
Cobertura
Vindo de Itaquaquecetuba, o Nigéria Futebol Clube ocupou o palco do Porta, em São Paulo, no dia 1º de agosto, transformando um show em ritual libertário de groove e fúria.
9 de agosto de 2025
Vito Forini (_.ilegas)
Danilo Giraldes (mt01_photography)
Os muros concentram a decomposição e a morte. As árvores que integram a paisagem de túmulos do cemitério de Pinheiros, movidas pelo seu tutano, agem impulsionando suas raízes para além das sepulturas. Em infiltração subterrânea, alcançam as ruas. Perto da superfície, inesperadamente, irrompem! Rachaduras são infligidas nas calçadas. Delas, casas de show brotam e a vida renasce. Porta é um desses lugares onde a necromancia existe, ao trazer para debaixo do sol, frankensteins sonoros do underground. E foi bem ali, na Rua Horácio Lane, entre as lápides distantes, as fendas quilométricas e a porta do Porta, que o repórter do Desconhecido Juvenal chegou, horas antes da noite começar.
O baixista da banda do Monch Monch, Valentim Frateschi, desembarcou sobrecarregado de objetos demais para o diminuto banco traseiro de um Renault Kwid.
Houve um breve momento de ajuda, com o repórter levando o baixo do músico que, por sua vez, carregava suas bugigangas musicais - cabos e pedais. A ajuda não serviu apenas ao Valentim, como também ao repórter que entrou pela porta da frente, como se fosse roadie.
A música é mutilada e se apresenta explícita como algo composto e escrito; um método ao mesmo tempo inconsciente e lógico necessário para se encontrar o equilíbrio do volume entre os instrumentos. O protocolar, no entanto, ainda reserva espaço para a descontração: brincadeiras como um jogo de par ou ímpar, para ver qual dos guitarristas ficaria com o amp Vox. O felizardo foi Caio Colasante, porém, ninguém saiu perdendo, e José Victor Barroso, mais conhecido como Kabeça Cheia assumiu o, também inglês, Orange.
Como um elenco sendo anunciado, um a um, os elementos do show vão sendo apresentados. Esse é um dos privilégios que estar nos bastidores resguarda: presenciar a chegada dos trompetes de brinquedo e o uso do de um microfone peculiar, que soa como megafone, apesar de seu tamanho mini.
Após o final da passagem de som, os músicos saíram para jantar. Um breve momento de solidão, na sala ampla mas visualmente estimulante — além dos instrumentos e equipamentos, o local em que os shows ocorrem é decorado com quadros peculiares e flyers emoldurados de eventos passados — antecedeu a chegada repentina e silenciosa do fotógrafo. Uma exploração do espaço acompanhou a chegada dos espectadores. A cada volta, o ambiente aparecia mais cheio. Dentre as pessoas que estavam no público, outro repórter do Desconhecido Juvenal apareceu, mas não para cobrir. Apenas para curtir o show do Nigéria Futebol Clube, quarteto formado por Conceição na bateria e vocal, Rodrigo e Lenguisa, respectivamente na guitarra e no baixo, e ambos como backing vocal, e Derick, o trompetista estreante. Vindos diretamente de Itaquaquecetuba, município da região metropolitana de São Paulo, para abrir aquela noite com seu afropunk provocador, cáustico e lascivo.
Enquanto os membros “sobem” ao palco, Lenguisa já experimenta com o pedal. Ele nem espera que Rodrigo acabe de (des)afinar sua guitarra, e já puxa uma linha de baixo soturna. Derick entra logo em seguida: um trompete inicialmente sôfrego, que rebenta em notas cansadas. O feedback da guitarra arma a cama onde a música e o ruído se encontram, enquanto Conceição, ao invés de tomar a bateria, leva a caixa consigo pelas escadas — um gesto teatral que anuncia o tipo de apresentação que vem a seguir: ruidosa, viva, performática, imprevisível.
Duas pintoras, Thayssa e Tais, do Ateliê Tatu Bola, iniciam uma obra ao vivo, dividindo espaço com os músicos. A tela, frágil e improvisada sobre um cavalete quebrado, sugere a instabilidade que rege também a música do Nigéria.
Após Conceição esbarrar no público enquanto voltava ao seu posto - a qualquer hora um mosh parece prestes a começar -, ele pula repentinamente no microfone e começa a declamar, “olhos e bocas nós temos”. O público aplaude a intervenção em palavras.
Rodrigo prossegue a declamação, agora sob ruídos de instrumentos deformados. Inesperadamente, a música ganha forma e definição num groove pesado e gótico, que provoca respostas corporais no público. A voz parece chamar o som.

Conceição faz da caixa, tamborim. Foto: Danilo Giraldes
A bateria carrega o balanço denso e escuro junto ao baixo, tal qual uma noite fria carrega mistérios. A voz rouca e rasgada de Conceição grita no microfone, chamando uma virada violenta de bateria. No meio do caos, a linha de baixo melódica segue de forma ininterrupta.
A guitarra completamente distorcida, num redemoinho de fuzz, chorus e reverb, compõe a desfiguração sonora que reflete o desespero de uma frase como, “pega ladrão, pega ladrão”, cantada por Conceição no microfone, que prossegue, “roubaram meu… som”. A punch line seria cômica se não fosse real. Em entrevista pré-show ao Desconhecido Juvenal, a banda revela a origem trágica do verso, “O nosso álbum, na real, não era pra ter sido gravado todo bonitinho, certinho, tudo em linha. A ideia era gravar duas sessions, pegar essas sessions e tacar no Spotify. Uma delas já tá no YouTube, que é a do Porão Perus. A outra a gente gravou no Red Star, com o Guigas do Sagrados Anônimos — um salve, inclusive. Aí beleza, gravamos tudo certinho... só que a gente demorou mó tempão pra ir buscar os arquivos. Quando a gente finalmente foi, os arquivos não existiam mais. Tinham entrado no estúdio e roubado. Tipo, levaram um monte de HD. Roubaram o HD de geral. Mas o nosso tava no meio — foi perdido junto com vários outros”, relata Conceição.
Ao redemoinho sonoro, ruidoso e áspero, o trompete de Derick irrompe em aparição brilhante, em notas claras e dramáticas. A sintonia entre o homem e seu instrumento parece contradizer o depoimento dado por Derick ao ser perguntado sobre sua história com ele, “mano, o trompete... ele chega na minha vida já desde criança, certo? Eu não tocava, só via, porque tinha um trompete em casa que era do meu avô. E esse meu avô faleceu, então ele nem chegou a me ensinar nada. Eu só via o trompete, mexia nele e tal. Inclusive, ele nem tinha bocal, então não saía som nenhum”. O instrumento então passou a outros familiares, a ideia porém, não saiu da cabeça de Derick, "Mano, que instrumento cabuloso, interessante. Quero muito aprender". A vontade de aprender um instrumento se concretizou, mas na guitarra, seu instrumento principal.

Derick é tão recém-chegado ao trompete quanto é na banda. Mas isso não o impede nada. Foto: Danil Giraldes
Foi ao ficar desempregado que a oportunidade veio, “Entrei na Fábrica de Cultura — lá eles dão todo o apoio pra quem não tem instrumento, não tem onde aprender. Eles pegam essas pessoas e moldam mesmo, entendeu? Tipo, eu não sabia nada. Nada de trompete. E aí fui aprendendo o básico lá, e o interesse só foi aumentando”. Após comprar um trompete, há cerca de dois meses, é que veio o convite, “E aí os moleques começaram a encher o saco: "Pô, mano, por que você não cola num ensaio com a gente, com o trompete?".
Depois do show, Derick revelou que teve apenas dois ensaios para ensaiar as linhas que compôs em casa, “O que vocês viram hoje, foram só fragmentos”.
O calor faz Lenguisa e Conceição tirarem a camisa. Gritos engraçadinhos e seduzidos da platéia, antecedem gemidos no microfone acompanhados de um trompete sensual, acordes cheios e uma linha de baixo quente — como manteiga na panela. Essa combinação estranhamente sexy, esquenta o clima e prepara o groove: Conceição, de peito nu, dispara versos bem-lançados à la Tony Tornado.
Uma salva de salves é o interlúdio que retoma a ponte lenta que se repete num ritmo calmo, o que embala versos métricos e compassados. O passar com as unhas na ponte da guitarra — parecendo uma harpa drogada e metálica — causa uma sensação incômoda e estranha aos tímpanos.
Em contraste com o coro de três vozes harmônicas, um momento especialmente melódico do show, Rodrigo, no vocal, puxa o gatilho de um mosh que já estava há tempos para estourar. O contrário também se faz verdade: depois da calmaria vem a tempestade e o caos sonoro e corporal tomam conta do espaço, agora, de forma absoluta.

Rodrigo leva sua Memphis Stratocaster ao limite. Foto: Danilo Giraldes
A banda revela de onde vem toda essa desordem, “A grande real é que poucas músicas que a gente fez foram do tipo: "ah, tem essa ideia, vamos fazer ela". Não. A gente vai improvisando, aparece alguma coisa... e é isso”. O da liga à mistura, são as sessões de improvisação livre e espontânea. Conceição explica a relação dos membros com o improviso, “Essa coisa do improviso, inclusive, começa mesmo em 2022, né? Quando a gente tinha um lugar chamado Porto — por causa do nosso parceiro da banda Porto, inclusive, um salve pra ele. E lá a gente improvisava muito, tá ligado? Muito mesmo. E eu acho que improvisar é o melhor jeito de treinar um instrumento, porque a gente não toca há tanto tempo assim. A gente é novo em todos os nossos instrumentos. Então, acredito que esse treino da improvisação, de ficar tocando que nem noia por tipo 40 minutos seguidos... é essa a brisa, tá ligado?”.
Do absoluto nada, o verso “você está perdendo tempo pensando demais, quando devia estar botando fogo na Babilônia”, é dito por Conceição que, indignado, chama junto de si, um baixo envolvente, que desliza acima do feedback da guitarra, que emula ruídos de interferência, como uma interferência no sistema.
O que se forma é um manifesto de som e barulho: “A Nigéria Futebol Clube convida a todos a pensar: "você é um revolucionário?’”
Após retornar cambaleante, mas raivosa, a guitarra, acompanhada das notas pontuais do trompete e de um pandeiro tocado por uma das pintoras, completa o motim sonoro. O conjunto incendeia uma revolução instrumental inesperada
Conceição puxa um vocal estilo Furacão 2000 sob a mesma base instrumental que segue sem perder o fôlego, e desfere uma disstrack em cheio nos posers performáticos da cena: “maneira essa fantasia que você comprou na Galeria do Rock”.
Ele e os demais integrantes pedem silêncio para que o chocalho pudesse ser ouvido. Um Krakatoa explode nas caixas de som após um meteoro acertar a caixa da bateria. O público desaba hipnotizado pelo refrão clássico, “você é um homem de verdade? você é um personagem. Palhaço!”.

Lenguesa acabou de chegar, mas canta no microfone como quem já é de casa. Foto: Danilo Giraldes
Uma variedade de ritmos saem de Conceição, enquanto o noise rock liquefaz cabeças. Rodrigo abandona a guitarra e mergulha no mosh. Sobram, então, apenas a bateria e o baixo, que segue sustentando a melodia pelas mãos do insistente e, recém-chegado, Lenguisa. Em entrevista, conta como se deu a substituição do antigo baixista Cauã, “Bom, na verdade foi mais uma questão mesmo do Cauã que ele tinha falado que não ia conseguir mais tocar por questões do estágio. E ele mora muito longe. A gente é tudo de Itaquá, e o cara morava em São Bernardo do Campo”. Ele detalha que devido à condição financeira dos membros do Nigéria, restava à banda apenas o Porto, uma casa em construção onde podiam ensaiar de graça. “Aí, o Cauã ia e saía lá de São Bernardo até Itaquá para ensaiar com a gente. Ele tinha que pegar um ônibus de São Bernardo para chegar em Santo André, em Santo André pegar outro para Itaquá”. Mesmo com esses empecilhos, Derick pontua uma conquista, “pode não parecer, mas para a gente que é da cena independente, 10 shows é muita coisa. Para tipo, quem mora em Itaquá, tem toda questão de locomoção, 10 shows é bastante”.
Conceição troca o prato do chimbal enquanto sons de engrenagem saem da guitarra. Com um novo prato, um ritmo novo se inicia. Truncado e repetitivo, junto das notas alaranjadas do trompete, embala todos num transe sinestésico que se desconstrói aos poucos, numa crescente psicodélica e estranha. Uma música dedicada à banda Vinco e ao Gustavo Vitor Hamada. Nada mais justo, ao contagiar todos na mais pura sinestesia que um som abstrato pode proporcionar.
A desconstrução de timbres emoldura o convite de Conceição para ser revolucionário. Ele, de olhos fechados, parece receber as palavras, como um oráculo. À sua volta, o trompete racha o ar, a guitarra grita e o baixo clama. A tela no palco, agora coberta de cores dissonantes, reflete o estado coletivo: uma massa em transe, suada, elétrica, dançante. Quando a última nota cessa, os aplausos são imediatos. Mas, o que vem em seguida é um silêncio simbólico espesso. Ao invés de atender ao chamado revolucionário, o público se dirige imediatamente para o lado de fora da casa. A playlist do Porta rola de fundo, e faz tudo parecer a cena final de uma sitcom em que os personagens são Nerds Punks.
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