Entrevista

Criaturas da Noite, escutem o samba que elas fazem!

Na primeira parte da série de reportagens sobre horror nacional, o editor L F Lunardello fala de sua editora Mão Esquerda e a cena independente de ficção macabra.

14 de fevereiro de 2026

Texto: 

Natália Clima

Foto: Gravura de Arlindo Daibert baseada em Grandes Sertões Veredas

Qual é o terror dos xique-xiques? Estão, os troncos do cerrado, contorcendo-se em agonia? Seria a garoa paulista um nevoeiro de pesadelos e segredos? Como escrever o terror tupiniquim?

Traumas e medos não faltam nesta Terra da Santa Cruz, mesmo assim, o imaginário comum do horror é povoado de castelos medievais e vampiros aristocratas. Como a identidade nacional pode ser imprimida no horror? Devemos ter uma antropofagia do macabro? Gritar, ufânicos, românticos, medos tradicionais de nossa pátria? Atrás dessas perguntas, a equipe do Desconhecido Juvenal preparou uma série de reportagens, entrevistando autoras(es) contemporâneos.

Nesta primeira parte, conversamos com L. F. Lunardello, editor da Mão Esquerda.

Foto: L. F. Lunardello, editor da Mão Esquerda

A Mão Esquerda é uma editora independente voltada para literatura de gênero, aquela que versa sobre terror, gótico, suspense, ficção científica etc. Sua publicação se dá inteiramente de forma gratuita e online, alinhada com forte viés político: Curadoria apenas com  mulheres e LGBT+ – aliando artigos acadêmicos com ficção contemporânea.

O selo divide sua herança com o ocultismo e com o gótico. Seu nome deriva de cultos pagãos, cuja mão direita zela pela obediência e a esquerda pela liberdade, autonomia e subversão. Já seu aniversário coincide com o nascimento de Mary Shelley, 30 de agosto.

Foto: Capa da edição da Mão Esquerda sobre Mary Shelley, publica em 2024

A peça acadêmica é baseada em evidência. Focar no acadêmico é uma forma de protestar contra o mercado

Lunardello se diz aprendiz devoto da mãe do horror. Antes da Mão Esquerda, ele se indignava com o descaso do meio editorial frente à autora. Aponta erros grosseiros nas edições de Frankenstein, além de uma constância em desmerecer a originalidade de Shelley: Diversos posfácios deduzem que, a filha de Mary Wollstonecraft – uma das primeiras feministas, dependia do marido e de outros escritores para escrever.

Existe uma desonestidade intelectual” relata Lunardello sobre o mercado editorial brasileiro. O Quid pro quo de publicar amigos e colegas resulta em um descaso com pesquisas críticas. A popularidade de Frankenstein, em domínio público há mais de séculos, permite edições e edições que pouco se preocupam com o legado de Shelley. Criando, assim, uma câmara de eco na qual o mercado restringe espaço a novas autoras, além de desmerecer o legado daquelas já canonizadas. A partir disso, Lunardello mergulhou na pesquisa sobre Shelley. Buscando reverter as ideias que põe em dúvida a maestria da autora, o editor passou a traduzir seus diários, como também críticas como Anne K Mellor que estudavam elementos feministas em Frankenstein. Surgindo assim o livro “Mary Shelley, ou a Prometeia Moderna” (2014), introduzindo para novas leitoras diversas novas visões sobre a escritora.

Foto: Gravura de Giovanni Aldini. Mary Shelley usou estudos de dissecação e reanimação de corpos, populares na época, para escrever Frankenstein.

É inegável o valor dado ao texto acadêmico dentro da Mão Esquerda. Lunardello sumariza a relevância do gênero como sendo uma técnica de preservar a memória.

A peça acadêmica é baseada em evidência. Focar no acadêmico é uma forma de protestar contra o mercado” – pesquisa factual e crítica com o passado. Apesar dos elitismos da universidade, o editor encontra nela uma forma de lembrar. Lembrar da força de Marry Shelley. O recordar de autoras esquecidas, como Maria Firmina e Júlia Lopes de Almeida, que são recuperadas e inseridas novamente no debate literário. Logo, a pesquisa se torna um instrumento político. Estudos decoloniais, contra normativos, que vão na contramão do clássico europeu ajudam a repensar a identidade nacional.

Contudo, não são apenas escritoras mortas que são reanimadas pela Mão Esquerda. Além dos artigos, há a publicação de contos e poemas de escritoras(es) contemporâneas. Para Lunardello, a memória não é só ressoar o passado, também é preservar o presente – dar voz aos presentes. Escritoras e escritores alienados pelo mercado editorial, são recebidos no selo. Visando um espaço no qual diferentes histórias podem existir, cada qual com sua voz única.

Foto: Gravura de Arlindo Daibert baseada em Grandes Sertões Veredas

Entretanto, Mary Shelley ainda é uma autora estrangeira. Onde entraria o terror nacional?

Já tivemos editais com mais de 120 originais enviados”, comenta o editor. A editora, cujo sangue é nordestino, busca selecionar autoras que escrevem os medos do nosso país. Dentre eles há Larissa Prado, Elmira Não Está, Igor Cabrado, que usam, respectivamente, São Paulo, Ceará e Minas para abrasileirar o horror com os temperos locais.

Foto: Composição; Tarsila do Amaral (1930)

Traumas sociais geram o terror”, defende Lunardello, “Por anos tivemos escritores brasileiros copiando Stephen King, hoje já nos voltamos para nossas mazelas internas”. O passado escravocrata colonial, a ditadura, a violência policial contra pessoas negras, a vilania brasileira escorre sangue sobre a escrita contemporânea.

Portanto, o terror se torna um método de reelaboração da violência histórica. As agonias de uma geração podem ser trabalhadas via tinta. A capacidade da ficção em reformular o passado, inverter assassino e vítima, permite uma nova identidade social. Aquelas que sempre foram esquartejadas pelos monstros, podem se reintroduzir como protagonistas. Processando o mal pela catarse da violência ficcional. “Não podemos erradicar a Polícia Militar, mas na escrita podemos dar o troco” pontua Lunardello.

Foto: O HERÓI, Anna Maria Maiolino (1966)

Editoras como a Mão Esquerda entram, assim, em um espaço de ocupar o terror. Com temas e minorias antes sufocados, vindo à tona e renovando o gênero. Quando focamos no cinema, por exemplo, Lunardello põe Jordan Peele como contraponto de Jason. “Não podemos ser ingênuos de acreditar que toda arte é progressista”, comenta. Filmes de Slasher, populares nos anos 80 com seus boogeymen caçando adolescentes transando em barracas, surgiram no estopim da Aids. O medo do desconhecido se misturou com a ignorância: Prostitutas e homens gays foram alvos de uma campanha de difamação. O sexo, ainda mais, o prazer, se tornou letal – o cinema de horror apenas capitalizou nisso. Terrifier, representante mais atual dos perseguidores sanguinários, não é salvo de críticas sobre misoginia nas mortes extremamente cruéis de mulheres em cena.

Jordan Peele, por sua vez, foi o primeiro homem negro a receber o Oscar de melhor roteiro por Get Out! – lançado em 2018, quase 90 anos depois da estreia da cerimônia1929. Corra!, título no Brasil, encara o terror psicológico do racismo. As inseguranças dentro de um relacionamento interracial são tensionadas ao máximo, criticando a cordialidade fajuta de uma elite branca.

Traumas sociais geram o terror

Foto: Poster de Blacula de Willian Marshal. Filme clássico do movimento Blaxploitation que trouxe realizadores negros para renovar o cinema americano

Antologias apenas com homens revelam o descaso dos editores com a realidade sócio-cultural”, diz a Mão Esquerda. Voltando no tema da importância de se abrir espaços para autoras independentes no horror. “Não existe história repetida, todo ponto de vista carrega uma nova perspectiva. Apenas você pode contar sua história.” conclui Lunardello. Advogando como a renovação do horror vem da potência em transcrever sua vivência em literatura.

Se Sexta Feira 13 foi se desgastando sequência após sequência, tornando-se uma paródia de si, foi necessária uma mudança de ponto de vista e protagonista em Get Out! para uma nova vida do cinema de terror.

Foto: Poster de A meia noite levarei sua alma. Zé do Caixão soube unir o moralismo cristão do caipira com o terror gótico.

Entretanto, ligar o relato social com o horror fomenta dúvidas sobre os limites do gênero. O Avesso da Pele de Jefferson Tenório também retrato o racismo velado em casais interraciais, qual sua diferença de Get Out! ? Por que a violência racial no livro não é terror? A pergunta é um exagero, óbvio, mas serve para esmiuçar as bases do gênero. Ora, Conceição Evaristo é extremamente mais violenta que Oscar Wilde, mesmo assim não a estudamos como literatura de horror, por quê?

Foto: Mãe Preta (A fúria de Iansã), Sidney Amaral (2014)

Há certos elementos de composição no horror” responde o Lunardello. “O terror busca horrorizar o social, enquanto demais obras querem denuncia-lo.” – “Quando Guimarães Rosa escreve sobre os cangaceiros, é impossível não falar da violência. Seria incongruente. O próprio relato social de uma sociedade violenta, é violento.” Dessa forma, Olhos d’água ou Grandes Sertões podem relatar agressões mais gritantes que Frankenstein, mas eles não possuem a intenção de tecer uma estética gótica.

O gótico é antiburguês."

Foto: Varredores de rua; Carlos Prado (1935)

Vale realçar as diferentes camadas dentro do horror. Apesar de certa generalização dentro dessa reportagem, é difícil unir romances como o de Ana Paula Maia – suspenses detetivescos – com o final de Úrsula de Maria Firmina – cenário de túmulos e catedrais. Há livros de terror com vampiras sáficas, Carmilla de Le Fanu. Existe o poema de Florbela Espanca sobre a Noiva Cadáver, romântico e macabro. Algumas obras até põe o Batman em um pesadelo surrealista como a HQ de Grant Morrison Asilo Arkham. De todo modo, a visão da Mão Esquerda direciona o horror para a tentativa de criar tensão e provocar medo.

Foto: Ilustração de Dave Mckean no quadrinho Batman Arkham Asylum

Não podemos ignorar outra faceta do horror, a de entretenimento.

Toda publicação da Mão Esquerda é disponibilizada gratuitamente online. Seus editais são públicos, apoiando-se em financiamento coletivo e clube de assinaturas para manter seu funcionamento. Contrastando com o padrão do mercado. Qualquer vampirinha brasileira é incapaz de escapar da mercantilização excessiva do terror. Indo de Monster High até “influencers góticos” da extrema direita. No campo literário, dominam as edições de luxo. Boas traduções raramente são o ponto de venda. A quantidade de brindes, os detalhes em relevo na capa, o fitilho colorido, a proporção milimétrica da coleção na estante – formando um lindo desenho de IA generativa. A comercialização do horror está em alta.

Foto: Vídeos criados por Inteligência Artificial mostravam uma influencer “gótica” em passeatas de extrema direita. Por trás deles, havia a venda de conteúdo pornográfico.

Lunardello não esquiva do horror como escapismo. “Se o corpo decapitado servir como metáfora e te fizer pensar, tudo bem, mas não é o foco.” – “O que vemos é a limpeza do horror. Um produto estéril.” Séries como Wandinha mantém a casca estética do gótico, indo até seu limite de conteúdo para retirar sua alma e plastificar. “O gótico é antiburguês. Nasce como contrário do romance da corte. Retrata lugares não belos, devastados. Protagonizados por miseráveis, órfãs, loucas.” A capacidade de entreter é válida e inerte ao terror, mas ela abre para o risco de produtos vazios e – pior – conservadores.

Não existe história repetida, todo ponto de vista carrega uma nova perspectiva. Apenas você pode contar sua história.”

L. F. Lunardello comemora a missão da editora. Para 2026, há planos de edições sobre Folk-Horror e ficção científica – destacando a publicação inédita das obras de Mary Diana Dods, cuja biografia e textos estão amplamente ancorados em temas Queer no horror. Para o editor, apesar dos desafios da cena independente, ela permite a efervescência de novas vozes. Com mão esquerda sendo a insubmissa, sua missão deve ser de desafiar padrões de mercado. A escrita de terror no Brasil não precisa depender do castelo do Drácula. O que não implica descarta-lo, apenas encara-lo de outra forma. Se o xique-xique não parece assustador, talvez devamos cobri-lo de tripas.

Foto: Gravura de Arlindo Daibert baseada em Grandes Sertões Veredas

A equipe do Desconhecido Juvenal agradece a participação de Lunardello. Desejamos sucesso para a Mão Esquerda, assim como demais trabalhos do editor. Em breve publicaremos a segunda parte de nossa cobertura do horror nacional, entrevistando autoras e autores. Segue abaixo, links das publicações da editora Mão Esquerda.

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Página da Mão Esquerda: https://linktr.ee/maoesquerdaeditora

E-book Mary Shelley, ou a Prometheia moderna  (2014): https://drive.google.com/file/d/1j7DepU4Mn1Vx2xg05x7qyRlf4fGuzUp7/view

Reportagem sobre a “gótica de direita” criada por IA: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/01/7340757-gotica-de-direita-que-afirmou-caminhar-com-nikolas-ferreira-e-fake.html

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