Cobertura

Chama Festival: “Essa arte sangra e nunca cicatriza!"

No último sábado (13), aconteceu a primeira edição do Chama Festival, que estreou com oito bandas que se uniram com artistas convidados, trazendo participações especiais para seus shows na casa Rockambole, criando uma comemoração em grande estilo dos dois anos da abertura da Porta Maldita e da festa Inferninho Trabalho Sujo.

20 de setembro de 2025

Texto: 

Matheus Cerullo (@matheus_cerullo_rock_)

Imagens: 

Matheus Cerullo (@matheus_cerullo_rock_)

Alexandre Matias e Arthur Amaral uniram-se para realizar o festival recheado de bandas que estão despontando na cena com o intuíto de celebrar o aniversário de dois anos de seus respectivos projetos. Matias com o seu evento já estabelecido da cena independente, Inferninho Trabalho Sujo e Tuta - apelido de Arthur - com o espaço fixo de sua casa de show, A Porta Maldita, antes ocorrida de forma itinerante. O evento celebrou os projetos dos dois da única maneira possível, com um processo colaborativo entre artistas para criar uma noite de shows sublime, onde o grande circo da vida pode respirar durante as quase seis horas de show ininterruptos da noite.

O evento começou muito antes da abertura das portas da Casa Rockambole, onde a equipe de iluminação, som e staff já estavam movendo alguns materiais do vizinho Porta Maldita e garantindo o funcionamento dos equipamentos de luz e som. No palco principal, a banda de Gabiroto montava seus instrumentos para realizar a passagem de som, que para todos os efeitos já conseguia ser mais impactante do que muitos shows feitos em estádios por artistas donos de porções gigantes do mercado fonográfico. Uma grande escada era usada para instalar uma fita para a ginasta que iria se apresentar em algumas horas. A agitação era clara entre ruídos, chiados e cabos com má conexão. Conforme a tarde passava, mais músicos chegavam com seus instrumentos e os empilhavam aguardando a sua vez de subirem aos palcos.

Monstro Bom

Gabrielli Motta, Ian Ferreira e Igor Beares, integrantes da Monstro Bom assistem a passagem de som de Gabiroto e sua banda. Foto: Matheus Cerullo.

 Lala Santos e Luíza Villa (vocal) dialogavam através da música com primor. Foto: Matheus Cerullo.

 OS ORGANIZADORES DO FESTIVAL

“Eu conheço o Arthur desde o tempo que A Porta Maldita era um evento itinerante”, comenta Alexandre Matias. “A gente na verdade fez esse ano uma versão do Inferninho-Porta-Maldita e falamos, cara, dá para fazer algo maior. Maior nessa coisa, vamos fazer algo grande? Não. Tanto na minha lógica quanto na do Arthur não precisa ser gigantesco, a gente não trabalha com número. A gente está interessado em todo mundo estar trabalhando bem, tá curtindo, fazendo do jeito que sabe fazer e gosta. A gente acaba penando um pouco por isso, trabalhando por um valor um pouco abaixo, mas todos estão interessados.”

Na primeira edição do chama, as bandas acabam se conhecendo, mas com a crescente de novos grupos independentes a ideia do evento é oxigenar a cena ainda mais, não fazendo apenas edições anuais da festa. Inclusive, comentam como a participação de oito bandas com artistas convidados ressalta a crescente da cena, com os trabalhos tão recentes que alguns dos participantes nem têm álbuns lançados. Arthur Amaral comenta: “O poder do coletivo é uma coisa que é gigante, você só consegue fazer essas coisas com um monte de gente, né? Sozinho você não vai fazer muita coisa.”


Arthur Amaral e Alexandre Matias

Arthur Amaral e Alexandre Matias em entrevista para o Juvenal. Foto por: Matheus Cerullo.

Isso reflete a história de Arthur na cena independente, que já passou anos fazendo A Porta Maldita em praças “Eu fiz uma faculdade na rua, depois mestrado na Casa do Mancha e no FFFront e agora estou no doutorado, sou o dono da minha casa”, comenta em bom humor. Essa é a grandeza da cena, hoje sua casa de shows conta com alguns artistas que também o ajudam a organizar o que precisa para tocar o estabelecimento. “A cena gira muito dinheiro, o designer, a pessoa que tira foto” (…) “No final todo mundo acaba fazendo tudo.”

Técnico de som durante show da Saravá. Foto: Matheus Cerullo.

O festival também marcou o primeiro evento com dois palcos e shows simultâneos, desde que o Centro Cultural Rio Verde foi fechado no primeiro semestre de 2021 por conta da crise econômica no mercado de eventos gerada pela pandemia de COVID-19. Hoje o espaço é do selo Rockambole e para os idealizadores do festival, o modelo de seu show é uma homenagem ao legado daquele espaço. Shows parecidos já haviam sido feitos, como no Festival Fora da Casinha, feito pela já citada Casa do Mancha. Arthur ainda ressalta: “Eu conheci você (Alexandre) em um de seus aniversários, com você discotecando no Mancha em um domingo.” 

A maior virtude de seus trabalhos é conhecer novos artistas e descobrir coisas boas, Arthur já está na cena há 10 anos e Alexandre há 30. O que eles esperam é continuar nessa jornada, fazendo o que gostam. Ainda terminaram a entrevista com uma reflexão para o repórter: “Você se vê fazendo isso daqui dez anos?”, sendo esse o segredo para entender se você está no lugar certo, porque o que você faz não deve estar separado de quem você é, não por coincidência, todos os palcos daquela noite transpareceram isso com clareza. 

Como em um passe de mágica, Saravá

O segundo show da noite começou estridente quando o trio Saravá subiu aos palcos do Teatro para fazer um dos show eletrizante, movido a riffs pesados de guitarra e uma bateria livre e pesada, digna dos tempos áureos de Bill Ward no Black Sabbath.

Saravá

As explosões de luz, em vão, tentavam acompanhar a banda. Foto: Matheus Cerullo.

O público grudou seus olhos no palco como uma mosca em uma lata de refrigerante quando Ricardo Paes subiu ao palco, com sua voz profunda e repleta de camadas. Esse segmento contou com canções mais melódicas, comuns para a voz do convidado, quando se encerrou em mais uma música explosiva do trio, com gosto de quero mais e sem possibilidade de bis, o tempo urgia. 

Saravá + Ricardo Paes

Ricardo Paes em show com a Saravá, adicionando ao trabalho da banda. Foto: Matheus Cerullo.

Logo, boa parte do público correu em disparada para o outro palco onde D’artagnan Não Mora Mais Aqui se apresentava com a participação especial de Rodrigs, da Nigéria Futebol Clube, inclusive ambas bandas contam com Conceição como baterista. O show deles foi uma miscelânea de performance, com noise e espírito destrutivo, caótico e preocupado com questões ambientais assim como os australianos do King Gizzard, estampados na blusa de Renan Dimas, líder da D’artagnan. 

Rodrigs faz a guitarra dar lugar aos pedais, relinchando em conjunto de uma cozinha sólida. Foto: Matheus Cerullo.

Em uma mistura de performance e trovões, Mike Maluco é visto à esquerda. Foto: Matheus Cerullo.

QUANDO O MONSTRO VIVE NA MÚSICA 

Saindo sem rumo, com os ouvidos desorientados e seu labirinto pedindo arrego de tanta música alta, os tímpanos da audiência puderam encontrar algum conforto ao ver o show da Monstro Bom, carregado por linhas de baixo dançantes, e vocais singelos da Gabrielli Motta, a veia pop da banda pareceu abraçar o teatro com contornos oníricos, sedimentados no trabalho em dupla das guitarra de Gabrielli e Felipe Aranha.

Gabrielli e Felipe tocam suas guitarras adornados por um verde limão. Foto: Matheus Cerullo.

Gabrielli e Felipe Aranha tocam suas guitarras adornados por um verde limão. Foto: Matheus Cerullo.

Conforto esse quebrado pelo show da Tutu Nana, onde o noise tomou novos rumos, e dessa vez produziu uma camada sonora densa, capaz de suspender o tempo em bolha. Um grande ritual ao tempo presente era suscitado, enquanto a guitarra de Akira retumbava, e a convidada Karin Santa Rosa cuidava de detalhes atmosféricos, com pedais, instrumentos de sopro e percussão. Em alguns momentos criando panos de fundo mais leves com apitos com cantos de pássaro e em outros adicionando sujeira com pedais e microfonia.

Tutu Nana

O som denso, cortado pela flauta de Carolina Acaiah. Foto: Matheus Cerullo.

GABIROTO: O SHOW CATARSE

O show entregue por Gabiroto e todos os artistas talentosos colocados sob o guarda-chuva de sua apresentação não se restringiu apenas aos palcos e aos músicos. A apresentação contou com bailarinas, palhaços, circenses e acrobatas. Além da já citada Luíza Villa e do guitarrista Thrash, com uma participação energética, e segundo o próprio, improvisada. Seu show foi a representação máxima do esforço coletivo proposto pelo festival, um grande êxtase, que saiu dos palcos e abraçou todos os espectadores, que abriram uma roda para assistir com fascínio a apresentação dos artistas ou se uniam para dançar em uma grande roda, que pouco parecia com as clássicas rodas punk de shows mais pesados.

Espirais eram eternizadas nas mãos do bruxo, um rito de passagem para si mesmo e todos os presentes. Foto: Matheus Cerullo.

Ao final do show de Gabiroto até gigantes andavam entre nós. Foto: Matheus Cerullo.

A apresentação  terminou em uma grande catarse, uma representação do circo da vida que nem mesmo Federico Fellini conseguiria aludir ou representar em um de seus filmes, um momento que logo queria escapar, marcado para sempre na palma das mãos do bardo da guitarra elétrica ao iniciar o show e traduzir a luta de diversos artistas independentes: “Essa arte sangra! Essa Arte dói! E nunca cicatriza!” 

Perguntado sobre sua participação no festival, Rafa Pena da Applegate, enquanto parte de uma geração de bandas anterior à maioria da cena independente presente ali presente, reflete sobre seu legado na cena Bandas como Naimaculada e Celacanto são influenciadas pelo projeto de Rafa, que comenta: “Essa cena que estamos vendo agora é uma das cenas mais importantes dos últimos anos, tá ligado? (...) O momento mais marcante foi estar presente nesse meio e perceber isso. Muitas vezes a gente vive as coisas e não se liga na importância delas. Ouvi muitos elogios de quem frequentou o festival de ter mesclado os artistas, botar dois artistas para tocar juntos e automaticamente os públicos se misturam.” 

Gabiroto e Tuta dividem o palco por um breve momento. Foto: Matheus Cerullo.

Ao final da noite, o repórter do Desconhecido Juvenal não conseguiu ficar para ver os últimos dois shows - ele saiu em disparada ao metrô para conseguir chegar em casa - então só lhe restou imaginar como o show da Ottopapi se concretizou, sendo este um dos momentos que escapam à apreciação, assim como a noite incrível escapou para aqueles que não a viram.

A CENA DA CENA

Ao publicar a matéria na sexta-feira (19), fomos chamados a atenção de um aspecto importante sobre a realização do Chama Festival e o contexto em que ele está inserido, a cena que faz a cena acontecer. Alguns artistas que tocam nas casas de show não estão apenas em cima dos palcos, mas também na equipe técnica, cuidando de som, iluminação, bar e até portaria. Como comenta Samuel Xavier: “O pessoal que ta trampando nesses eventos da cena geralmente também toca e usa esses trampos até como fonte de renda.” E esse é exatamente o seu caso, trabalhando como técnico de som e salvando os músicos de eventuais problemas durante as apresentações, Samuel ainda é músico e toca guitarra na Naimaculada, banda que conta com o já citado Ricardo Paes. 

Pedro Pedroso fotografa a Monstro Bom durante passagem de som. Foto: Matheus Cerullo.

Ricardo passa pela mesma situação de seu companheiro, precisando sempre arranjar formas de fazer dinheiro para manter sua paixão pela música acesa. “Eu não consigo me sustentar somente com a minha banda. A minha banda, velho, não dá grana o suficiente para ninguém sobreviver. Mas as coisas estão escalando e espero que isso mude algum dia. Enquanto não, eu estou trabalhando aqui (na Porta Maldita) já faz dois anos, tá ligado? E é um lugar que me ajudou a sustentar a minha arte, me ajudou a pagar meu disco, me ajudou a gravar coisas, me deu uma possibilidade. Eu trabalhei nesse meio tempo como CLT também, no setor cultural, na secretária de cultura em Osasco. É o mesmo tipo de capacidade de fomento, só que aqui é uma realidade muito independente, que as coisas surgem através dos nossos estímulos e vontades. Dá para sobreviver de arte, mas é muito difícil.”

Samuel durante a passagem de som da Saravá. Foto: Matheus Cerullo.

Não somente esses dois compuseram a equipe de artistas responsáveis pela organização do festival, outro exemplo é Led Johnson, baterista da Red Roof e até mesmo Lúcia Rocío, fotógrafa e musicista, uma das diversas pessoas responsáveis por registrar o evento. Ao perceber esses cruzamentos de identidades e funções, revela-se o ecossistema onde a arte independente respira, permitindo que pessoas trabalhem próximas de suas paixões e as exerçam. 

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