
Cobertura
No audiório da Biblioteca Mario de Andrade, Ali Prando, Matheus Gouthier e Getúlio Abelha, provocam: há luta sem experiência concreta?
20 de setembro de 2025
Leuni Denoni e Eldra La Fonte
Leuni Denoni
A Biblioteca Mário de Andrade tem cada vez mais se tornado um espaço de convergência entre a cultura das ruas e o saber acadêmico. Slams de poesia, saraus, encontros de hip hop e festivais de música experimental já ocuparam o mesmo auditório que na última semana de agosto recebeu debates o "Filofia Pop", série de palestras que propõe estabalecer um debate entre filosofia e cultura pop.
Naquela quarta, o auditório estava cheio, mostrando o interesse geral pela discussão, que procurava falar sobre a cantora e compositora pop Lady Gaga e sua relação com os textos do filósofo e pesquisador norte-americano Jack Halberstam. No calor da plateia e da expectativa, a mesa composta pelo idealizador Ali Prando, o analista cultural Matheus Gouthier e o multiartista Getúlio Abelha traz uma provocação: discutir a presença da diva pop nas lutas e no calor do momento em que vivemos, mas também a partir das experiências concretas de artistas LGBTQIAPN+ no Brasil.
O organizador, filósofo, curador e artista Ali Prando explicou que o espírito do Filosofia Pop vêm de um projeto chamado Cartografias Queer – projeto que convida artistas diferentes de cada mesa, diretores de cinema e teóricos queer nacionais e internacionais para dialogarem com o público brasileiro.
“O Filosofia Pop existe tanto no PDF, bem amarrado conceitualmente, quanto no palco, onde o que conta é como as pessoas vão responder e discutir conosco, afetivamente e tal”, disse Ali em tom copioso. “Porque é isso, são debates que estão atravessando nossos corpos.”
Lady Gaga foi evocada como ícone de uma geração. Uma participante lembrou:
“A Gaga abriu essa porta pra [uma] geração de diversos novos artistas. Tá tudo bem você se expressar dessa maneira, trazer sua realidade pras músicas, sabe?”
Mas o debate se centrou no quanto Gaga, como figura unitária, consegue permanecer frente a essa luta por abrir caminhos. Mesmo com grandes holofotes em cima dela, por que ela optou por ter uma figura pública que está conversando mais sobre saúde mental do que com relação à questões LGBTQIAPN+, que tradicionalmente são bandeiras da artista? O pessoal que estava no palco abriu esse tópico pra uma discussão que foi, inclusive, bem acalorada, como muito notaram.
Nós questionamos aos mediadores se eles acreditam que novos artistas, principalmente do rap, que falam sobre questões LGBTs, sobre repressão policial, a repressão do Estado conseguem suprir esse vácuo da Gaga não estar falando sobre essas questões mais abertamente.

Lady Gaga em show em Copacabana. Edição de imagem: Leuni Denoni.
Hoje temos novas pessoas e figuras falando pelas suas próprias questões. Para Ali e Getúlio, suprir Lady Gaga nesta questão poderia ser uma cobrança que faria não ouvirmos outras vozes, principalmente aquelas que estão sofrendo de racismo ou LGBTfobia na pele, entre outras questões que Gaga muito provavelmente não sinta.
Assim, cada vez mais Gaga é menos vista como salvadora e mais como uma inspiração para múltiplas vozes. Getúlio Abelha diz que no Brasil, estamos em um momento de muita abertura dos artistas independentes e que compõem minorias pra poderem tratar sobre suas próprias questões. “Eu acho que a gente tem artistas seguindo por vários caminhos e aí a gente tem opções de se identificar. Infelizmente, eu acho que o mercado atrapalha com que esses artistas cheguem em lugares e cheguem em mais pessoas”, conclui, impondo uma crítica principalmente a falta de recursos financeiros para artistas mais alternativos.
Quando questionado pelos mediadores quem são esses artistas que Getúlio acha interessantes, se são artistas independentes do Brasil, da comunidade LGBT ou no geral ele responde “ambos”.
— Você não quer citar?
— Não, porque é infinito.
A pergunta ecoou da boca do auditório. Acompanhamos a discussão colocando uma provocação sobre o cenário artístico dos Estados Unidos, em que há uma diferença de hierarquia social dentro da comunidade LGBTQIAPN+ diferente da hierarquia social da comunidade no Brasil, a ponto de que artistas Drag Queens, não-bináries e mulheres trans recebem mais visibilidade do que as artistas transvestites. Enquanto isso, aqui,por mais que seja difícil ter grande visibilidade sendo ume artista trans, sabemos de mais artistas travestis do que não-bináries e transmasculinos. E diante disso, percebemos que o fracasso está intrinsecamente ligado à uma hierarquia social, sendo que sempre haverá alguém, que mesmo fracassando, ainda consegue um bom resultado. Mas quem pode fracassar?
A ideia de fracasso, discutida por Halberstam como resistência ao capitalismo, revelou-se atravessada por desigualdades materiais. No Brasil, onde a precariedade é regra, fracassar pode significar não apenas resistir, mas perder o mínimo conquistado.
O cantor Getúlio Abelha, convidado especial do debate, trouxe sua vivência como artista cuir nordestino:
“Eu consegui sair do meu lugar de extrema vulnerabilidade de vida, até social mesmo, através de uma arte que era feita do fracasso. Mas uma vez que a estrutura vai crescendo, você se vê comprando uma comida gostosa que você não comprava antes, alugando um cantinho para dormir com conforto. A ideia de fracasso começa a ficar confusa.”
O medo de falhar, contou, não é só estético:
“O fracasso vem muito com esse medo de você falhar com as pessoas que estão te ouvindo. Esse medo se reflete até economicamente. Uma unha encravada pode tirar oportunidades da sua vida por causa de estresse, de dor. O cuidado com o corpo e os recursos mínimos é o que permite continuar trabalhando e movimentando a rede de pessoas que você movimenta.”
O debate se estendeu ainda sobre a relação entre vida e arte. Matheus Gouthier sintetizou o desejo de ir além da autenticidade obrigatória:
“Todo mundo pode se apropriar de qualquer discurso minoritário. Mas, ao mesmo tempo, gostaria de ver mais artistas também criando novas identidades, novas narrativas sobre outros mundos, outros planetas, outros futuros, outros sons. Sabe, não é pra... Sei lá, eu não quero também compor pensando que eu só tenho que compor sobre algo que eu vivi. Quero também poder inventar coisas novas, assim.”
Nesse ponto, o fracasso se mostrava também como possibilidade de invenção e de liberdade para criar outras realidades. E isso fez parte de grande parte do debate acalorado na mesa, que entre risadas o público afirmou que tava em “clima de briga”.
Mas na realidade, o que podia ser visto era uma tentativa de defender o legado da Gaga e ao mesmo tempo, mostrar que sua jornada estética fazia sentido. Matheus foi particularmente preciso nisso, comentando como é necessário para Gaga falar sobre ela, sobre o que ela está passando, inclusive para se manter autêntica na sua arte.

Getúlio Abelha, Matheus Gouthier e Ali Prando em debate com o show de Lady Gaga em Copacabana no fundo. Foto: Leuni Denoni.
Depois de trocarmos essa ideia, a demonstração da afetividade e da sua importância não podia ser feita de outra forma. Juntaram-se com os artistas independentes da plateia, e Ali comentou: “bora beber, gente?”
E essa mesa não podia terminar de maneira mais acolhedora do que comendo um pastel de pizza e bebendo uma caipirinha no Copanzinho. Nesse espaço, a política do fracasso era feita diante dos nossos olhos, em que os artistas e espectadores se confundiram e se tornaram colegas em um momento de comunhão cuir.
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