Entrevista

“Linhas de Cura”: quando a música vira âncora em meio ao imprevisível

Um retrato da travessia de Beaau Gomez entre criação e crise. Em entrevista, conta como uma canção que nasceu despretensiosa passou a segurar o seu mundo no lugar.

13 de dezembro de 2025

Texto: 

Vito "Ilegas" Forini

A atividade jornalística tem seus fardos. O dito “distanciamento jornalístico” acaba por distanciar também o nosso próprio ser do nosso trabalho. Em alguns lugares talvez isso faça sentido — ética, imparcialidade, cuidado. Mas será que deveria fazer aqui, neste lugar onde trabalhamos vivendo, vivendo trabalhando? Três anos de cena pra cena, conhecendo tanta gente, trocando com tanta gente. Afetos. Memórias criadas. E são justamente elas que nos salvam do afogamento: nos reaproximam do nosso ser, nos põem na noite, mantendo essas memórias como presente enquanto criamos outras.

Em 2023, conhecemos a banda Retrato. Aquele encontro ultrapassou a casualidade e seguiu existindo. No dia 20/11 deste ano, recebemos uma mensagem do Beaau, um dos integrantes, sobre o lançamento de seu próximo single, “Linhas de Cura”.

E ali senti uma mão me puxando de volta para a superfície.

12:07, 20/11/2025 – Beaau Gomez:
Mano, eu vou lançar o primeiro material do meu projeto novo, o Falces. O primeiro single do disco sai dia 05 de dezembro.
Não sei como tá sua agenda, se tem interesse em escrever algo pro Juvenal.
Não sei se você tá sabendo que a Ana está doente.

12:12, 20/11/2025 – Beaau Gomez:
Nossa vida tá uma loucura por aqui. Tô sem cabeça pra fazer qualquer coisa, nem planejava lançar nada esse ano.
Fiz essa música há um tempo, se chama Linhas de Cura.
Ela tem menos de 2 minutos e ficou ecoando na minha cabeça desde que a Ana recebeu o diagnóstico.
Achei importante colocar isso no mundo, apesar de ser um momento bem difícil.

Ali, o tal “distanciamento jornalístico” perdeu completamente o sentido — não hoje, não agora, não diante do que me era dito. Quem falava comigo não era um “objeto de pauta”, e eu, naquele instante, não era o jornalista: era alguém da cena, alguém que ama esse lugar e essas pessoas. A conversa deixou isso explícito desde as primeiras linhas.

“Eu fico lisonjeado em ser chamado para escrever sobre, não falo nem como jornalista, mas como pessoa da cena que te admira.”, digo.

E Linhas de Cura também passou por esse deslocamento. De apenas mais uma música de um álbum ainda não lançado para algo que ganhou outro significado — íntimo, urgente.

Da inquietação e da necessidade de seguir

Falces — um jogo de palavra entre “faces” e “falso” — nasceu em julho deste ano, como o caminho que Beaau encontrou para continuar fazendo música e tocando enquanto sua companheira, Ana Zumpano, viajava em turnê pela Europa com a banda Oruã, de Lê Almeida. O plano era simples: finalizar o disco antes de outubro, lançá-lo naquele mês e fazer uma série de shows até o fim do ano, com formação em power trio e músicos rotativos. Uma forma de responder à inquietação artística que sempre o atravessou.

Beaau fala dessa inquietação como quem fala de um chamado:

“Cada disco novo, cada show novo… eu fico nessa inquietação porque eu quero colocar essas coisas em prática. Colocar à prova essa filosofia do que é fazer um show. Isso não é um peso. A busca é justamente a parte luminosa do trabalho artístico.”

Para Beaau, cada show é como sair de uma caverna apenas para entrar em outra. Sempre adiante, o mundo lá fora, visível, mas nunca plenamente alcançável. Foto: Acervo pessoal.

“Pô, é um disco cheio de participações" 

Essa busca, porém, nunca é solitária. Linhas de Cura nasceu de recortes de sessões de improviso — um gesto coletivo, orgânico, espontâneo.

“Quem gravou a bateria foi o Nunes, do Glote. O baixo é o Lê Almeida. Veio de uma sessão de improviso e a música é curtinha porque a gente tocou exatamente esse trecho.”

Os synths, por sua vez, vieram de Ana — um resgate de uma gravação feita no Museu do Sintetizador para um disco do outro projeto da dupla, Echo Upstairs. “Porra, a gente tem esse tipo de banco de som, sabe?”,  brinca Beeau.

A mudança de sentido

Ana voltou ao Brasil em agosto. Em setembro, partiria novamente para a Europa, mas antes, tocaram juntos no Massari Fest — um show descrito por Beaau como especial. No dia seguinte, tudo mudou.

“No dia seguinte a Ana estava passando muito mal. A gente foi para o hospital e, desde então, ela ficou internada. Fez exames e descobriu que estava com câncer.
A partir daí, nossa vida parou. Nada mais fazia sentido além da saúde dela.”

Beaau contou que, depois do diagnóstico, ficou praticamente impossível pensar em show, agenda ou até mesmo em trabalho. Disse que precisou se readequar completamente, porque agora tudo funciona em um ritmo de “um dia de cada vez”. Nesse processo, decidiu ligar para todo mundo e cancelar tudo: não queria tocar, nem seguir com compromissos que já estavam marcados. O lançamento do disco, que antes estava planejado para outubro, foi adiado para “depois do carnaval”, embora ele mesmo reconheça que é apenas uma ideia provisória.

Adiante, não mais a saída, mas a entrada: para um beco, um labirinto, uma nova caverna? Não se sabia ainda. Foto: Acervo pessoal

Inicialmente, lançaria dois ou três singles antes do álbum, mas a urgência emocional daquele momento o fez abandonar qualquer plano: “cara, não vou lançar nada, foda-se”. A música, disse ele, deixou de ser prioridade ou, mais precisamente, deixou de estar dentro da lógica da priorização.

Ao mesmo tempo, Beaau explicou que isso se conecta diretamente ao peso afetivo que Linhas de Cura tem hoje. Curiosamente, ele afirmou que não está colocando peso nenhum na música, justamente porque o diagnóstico da Ana mudou completamente sua perspectiva. Antes, dentro da lógica do planejamento, o projeto novo carregava expectativas: a busca, o lançamento, os meses de trabalho estruturado.

Agora, porém, tudo isso parece mínimo diante do que realmente importa. Ele disse que, com o que aconteceu, “a música virou uma coisa tipo assim: foda-se”, percebendo o quanto certas preocupações — um show que não saiu como esperado, pequenos detalhes técnicos — são “ínfimas” perto da vida em si.

E concluiu que, muitas vezes, a gente esquece o essencial: se divertir, viver o momento, viver o presente.

Prioridade, leveza e música

O peso removido foi como destrancar uma porta que há muito rangia. Sem expectativa, sem cobrança, sem plano — a música pôde existir com leveza. Linhas de Cura deixou de representar aquelas preocupações “chatas” de prazos, estratégias e lançamentos. Tornou-se outra coisa: um mantra, um fio que se repete para não deixar o dia desabar.

Beaau falou sobre com uma clareza que só quem passou por isso consegue ter:
“Se você deixar isso te consumir, você só vive isso, entendeu? Só vive o tratamento. Só vive o câncer. E isso é muito doloroso. Então a música entra como uma válvula de escape, de salvar a gente disso. De trazer a gente de volta pro que é a vida, do que é a nossa essência, do que é a realidade.
E aí, eu acho que ela ganha valor quando você percebe que é mais importante as pessoas estarem escutando o som.”

Ele contou também que Linhas de Cura o acompanhou o tempo todo, quase como uma presença constante. Disse que, durante o tratamento, a música “ficou pulando na minha cabeça” e que nem sabe ao certo por que a escreveu. “Ela só veio, foi muito espontânea”, explicou. A frase central — “materializar linhas de cura” — seguiu ecoando.

A luta por um tratamento justo

A impressão é que essa materialização ultrapassou o campo da lírica e passou a atuar na vida concreta. Materializar, aqui, não significa apenas repetir uma frase — é instaurar um processo: algo que nasce como pensamento, atravessa o corpo, enfrenta o que é difícil e lento, e só então encontra sua forma final. A cura, nesse percurso, não é um ato isolado, mas o desfecho de uma travessia tortuosa e delicada.

Beaau contou que tudo ficou ainda mais intenso quando descobriram que o convênio da Ana havia descredenciado todos os hospitais oncológicos, concentrando o atendimento em um único lugar. Eles queriam ouvir opiniões diferentes, consultar vários médicos, comparar condutas, mas descobriram que “só existia uma clínica”.

O tratamento oferecido ali era o mais pesado possível, algo que, segundo ele: “extremamente agressivo”. E foi justamente nesse meio-tempo que um conhecido conseguiu uma vaga para os dois no Hospital São Paulo, da Unifesp, pelo SUS. Lá, receberam uma resposta completamente diferente:

“Esse tratamento que passaram para vocês não tem nada a ver. Ela é jovem, é saudável, não precisa tomar esse tanto de química pesada.”

A partir daí, compreenderam que o plano de saúde tinha recomendado o protocolo mais agressivo porque, no caso dela, a cura dependia principalmente da radioterapia — algo que não geraria lucro para a clínica. Beaau resumiu com dureza e precisão: “a clínica queria ganhar dinheiro com ela. É muito podre essa indústria dos convênios”.

Ele contou que, enquanto isso, descobriu que o convênio havia lucrado mais de 200% no período. E que a experiência desmontou muitos estereótipos: o SUS não apenas foi mais rápido, como já estava na segunda semana de tratamento enquanto o convênio nem havia autorizado o atendimento.

Do alívio, um sopro sonoro de vida

Para os dois, esse momento trouxe um alívio real. O diagnóstico, embora assustador no início, mostrava-se tratável: câncer de colo do útero decorrente de HPV, com protocolo bem definido e taxa altíssima de cura. Eles precisaram atravessar o impacto, mas finalmente puderam respirar.

Esse alívio permitiu que algumas coisas voltassem ao lugar. Beaau disse que, com tudo se encaminhando, conseguiu se sentir mais à vontade para retomar pequenos gestos do cotidiano — inclusive o de lançar a música.

“Falei: não, pô… eu vou lançar uma parada. Apesar de tudo estar difícil, ficou mais de boa pra pensar: Tá suave. Vou lançar esse single.”

Já com capa e tudo o single saiu. Foto: Divulgação

Quando a obra permanece e devolve afetos ao mundo

Há uma concepção sobre a obra de arte segundo a qual, no momento em que ela se materializa, passa a possuir vida própria — torna-se um totem, um ponto de encontro entre presenças, capaz de comunicar e de receber comunicação. “Linhas de Cura”, assim como este texto, é um desses objetos de troca. Mesmo quando as páginas do calendário tiverem virado muitas vezes e, um dia, até seus autores já não estiverem mais aqui, esses objetos seguirão existindo e, sobretudo, continuarão emitindo e acolhendo afetos. "Linhas de Cura", lançada em 05/12, pode ser escutada logo abaixo:

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