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O sigilo garante sua volta: um refúgio de arte, brechó e afetos no coração da República

27 de setembro de 2025

Texto: 

Leuni Denoni

Imagens: 

Leuni Denoni

Entre roupas garimpadas, apresentações independentes e um pacto silencioso, um espaço cultural de acolhimento se afirma no centro de São Paulo.

A MindHemp — abreviação de Mente de Cânhamo — nasceu de quatro amigos que decidiram criar um ponto de encontro alternativo.

Entre andares e personalidade

O edifício que abriga a Mind se mistura à paisagem urbana da República sem chamar tanta atenção: suas fachadas discretas escondem seis andares repletos de lojas de brechó, cada uma com sua própria curadoria e estilo. Percorrer os andares é descobrir mundos diferentes que se conectam em um grande universo. 

Cada loja conversa com a outra, formando um organismo vivo de moda garimpada, acessórios vintage e peças únicas. Cada andar tem sua personalidade: um mais minimalista, outro cheio de cores e acessórios únicos; um com roupas acessíveis, outro com itens de colecionador.

O cheiro das roupas, dos mais diversos tecidos e couro velho se mistura ao aroma da rua, do cigarro e do incenso presente em algumas lojas. Cada detalhe — da iluminação suave aos cabides cuidadosamente organizados — convida a explorar, garimpar e se perder entre camadas de histórias e tecidos.

No meio desse fluxo, a Mind surge como se tivesse brotado entre as lojas. Discreta e acolhedora, sem sinais de ostentação, as paredes cheias de arte e pixo, uma sinuca que te chama pro “play”, cantos aconchegantes e espaços improvisados para apresentações criam uma atmosfera única. O som da música, risadas e o murmúrio de conversas compõem uma trilha sonora que reforça a sensação de um espaço vivo, mas sem esforço, quase secreto.

Foto: Leuni Denoni

O meu lindo pedacinho do céu

O ponto de partida da MindHemp foi a vontade de criar um espaço de encontro e liberdade cultural. Quatro amigos, ligados pela amizade e pelo interesse em cultura e cannabis, perceberam que a galera que frequentava seu círculo queria um lugar para ficar, mas que a loja de roupas sozinha não comportava. Em entrevista para o Desconhecido Juvenal,  os fundadores nos contam:

“A galera vinha muito aqui e gostava de ficar. Não cabia na loja, então pensamos em ter uma headshop, já que o público de maconha é grande.” 

A ideia se concretizou com a criação de um espaço que unisse o comércio de produtos voltados ao universo canábico com a promoção da arte independente. 

“Criamos um espaço para vender produtos canábicos e também manter a arte viva.”

O espaço funciona como uma extensão da própria comunidade, quem chega conhece o espírito do lugar e, aos poucos, se envolve. As apresentações artísticas são gratuitas, e o contato entre artistas e público surge de maneira natural, muitas vezes por indicação.

“Todo mundo parece que é artista de algo e isso é muito bom. A galera vendo que é possível se apresentar de forma gratuita, cultural e que acontece de verdade, acaba se envolvendo.” 

A manutenção financeira do espaço é desafiadora, mas a paixão do coletivo sustenta cada nuance do projeto. 

“O retorno na verdade vem do nosso brechó. Garimpamos uma vez por semana, tiramos bolinhas, pelo, manchas, costuramos zíperes e botões, todas as demandas que uma peça já usada acaba sofrendo e vai para o descarte, né? É o que mantém a gente vivo.”

O silêncio da polifonia

Música, dança, poesia ou qualquer outra forma de expressão artística encontra ali um palco e um público aconchegante. O respeito é a base da convivência. Independentemente de idade, origem ou escolhas de vida, todos são recebidos de forma igualitária:

“A gente respeita quem não consome maconha, e espera o mesmo de todos. Não vamos ser melhores nem piores por usar ou não usar.” 

O sigilo protege o espaço e sua essência:

“O sigilo é a garantia do replay. Se você não contar, a experiência se repete. É um espaço de resistência, onde cada um decide o que acontece.”

O uso de cannabis é permitido de forma responsável, mas o espaço não comercializa drogas.

Arte no shaipe de skate reciclado com acessórios de dreadlocks pelo artista Pantcho. Foto: Leuni Denoni

Artistas na casa

No dia 13 de setembro, Pantcho (@pantcho.art) veio expor parte do seu trabalho na MindHemp. Grafiteiro, artista plástico, MC e tatuador, ele descreve a experiência como intensa e gratificante:

“O espaço me recebeu muito bem, é muito cultural. Tá dando apoio à arte, música, rap. Tô conhecendo a galera e tô aqui dando a arte cultural, urbana, que é o que representa.”

Seu trabalho mistura influências visuais e elementos tridimensionais, aplicados em shapes de skate reciclados, criando uma identidade própria que conecta rua e arte.

“A minha arte transpassa esse lance da periferia. É uma linguagem da rua pra rua. Então, por isso que pra mim, tá sendo muito gratificante estar aqui e  compartilhando esse trabalho.”

A MindHemp costuma receber eventos quase todos os sábados, geralmente às 16h20, criando um ritmo próprio que se tornou parte da rotina da comunidade. Pantcho vê o espaço como um ponto de partida, mas já planeja futuras intervenções em outros locais, levando sua arte autoral a novos públicos e espaços. A presença do rap, da cultura de skate e do grafite no espaço reforça essa conexão orgânica entre a arte e a comunidade, tornando cada evento quase uma extensão viva da cidade.

Tela com tema ( Cotidiano ) por Pantcho. Foto: Leuni Denoni

O fluxo de experiência 

Roupas garimpadas, grafites e pixações que gritam e músicas que dançam com quem acaba de chegar. A MindHemp se abre como uma experiência que se repete a cada visita, construída pelo respeito e pela confiança de quem chega. Mesmo sem eventos marcados: o fluxo de arte e dos encontros continua livre e acolhedor.

O sigilo protege sua essência, mas também garante que ela se espalhe de forma invisível. Quem conhece, volta, e quem volta, participa. Um espaço de arte e afeto só existe quando todos respeitam suas regras invisíveis.

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