Editorial: sem crédito, sem direito

TV Cultura usa vídeos sem permissão e não credita músicos em matéria sobre o Mapa da Cena Autoral De São Paulo

25 de fevereiro de 2026

Ao usar o Chama Festival para ilustrar o Mapa da Música Autoral de São Paulo, a reportagem da TV Cultura, no programa Metrópolis, exibida em 19/2, faz uma simplificação: o festival seria a própria “música autoral de São Paulo”. Essa associação não é coincidência. Ao colocá-lo como símbolo do movimento, a reportagem faz parecer que ele inaugura ou representa toda a cena – é a formação de uma “figura pública” para resumir o movimento. E se não foi propositadamente, se o Festival estivesse servindo apenas como um exemplo, custava elencar as bandas que tocaram?

Se não espaço para uma cobertura completa na TV, e se este não era o tema da matéria, o texto poderia ser mais cuidadoso, evitando sugerir que o festival é pioneiro só porque existe, como na frase: “a cena da música alternativa é tão forte em SP, que até surgiu um festival específico: o Chama Festival”. Ela faz parecer que o festival inaugura tudo, ignorando iniciativas anteriores como Banda de Casinha, Porta Maldita, Taciturno, entre outras, que já criaram redes colaborativas, organizaram festivais e posssuem públicos engajados, mas não foram citadas. Dizer que estas manifestações não são “grandes o suficiente”, “relevantes” ou “importantes” para estar na TV, é reduzir o valor dessas experiências e ignorar sua importância na construção contínua da cena.

Fora essas iniciativas, a generalização também apaga outras manifestacoes artisticas para além da música, como os expositores que lá expunham. Além deles, movimentos que acontecem fora do eixo Centro–Zona Oeste também são deixados de lado. Esse ponto dialoga com o próprio Mapa da Música Autoral que, embora apresentado como pesquisa em progresso, já evidencia uma lacuna semelhante. Em entrevista na matéria, Thuro, da Nigéria Futebol Clube, aponta a ausência de casas de show da periferia no levantamento. A observação não é isolada e revela um padrão de visibilidade concentrada.

Ao transformar um evento específico em símbolo da totalidade, a reportagem reforça essa mesma lógica, esquecendo diferenças territoriais, estéticas e organizacionais que estruturam a cena. O resultado é um retrato parcial que tende a confirmar o centro como referência e a periferia como exceção — quando, na prática, ambas são partes constitutivas do mesmo ecossistema cultural.

Também é preciso contextualizar a participação da TV Cultura. A equipe acompanhou o festival todo ou fez uma cobertura pontual? Eles conversaram com o público que veio de longe? Se sim, por que não foi ao ar? A reportagem, já disponível, não explica os limites da cobertura, e o formato, mais protocolar, não dá conta da complexidade do acontecimento.

Além disso, na reportagem ocorre algo gravíssimo: a TV Cultura usou imagens e vídeos feitos pela produtora audiovisual da cena Teleharmonico sem pedir autorização. Não foi só uma falta de crédito, foi uso sem consentimento de material protegido por direitos de uso. São registros feitos por quem, de fato, constrói a memória da cena. É memória, e mais do que isso, trabalho. Trabalho que foi desrespeitado por uma emissora que se diz comprometida com a cultura. Ainda que o uso de imagens para fins jornalísticos seja permitido, creditar ainda é lei. É o mínimo. E ignorar esse direito de quem produz imagem é um desrespeito grave. Não um simples descuido.

Procurados, a produção do Metropolis entrará em contato com a equipe do Desconhecido Juvenal. Ao que tudo indica a Teleharmonico e demais pessoas lesadas serão creditadas a partir de nossa apuração. Até o momento da publicação desta matéria, isso não foi feito. De qualquer forma, é fundamental pontuar o papel central que o trabalho jornalístico teve no caso. Cobrir, apurar e, acima de tudo, cobrar as autoridades é o que faz essa cena não estar mais tão exposta aos mandos e desmandos dos grandes. Estamos de olho.

No geral, há uma visão otimista do crescimento da cena, como se ela fosse boa por si só, e o Mapa da Cena Autoral fosse prova disso. Mas, ao tratar a cena pontualmente em um evento, cria-se um sinônimo de “autenticidade” fácil, transformando aparência e estilo em prova de valor. Penteados ousados, roupas diferentes e experimentações de gênero viram selos de relevância cultural. Essa leitura dialoga mais com uma elite intelectual do eixo Centro-Zona Oeste do que com a diversidade real da cena. No fim, uma realidade rica e complexa é reduzida a uma vitrine, a uma estética de fim de semana.

É importante reconhecer que fomos vistos, claro. Porém da forma que fomos, fica evidente que o futuro e o presente da cena dependem dela mesma: das práticas diárias, dos eventos próprios, das trocas locais, e principalmente, da honestidade em reconhecer o outro e admitir seus próprios limites.

É nesse movimento ininterrupto, sincero e coletivo que a cena se renova como um todo, sem abrir mão da autonomia, construindo um reconhecimento que vai além do holofote momentâneo, e que é, de fato, contínuo.

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