura do campeonato Victor já havia feito diversos shows, com Antiprisma, Retrato, Clóvis Cosmo e tantos outros. Nem sempre foi assim. Desde pequeno tinha vontade de ser músico e cantor, ele sempre se sentia encantado ao ver astros da música na TV e ficava os imitando. Com o tempo isso o levou a ganhar o primeiro violão aos 10 anos de idade e depois um baixo. Ele pensava que teria uma banda de rock com irmão mais velho, que empunhava a guitarra. Sua trajetória com o instrumento o levou ao primeiro show em uma escola de música aos 13 anos de idade, que correu mal. O problema vem quando o professor de seu colega de banda fala que ele não teria futuro no baixo, segundo Victor, aquilo foi algo que o motivou a aprender mais, tanto que ainda em 2025 participou da gravação de um álbum de jazz rock com um amigo, Filipe Consolini, que produziu o primeiro EP do duo e agora fundou o grupo Tenório.
Já para Elisa, a música surge na sua infância, influenciada pelo ambiente familiar e os discos de seu pai, e sempre gostou da ideia de ser artista, “mas diferente do Victor, eu não me via tocando, exercendo. E depois eu meio que entendi que é por conta de referência de mina tocando mesmo, eu não via muita mulher tocando.” Foi só com seus quatorze anos de idade que foi ter outras referências a partir do Nirvana, uma de suas bandas favoritas, e a partir dela conheceu Bikini Kill, Hole e outras bandas lideradas por mulheres. E quem a assiste tocando no show do Antiprisma jamais imaginaria que nessa fase de descoberta musical, ela teve uma banda chamada Debalde, que fazia rock dadaísta, no melhor estilo riot girl. Ainda influenciada pelos White Stripes, partiu para a bateria, mas no fim, a referência que fica são as mais “clean” do indie rock e a explosão dessa estética mais simples influenciada pelos Strokes

Foto por: Giovanni Giani e Matheus Cerullo.

Uma outra influência duradoura que finalmente percebi quando os encontrei foi a do Pink Floyd. O casal nos mostrou os LPs do conjunto que eles têm em sua coleção de discos, que antes eram do pai de Elisa - grande entusiasta da banda britânica - de cara fiquei encantado. Álbuns que havia visto e escutado milhares de vezes apenas nas plataformas digitais, estavam ali. Pude vê-los com calma, apreciando a arte do encarte e ver fotos e o projeto gráfico que foram pensados com dimensionalidade e tangibilidade, diferente da planificação do mundo virtual. Esse trabalho analógio é muito atencioso, assim como o da banda.  

O esmero deles se reflete no tempo que tomam para fazer suas composições e carinho pelo processo ao desenvolver seus álbuns. Atenção que vai da produção independente de vídeo clipes, design das capas, posters e colagens, as vezes utilizadas como capas de discos, como é o caso da capa do disco “Coisas de Verdade”, lançado no final de 2024, onde a arte original está enquadrada na sala de estar dos dois.

AINDA HÁ MUITA SORTE

Os dois sempre tomaram seu tempo para fazer suas coisas, o primeiro EP dos dois, homônimo e lançado em 2025 foi gravado em um período de mais de dois meses após ensaios constantes. Durante o dia, Victor trabalhava com a comunicação interna e a assessoria do sindicato dos transportadores de cargas de São Bernardo, enquanto Elisa trabalhava com a edição e revisão de livros jurídicos de forma presencial na já fechada editora Saraiva. Com uma quarta-feira por semana após o trabalho, eles se encontravam e partiam para gravar.   
Quando fomos para o segundo andar da casa, onde fica o home estúdio e escritório dos dois, para fazer a entrevista e as primeiras fotos da noite, vi a estante recheada com os livros jurídicos de Elisa, os diversos instrumentos, guitarras, banjo, violas e violões, a casa deles traduz muito de suas personalidades e interesses. Elisa comentou brincando: “Essa casa é o álbum pandêmico do Antiprisma”. Eles fizeram o projeto da casa juntos, durante o hiato entre seu segundo e terceiro álbuns, que foram atravessados pelo período de isolamento social, atrapalhando o lançamento de “Hemisférios” no final de 2019, um disco interrompido, já que todo o circuito de lançamento com shows foi cancelado pelo lockdown em 2020.

A cachorrinha do casal espera pacientemente para passear enquanto fazemos as fotos. Foto por: Matheus Cerullo e Giovanni Giani.

Durante a parte final do ensaio fotográfico, estávamos escutando o quarto álbum do Led Zeppelin na vitrola, um dos meus favoritos, obra formativa para o meu interesse em música, e escutá-la no vinil e ver o encarte completo foi um grande prazer. Uma hora, um dos músicos foi trocar de roupa para continuarmos o ensaio, então o lado A do disco acabou e só foi virado quando voltou. Um jeito diferente de consumir música, mais ativa, com ritmo próprio. Um compasso e forma de fazer as coisas bem diferente do que o mundo de hoje pede. Um ritmo que conversa muito com seu trabalho e uma construção analógica. 

Sobre o lançamento da gravação ao vivo, Victor comenta: “Esse lançamento é legal pelo fato da gente estar retomando, né, essa nossa veia mais acústica, mais folk, que é uma coisa que a gente nunca abandonou, mas o último lançamento (Coisas de Verdade) foi orientado a ser ter aquela sonoridade mais como uma banda, né?”

“Esses próximos passos, que a gente ainda não sabe quais serão em relação as nossas novas composições, tem puxado a gente um pouco para esse olhar acústico, da parte mais intimista do nosso modo de fazer música e tudo mais. Então, muito provavelmente ao longo desse ano e do andar da carruagem assim, a gente vai atacar esse repertório” Elisa aproveita e complementa: “Internamente, a gente tá no momento de composição e tal. Tudo está indicando que tá indo para um caminho mais folk de novo. Também estou considerando que essa fase que a gente tá agora é a fase realmente pós-pandêmica, assim. Agora é a fase nova. De certa forma a gente zerou todos os projetos que a gente tinha para fazer, que começaram na pandemia ou logo após.”

Victor e Elisa tocam o piano elétrico, ao fundo a arte original da capa do álbum "Hemisférios". Foto por: Matheus Cerullo e Giovanni Giani.

Agora que estão nesse momento de desenvolvimento de projetos, com Victor finalizando seu álbum de viola, focado em experimentações com o instrumento, Elisa já começa a fazer algumas composições para o próximo projeto do duo, com cerca de cinco canções já rascunhadas. O resultado disso, apenas o tempo dirá, mas tudo indica que a próxima fase do duo promete cenas maravilhosas que deslancham como uma vela aberta em novos horizontes.

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