Debate
Convidamos a refletir sobre um suposto crescimento da cena a partir da segunda edição do Chama Festival e algumas mudanças notáveis
27 de fevereiro de 2026
Desconhecido Juvenal
Lara Guimarães
O desenrolar da segunda edição do festival, que une a Porta Maldita e a Festa Inferninho Trabalho Sujo, tornou perceptível alguns pontos: o crescimento recente da cena autoral e as tensões que surgem a partir do ganho de visibilidade de algumas iniciativas alternativas.
Não se trata de um ataque ao festival nem a seus organizadores, tampouco de negar a importância de espaços que reúnem bandas e públicos diversos. O que está em discussão é uma reflexão sobre quais princípios queremos preservar à medida que a cena cresce — que parece inevitável. E sobre como evitar a reprodução de algumas lógicas de centralização, vitrine e assimilação.
A intenção aqui é contribuir para um debate necessário, por quem está dentro da própria cena, sobre como crescer sem perder o sentido coletivo que a sustenta.
A segunda edição do Chama Festival se propõe, de acordo com os organizadores, a “revelar as novas bandas da cena independente brasileira”. A proposta, no entanto, simplifica um fenômeno cultural complexo. Ainda que seja evidente a impossibilidade de abarcar a totalidade de um ecossistema que envolve centenas de bandas, artistas e diversos outros profissionais, o problema não está no recorte em si, mas na forma como ele é apresentado. Em vez de reconhecer seus próprios limites, o festival adota em sua comunicação termos abrangentes que generalizam e sugerem uma representatividade que não pode, de fato, sustentar.
Simplificação parecida pode ser vista na reportagem da TV Cultura, no programa Metrópolis, exibida em 19/2. Nela, há um recorte superficial ao falar do Mapa da Música Autoral de São Paulo — iniciativa do jornalista e editor do G1, Alexandre Bazzan, e da ilustradora Isabella Pontes — e conectá-lo ao Chama Festival. O texto faz um vínculo direto: o festival seria a própria “música autoral de São Paulo”. Essa associação não é coincidência. Ao colocá-lo como símbolo do movimento, a reportagem faz parecer que ele inaugura ou representa toda a cena — é a formação de uma “figura pública” para resumir o movimento. E mesmo que fosse apenas por mero exemplo, custava elencar as bandas que tocaram no dia? Os artistas que expuseram?
Se não há espaço para uma cobertura completa na TV, o texto da reportagem poderia ser mais cuidadoso, evitando sugerir que o festival é pioneiro, como na frase: “a cena da música alternativa é tão forte em SP, que até surgiu um festival específico: o Chama Festival”. Ela faz parecer que o festival inaugura tudo, ignorando iniciativas anteriores como Banda de Casinha, Porta Maldita, Taciturno, entre outras, que já criaram festivais, redes colaborativas e públicos engajados. Dizer que estes atores não são “grandes o suficiente”, “relevantes” ou “importantes” para estar na TV, é reduzir seu valor e ignorar sua importância na construção contínua da cena.
A partir do recorte, característico de uma pesquisa em progresso — feito pelo mapa que se propõe a fazer um levantamento das casas de show de música autoral de São Paulo, e que torna visível uma forte concentração de espaços em Pinheiros —, a reportagem também não abrange movimentos que acontecem fora do eixo Centro–Zona Oeste. Em entrevista à reportagem, Thuro, da Nigéria Futebol Clube, aponta a ausência de casas de show da periferia no levantamento. A observação não é isolada e revela um padrão de visibilidade concentrada.
Ao ilustrar a reportagem com o evento, ela reforça essa mesma lógica, deixando de lado diferenças territoriais, estéticas e organizacionais que estruturam a cena. O resultado é um retrato parcial que consolida a ideia do centro como referência e a periferia como exceção — quando, na prática, ambas são partes constitutivas do mesmo ecossistema cultural.
Além disso, na reportagem ocorre uma falha: o programa Metrópolis usou um vídeo feito pela produtora independente Teleharmonico sem pedir permissão. Vídeos cedidos por Rafa Penna e Bootlegs Malditos não foram creditados. São registros feitos por quem, de fato, constrói a memória da cena. É registro, e mais do que isso, trabalho. Trabalho que foi desrespeitado por uma emissora que tem como linha editorial a cultura. Ainda que o uso de imagens para fins jornalísticos seja permitido, creditar ainda é lei. É o mínimo. E ignorar esse direito de quem produz imagem é um descuido desnecessário.
Procurados, a produção do Metrópolis entrou em contato com a equipe do Desconhecido Juvenal e nos confirmou que consultaram a equipe de redes e jurídica para viabilizar a inserção dos devidos créditos.
No geral, há uma visão otimista do crescimento da cena, como se ela fosse boa por si só, e o Mapa da Cena Autoral fosse prova disso. Mas, ao tratar a cena pontualmente, transformando aparência e estilo em prova de valor, penteados ousados e experimentações de gênero viram selos de relevância cultural. Essa leitura dialoga mais com o eixo Centro-Zona Oeste do que com a totalidade da cena. No fim, uma realidade rica e complexa é reduzida a uma vitrine e a uma estética de fim de semana.
É importante reconhecer que fomos vistos, claro. Porém da forma que fomos, fica claro que o futuro e o presente da cena se sustentam em si, sem a validação externa.
É nesse movimento orgânico que a cena se renova como um todo, sem abrir mão da autonomia, construindo um reconhecimento que vai além do holofote momentâneo.
Há uma tensão em relação ao local escolhido para o festival. Ele reflete mais uma vez a escolha da sede ser no eixo Centro-Zona Oeste. Muitas das bandas e do público vieram do ABC Paulista ou dos extremos da cidade. O que fez com que muitos não conseguissem ver os shows até o final por causa dos atrasos e as interpolações sucessivas entre as apresentações, sem contar o deslocamento exaustivo e caro para boa parte do público.
Não é à toa que bandas como a Cianoceronte, vinda em grande parte de Santo André, exaltaram o fato de ser um “privilégio” apresentar sua música para as pessoas da capital de São Paulo. Reflete que o deslocamento não é falta de oportunidade, é um desejo de manter a banda viva de onde vieram. Muita coisa só faz sentido para quem é da região, e é isso que torna cada underground reunido no Chama Festival especial.
Isso nos coloca para pensar: Afinal, para quem e para que serviu o Chama Festival? Para ser vitrine? Reunir amigos? Chamar atenção de quem está de fora da bolha (crítica, mídia, etc)? E quem se beneficia? As bandas, os organizadores ou o público? Fica no ar a questão sobre o propósito político de um festival diaspórico. Onde justamente o maior coletivo ali presente, a Nigéria Futebol Clube, de Itaquaquecetuba, comentou sobre o desconforto com essa distância posteriormente. Afinal, qual é o reconhecimento e oportunidades que os músicos podem esperar da mídia e dos espaços tradicionais para além de uma permanência tolerada?
O insurgente é aceito dentro dos limites. Não há mudança estrutural fora do inconsciente de alguns que assistiram. A casa, depois, continua a mesma, com seus modos, costumes e preferências. Graças à proposta do festival em ser alternativo, ele tolera a rebeldia que vem no pacote. Fora dela, a permanência não seria permitida.
Ao ver a apresentação da Nigéria Futebol Clube, era possível perceber uma mudança atmosférica. O transe dos vamps de rap, a percussão, sintetizadores, o grande improviso, formam uma banda. Mas o que estava no palco era um coletivo. Quebrando com a lógica tradicional de shows e interpretação do papel do artista, a Nigéria Futebol Clube apresentou um “antishow”, onde público e artistas ocuparam o palco.
Essa transgressão não atingiu a todos. Em depoimento, um morador do ABC explica:
“Abriram uma roda enorme mas não entrava quase ninguém para bater cabeça. Inclusive lembro de gente do meu lado que tava meio pistola por causa disso. Vi muita concentração na frente do palco, mas a lateral e fundo [da pista] tudo miúdo e tímido com medo de entrar na roda que em vários momentos ficou vazia”.
Em comparação, durante a apresentação do Baile do Peixe — um show com temática mais casual — houve um pequeno esforço com “um pequeno mosh com contato físico, durante uma música sobre fumar maconha com a avó, eu acho”, relatou.
O contraste de comportamento traz a pergunta: por que o intuito de subverter um show mais tradicional teve menos sucesso?
Não há demérito na diferença entre as propostas, mas a reação de parte do público frente aos dois shows indica um processo interessante de recepção.
Mosh não é performance. Surge como revolta de uma classe oprimida, que explode em forma de socos, chutes e trombões violentos em uma roda. Porém, quando a classe que experimenta não é aquela explorada, temos a transformação de uma identidade em estética e performance — a assimilação. O que também neutraliza e despotencializa o discurso de mudança da Nigéria.
Vemos, então, a conversão da música em produto consumível, ao invés de uma manifestação artística.
O episódio abre reflexões sobre as consequências de quem vem de fora em ocupar espaços na Zona Oeste/Centro da capital. E uma indagação que surgiu quando uma das bandas periféricas ao ser exposta pela mídia como a Nigéria Futebol Clube e, que inclusive, nega querer participar mais.
“Agora a Nigéria Futebol Clube não dá mais entrevistas de forma centralizada.” Foi a resposta que tivemos após o Desconhecido Juvenal tentar conversar com os membros. O coletivo enraizado em influências da música negra, como blues, samba, rap e jazz, diz fazer algo que não tem explicação.
Nesse sentido, dificulta o esforço da mídia em explicá-los. “A gente quer conversar sobre qualquer outra coisa que não a Nigéria”, disse o coletivo. Acrescentando que o formato de entrevista não é o ideal para entendê-los. Segundo eles, uma conversa não gravada atingiria melhor esse objetivo.
No entanto, o tensionamento ainda existe. Conceder uma entrevista à TV Cultura, pode parecer uma contradição à decisão de não conversar com a mídia, mas também pode ser entendida como protesto para movimentar o local de onde vieram: a periferia. Nela, e até em outros lugares, o que aparece na TV é valorizado e validado. “Tocar na Vila Madalena é fácil. Difícil é você fazer isso lá na quebrada e ouvir de um cara que você admira, ‘vocês estão perdendo tempo’”, explica o coletivo.
Nigéria Futebol Clube no palco (Foto: Lara Guimarães)
Uma cena que cresce, começa a botar a cabeça para fora da água. Mas quem é o dono da piscina?
O crescimento da cena é inevitável e, em muitos aspectos, desejável. Logo, pensar nesse crescimento é necessário para entender as lógicas do mainstream que começam a aparecer.
Tudo que envolve dinheiro se torna produto. Como alternativa a isso, muitos dos festivais da cena são pensados de maneira coletiva, através de entradas acessíveis e trans-free, porque a ideia não é o lucro, mas sua sustentabilidade. É uma tentativa de não se afogar na produtização generalizada da cultura e buscar criar um espaço alternativo para tocar e conhecer novas pessoas.
Mas o mainstream tem outros planos. Quando uma cena passa a chamar atenção, ela pode muitas vezes, se separar de suas histórias, de seus locais de origem. Colocando desafios concretos para quem busca crescer sem perder seus princípios.
Nesse sentido, o Chama Festival levanta questões importantes. O evento acabou funcionando, em alguns aspectos, como uma vitrine da cena para a elite, na qual dois públicos significativos — do ABC Paulista e do Alto Tietê — encontraram dificuldades para acompanhar o festival até o final. A ampliação da cena e sua concentração no eixo Centro–Zona Oeste, aliado às exigências de deslocamento, indicam um desafio ainda aberto: como ela pode crescer sem se distanciar do público que ajudou as bandas a construir esse movimento? Em outras palavras, se o propósito for crescer, como fazer isso sem perder a essência do underground. Como crescer sendo respeitado?
Por isso o Chama Festival tinha um sabor ausente. Aquele sabor de breja barata que a galera faz rateio para beber e o de ver sua banda favorita do lado de casa, porque eles são os seus vizinhos; tudo se borra.
O que tivemos foi um choque de realidade. Um encontro entre o espaço com uma capacidade de receber mais pessoas e, consequentemente, de maior institucionalização, com um público que se desloca e que está mais acostumado a espaços mais orgânicos e livres. Além dos metros quadrados, o Chama Festival trouxe oito bandas de lugares e estilos diferentes, cada um com seu público. A conjuntura do festival traz a impressão de vitrinização do evento, causado principalmente pelo bairro e casa em que ocorreu. Uma tentativa que não ofereceu resistência à ideia de que podem, devem ou querem ser vendidos. E junto deles, todos os demais elementos que compuseram o evento.
A impressão que pode surgir é que a rentabilidade e a visibilidade sobrepõem o fazer artístico. Um resultado da soma entre a escolha do espaço maior, sua logística complicada e a fusão de oito bandas.
A cena engloba movimento, política, música, estética e fundamento. E por que não, um divertimento no final de semana. O crescimento pode fazer com que isso seja interrompido e absorvido pela lógica mainstream. A naturalidade, a diversão e a arte podem ser substituídas por breja cara e público xoxo, caso não estejamos conscientes disso.
A chama do festival é ao mesmo tempo o combustível para a propulsão das bandas, mas também acende o alerta: a partir de agora a cena estará cada vez mais em contextos que a lógica econômica se impõe.
Por último, fica o questionamento: o que vai ser o futuro? Ou melhor, o que queremos dele?
Enquanto o que dominava eram os inferninhos, onde todos se conheciam e se sentiam à vontade — em gênero, arte e denúncia —, surge uma nova forma de organização. Menos suja e orgânica? Sim, por causa de seu tom mais institucional quando comparada ao que estava em voga.
Uma consequência de uma cena que se expande e que não é mais um diálogo entre o centro e a periferia, mas também entre estados. A Casa Rockambole pode parecer mais limpa para alguns, mas também é o “alternativo” para outros. Não é crime pessoas de fora se interessarem pela cena.
Queremos que ela não perca sua suposta essência ao crescer, mas também não gostamos dos efeitos de sua expansão? Essa discussão existiu em cenas que antecederam a nossa? Bandas como Ira!, Titãs e RPM – que se tornaram cânones do rock nacional – também tocaram em porões equivalentes aos nossos. O crescimento talvez seja inevitável. O juízo de valor cabe à História.
Claro que o nosso gosto em participar do movimento vem desde o front ao fundão; do PA à iluminação; da bilheteria aos artistas. A tendência é o pensamento mercadológico influenciar mais e mais. Contudo, isso não impede que tentemos manter o gosto de cerveja barata e cigarro.
Isso significa praticar o que já é feito na maioria dos rolês: as conexões com os picos, os eventos auto-organizados e a cobrança pelo justo, para que não haja situações como a falta de crédito em reportagens ou, em alguns casos, o não pagamento dos artistas pelo seu trabalho. Importante entender que não precisa existir uma hierarquia entre os artistas: quem tem mais fama não é mais importante do que quem está começando agora. Nada impede que sua banda de bairro um dia se torne admirada como são as bandas do Chama Festival.
Esse crescimento tem um gosto agridoce, como muitas mudanças têm. Nomear, refletir, entender e agir sobre elas é o que fortalece a cena. É a potência que mora em cada um – seja público e artista – em organizar seu próprio pico, formar uma banda e traçar seu caminho, seja ele para dez ou mil pessoas. É continuar o ciclo que segue a formar e enterrar cada cena que existe.
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