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Um Banquete de Distorções no Fim de Festa do Brat Summer

O mockumentary protagonizado por Charli XCX sobre sua recente entrada no mainstream é infectado por ansiedades que vão muito além do estrelato pop.

12 de março de 2026

Texto: 

Giovanni Giani (@thegiovannigiani)

NOTA: Este texto possui notas de rodapé.

Em 1965, D. A. Pennebaker grava um documentário acompanhando a turnê de Bob Dylan pela Inglaterra, semanas após o lançamento de seu quinto álbum, Bringing It All Back Home. É o primeiro do artista folk a fugir da instrumentação puramente acústica, lançado alguns meses antes de Dylan subir no palco do Newport Folk Festival com uma guitarra elétrica e causar histeria em massa no mundo da música. O documentário, Dont Look Back, captura esse limbo transitório, com Dylan no ápice de sua popularidade conforme se torna uma figura cada vez mais controversa. Suas conversas com jornalistas parecem duelos. Ele se explica. Ele desvia de perguntas. Ele se contradiz. Na última cena do filme ele se diverte com o fato de que um dos jornais o definiu como um anarquista. Ele alfineta, sarcasticamente: “dê um cigarro para o anarquista!”.

Em 16 de Abril de 1992, a revista Rolling Stone lança uma edição sobre o Nirvana que rapidamente tinha se tornado um sucesso mundial estrondoso, para infelicidade do vocalista Kurt Cobain, que se encontrava ressentido pelo status da banda como produto no mainstream. No dia da sessão de fotos para a revista, Cobain usa, como protesto, uma camiseta feita por ele mesmo com os dizeres “Corporate magazines still suck”: revistas corporativas ainda são uma merda, em tradução livre. O fotógrafo decide usar uma foto em que a camiseta aparece proeminentemente para a capa da edição. Nos próximos meses a popularidade da banda só aumenta. Quase exatamente dois anos depois, Cobain é encontrado morto após cometer suícidio.

O protagonista de Good Old Neon, conto de David Foster Wallace, é uma fraude. Simples assim. Sem contestações ou controvérsias ou argumentos pelo contrário. Na verdade, ele mesmo se define como tal: alguém sem nenhuma ideologia ou crença real, que se molda ao comportamento das pessoas ao seu redor. Seus interesses são os interesses dos seus colegas de trabalho, sua personalidade é a que o contexto pede. Ele entra em uma aula de meditação e performa como o estudante que consegue passar mais tempo estático, mesmo que por dentro ele não esteja nem sequer tentando meditar de verdade, concentrando todo o seu esforço em parecer concentrado do que em realmente estar. Por mais que ele procure, ele não consegue encontrar algo que possa ser definido como uma identidade – algo imutável e tangível; sólido e real. Isso gera uma certa crise existencial.

Em 7 de junho de 2024, a cantora pop britânica Charli XCX lança seu sexto álbum Brat.

MUNDINHO XCX

The Moment (2026) não é exatamente anacrônico – dialoga perfeitamente com a época do seu lançamento, com sua autoconsciência neurótica e uma metanarrativa pós-pós-irônica – mas com certeza é inconvencional, especialmente considerando seu lugar na cultura da música pop. O mockumentary¹ dirigido por Aidan Zamiri acompanha a estrela britânica conforme ela se prepara para embarcar na turnê de Brat enquanto tenta lidar com uma atenção midiática e relevância cultural sem precedentes na sua carreira. Tenta sendo a palavra importante aqui.

O momento inicial talvez é o que chega mais próximo da imagem mental que alguém familiarizado com o trabalho da cantora pode imaginar ao comprar um ingresso para um “filme de Brat”. O som do dance pop agressivo do remix de 365 é disparado dos alto-falantes em alta velocidade enquanto a partygirl mais famosa de 2024 é filmada de maneira estatuesca, a montagem frenética intercalada com luzes piscantes fragmentando seus movimentos animalescos e revezando as imagens do ícone cultural com seu efeito na mídia. A introdução funciona de maneira similar a 360, faixa que abre o álbum: nós somos introduzidos a um ícone incontestado pela estética da obra. Não é apenas que Zamiri a filma como se ela fosse a mulher mais poderosa do planeta, mas o seu impacto midiático e como ele é apresentado pela montagem trata esta imagem como fato. A pura realidade, nas palavras da artista: I’m everywhere, I’m so Julia².

O momento acaba. A música para. 

A montagem descansa, e nós focamos em um só plano, próximo de uma Charli ofegante e nada estatuesca. Um tom enjoativo de verde ilumina a cena.

Reprodução Studio365

A subversão presente aqui é a real introdução do filme. A fantasia da estrela pop, onipresente e incontestável, e cercada por um oceano sonoro de impacto e prazer não recebe mais nenhuma indulgência da narrativa. Pelos próximos 100 minutos, mais ou menos, Charli XCX é retratada como insegura, isolada, paranoica, mesquinha e indecisa, beirando a insanidade. Não há mais números musicais – com exceção de um que será abordado futuramente no texto.

Não exatamente o caminho mais comum para uma estrela pop.

Como o próprio filme nota, frente a um sucesso estrondoso no mundo da música, um filme concerto é a opção escolhida, geralmente. Inofensivo, blasé, e com uma lógica de produção A até B tão simples que até executivos de gravadoras podem entender, não é de se admirar que façam tanto sucesso entre as opções apresentadas como jeitos de capitalizar em cima de movimentos culturais. Todo mundo ganha: o artista ganha capital simbólico, os fãs ganham uma nova obsessão, e os previamente mencionados executivos de gravadora ganham dinheiro em cima da sua exploração da classe artística, assim como os cinemas e as produtoras audiovisuais envolvidas. Talvez a única pessoa que não ganhe seja eu, que teve que ouvir a Taylor Swift no meio de uma sessão de Assassinos da Lua das Flores enquanto o Eras Tour era exibido na sala ao lado, mas isso não vem ao caso.

The Moment, tal qual um filme concerto, inevitavelmente vai levar a um aumento nas streams, nas vendas de discos e merchan, nos memes e nas festas temáticas na ZIG³. O cachê cultural XCX-iano vai receber mais uma injeção de capital, sem dúvidas auxiliado pela proximidade do lançamento com a trilha sonora da adaptação de Emerald Fennel de Morro dos Ventos Uivantes. 

The Moment, diferente de um filme concerto, talvez provoque algumas sensações de um tipo de desconforto primal que lhe seguirão para fora da sala de cinema e se assentarão em seu peito, irreconhecíveis e inverbalizados, como a volta para casa após uma festa que lhe pareceu estranhamente solitária, mesmo cercado de pessoas.

BUSCANDO O HYPE(R)

Aqueles familiarizados com a trajetória de Charli não vão se surpreender com a manobra nada ortodoxa que é The Moment. A cantora associada ao movimento Hyperpop e a PC Music⁴ muda bruscamente seu som ao conhecer a musa do lado mais avant-garde da música pop, Sophie. Incorporando o metálico e o artificial ao extremo em cima de estruturas pop convencionais  – as deformando e as desconfigurando – assim como um senso de humor que pende ao camp, o movimento pré-pandêmico foi louvado pelos entusiastas do nicho como o futuro do pop, antes do seu colapso⁵.

Vroom Vroom, o EP de 2016 lançado por Charli e produzido por Sophie é um divisor de águas na carreira da artista, introduzindo uma abordagem mais nichada que pende ao experimental e é aprofundada nas mixtapes Number 1 Angel e Pop 2, ambas de 2017, e nos álbuns Charli (2019) e How I’m Feeling Now (2020).

Pós-pandemia, uma manobra curiosa: um álbum totalmente e assumidamente comercial, o controverso Crash (2022)⁶. A experimentação sonora e estrutural de faixas como Shake It e Track 10; o future-pop de Next Level Charli e 2099; a abrasividade violenta do desespero de pink diamond; nada disso se encontra presente em um disco que tem como principal inspiração o trabalho da princesa do pop Janet Jackson e principal função, nas próprias palavras de Charli, se vender completamente.

Aqui entra a relação contenciosa da cantora com o mainstream⁷.

Foto: Divulgação da cantora na era Crash.

Crash é digerível. Crash é amigável. Sua mãe poderia gostar de Crash. Crash poderia ser ouvido na Renner. A estética de Crash possui referências a acordos faustianos que envolvem a troca de uma inconveniente e pegajosa alma pela popularidade cristalina e sexy de uma estrela pop que ronrona com comercialidade oitentista. As performances ao vivo altamente coreografadas, acompanhado por figurinos provocantes e penteados exagerados trazem à vida as interpolações melódicas e o liricismo chicletoso do disco, assim como os clipes com alto valor de produção.

É arte performática. Mais ou menos.

Apresentação ao vivo de Charli da música Baby, de Crash. Reprodução Satruday Night Live.

David Foster Wallace diz que a ironia é “a canção de um pássaro que passou a amar a própria gaiola”⁸. 

Em seu trabalho mais conhecido, o apoteótico Graça Infinita, um dos personagens define os mandamentos para alcançar o sucesso no mundo do tênis competitivo. Um dos mais cruciais: seja um estudante do Jogo. Não só das regras, dos equipamentos, das técnicas. Mas dos jogadores. E não só dos vitoriosos. Estude os fracassos, pois eles vão lhe ensinar mais do que qualquer sucesso.

Pode-se dizer que Charli XCX é uma estudante do Jogo⁹. Não só da música pop, mas da cultura pop em geral. Sendo subjugada aos pormenores da indústria cultural desde a sua adolescência, fica claro que o lugar que celebridades ocupam no inconsciente coletivo é um dos tópicos de reflexão favoritos da artista, como fica claro em suas entrevistas sobre Brat e nos textos de sua autoria que foram publicados no Substack (mais sobre isso em breve).

Crash em retrospecto oferece um vislumbre essencial da chama que arde no centro de The Moment, um experimento em renegação e supressão de identidade: Pode Charli XCX ser vendida? Quem compraria? Foi o maior sucesso de sua discografia até então, claro, mas não foi o suficiente para alçá-la ao mainstream de qualquer maneira que se assemelha à popularidade hegemônica do vindouro Brat.

A plasticidade da era gera um estranhamento ao revisitá-la hoje em dia. A cantora parece se mover como uma marionete no palco, fluída e restrita ao mesmo tempo. Um animal enjaulado, rosnando para o aço, ocasionalmente conseguindo se espreitar para fora das barras mas sempre retornando ao cárcere.

Não havia ilusões sobre o propósito da abordagem na época, mesmo que uma acidez ressentida acompanhasse todo o processo¹⁰. Charli admitia sem problemas em entrevistas que estava se vendendo, mas que não achava que isso comprometesse o valor artístico da obra.

Já alguns anos depois, em uma entrevista pré-Brat realizada para a revista britânica The Face, Charli afirma que há músicas em Crash que ela nunca escutaria por vontade própria.

UM DOS MOMENTOS

A tensão entre comércio e arte é a mais claramente explorada no filme e o maior foco geralmente de críticas ao mesmo. A popstar sofre a pressão de executivos e de membros do seu círculo interior a capitalizar mais e mais em cima de Brat, estendendo sua vida útil como se no processo de Victor Frankenstein de animar sua Criatura, retalhando pedaços em decomposição na esperança de que uma descarga energética divina o conceda vida. Conquistar a morte, literalmente ou simbolicamente, é um tema que tal qual um relâmpago  parece surgir, ofuscante, nos céus de toda obra que se centra na experiência do criar artístico. The Moment apresenta um mundo onde a imortalidade não surge em encruzilhadas, com necromancia. A eternidade não é a mordida de um Vampiro ou a alquimia de uma Feiticeira. O segredo para a vida eterna é um cartão de crédito e uma conta no Instagram.

Além do fio narrativo que lida com a cantora se envolvendo em uma campanha publicitária para o banco fictício Howard Stirling, há diversas cenas que envolvem a comercialização de Brat de um jeito ou de outro, seja por campanhas publicitárias¹¹, soundbites para rádios, stories no Instagram, merchan, etcetera, ad infinitum¹². Não há dúvidas entre os figurões envolvidos: A vida útil de Brat tem que ser estendida indefinidamente. O crescimento deve ser canceroso, e a marca Charli XCX deve ser onipresente. Se eles pudessem pintar o céu de verde Brat, sem dúvidas o fariam. A cantora¹³ pergunta para um de seus amigos se tudo aquilo não é cringe. Ele responde que tudo é cringe.¹⁴

E essa é uma preocupação acima de tudo estética, em uma sociedade que é regida por estética. Se Brat perde seu valor monetário cultural como algo descolado e passa a ser percebido como cringe, não só ele se torna incapitalizável¹⁵ como Charli perderia seu momento. Ela se torna passada, não meramente retornando a um estágio de irrelevância mas invertendo sua imagem de algo para ser almejado para algo a ser evitado. Um destino pior que a morte para alguém que deseja mais do que qualquer coisa ser vista como descolada.

Reprodução Studio365

COMPLETOS DESCONHECIDOS

É praticamente impossível não chegar a uma de duas conclusões assistindo Dont Look Back: ou Bob Dylan é a pessoa mais descolada da história, ou a mais insuportável. Coincidentemente, é também a conclusão que as pessoas chegam mesmo sem ver o documentário.

Por mais que o apelo do documentário médio que tem como foco um período na vida de um artista seja oferecer a ilusão de intimidade para os fãs, se essa fosse a intenção de Dont Look Back então o filme seria um fracasso completo. Não há ser humano nesta Terra que possa se sentir próximo de Dylan ao assistir a obra, e se este fosse o caso então a sensação imediata seria de desconforto e repulsa. A maior parte das celebridades é menos do que a soma de seus impactos culturais mas após passar uma hora e 36 minutos na companhia do futuro renegado do folk fica claro que não há equação que explique Bob Dylan. Ele é tão inexplicável quanto suas letras¹⁶, tão contagiante quanto suas performances, tão enigmático quanto suas entrevistas e tão irritante (ou convincente, depende de para quem você pergunta) quanto sua voz. A película é completamente incapaz de capturar alguma verdade incontestável sobre o objeto do documentário, por mais que seja incontestável o fato de que há uma abundância de verdade no mesmo.¹⁷

Divulgação Dont Look Back.

Além da relação entre audiência e objeto que existe dentro do filme, isso se estende para fora da obra e é um fator crucial para a carreira e impacto cultural de Dylan. Qualquer interpretação de suas intenções é efêmera e ineficaz porque elas estão sempre mudando. Seu próximo álbum é uma resposta direta ao último. Sua próxima entrevista contradiz o que veio antes. Sua próxima fase é um lixo, e a que vêm em seguida é incomparável, e a que vem depois dessa é só razoável. Ninguém pode prevê-lo para além de sua imprevisibilidade. Ninguém o contém. Para cada análise de sua obra nasce um novo Bob Dylan que morre quando o próximo aparece. Por mais que isso vá de encontro ao desejo da audiência de se sentir próximo de seus ídolos, também é responsável por alimentar um interesse contínuo, uma fome insaciável. Dylan é tão inesquecível e indecifrável hoje quanto nos anos 60, especialmente assistindo Dont Look Back.¹⁸

Até mesmo artistas que não são tão elusivos alimentam um desejo canibalístico no público. Após a morte de Cobain, seus diários foram publicados, assim como seu bilhete de suícidio. Seus pensamentos íntimos foram destrinchados; suas memórias animadas em Montage of Heck¹⁹; suas despedidas analisadas em ensaios, artigos, matérias de tablóides e tweets; sua morte re-encenada em Last Days²⁰. Admirar não é o suficiente. A arte produzida não é o suficiente. Nós queremos conhecer. Nós queremos devorar. Nós queremos nos banhar no sangue de deuses.

Qual é o vazio que nós tentamos desesperadamente preencher quando nos jogamos de cabeça na esfera desses ícones, implorando de corpo e alma para sermos seduzidos por seus mistérios enquanto nos esforçamos para solucioná-los a qualquer custo?

Para David Foster Wallace, é a necessidade de venerar. 

Como Nietzsche sucintamente apontou, “Deus está morto”, mas nós ainda precisamos ser consumidos por algo para nos sentirmos inteiros. Em uma sociedade capitalista, ironicamente, o deus escolhido então é o consumo. Não é apenas que sua arte é tratada como produto, mas o artista em si também é, e quando toda a identidade de uma civilização pende em sua habilidade de consumir e entender a si através do que é consumido, a questão de quem é o produto sendo venerado se torna de extrema importância.

Em um de seus textos²¹, Charli usa uma entrevista de outra estrela enigmática do rock para ilustrar sua visão ideal de fama: Lou Reed.²²

Na visão da cantora, a conexão entre fama e responsabilidade moral/autenticidade é delirante. Em 2021, um ano antes de Crash, Charli relata uma reunião que teve com executivos da Atlantic Records na qual os executivos lhe pediram para que ela parecesse “mais autêntica” nas redes sociais, postando toda terça-feira alguma de suas falhas ou uma foto de seus cachorros.²³ A aparência de autenticidade no caso é exatamente no que eles estavam interessados, porque ela assim como todo o resto se tornou um recurso monetizável. Nós não queremos uma autenticidade real²⁴, nós queremos uma ilusão de autenticidade que combine com a idealização da tal para que o nosso consumo possa legitimar o nosso valor. 

O comportamento de Lou Reed, então, serve como o exemplo da cantora sobre sua visão da fama, e do que ela procura em um artista: fantasia. Misterioso, hedonista, impenetrável, contraditório. Ela não quer símbolos da moral. Seus ídolos precisam ser anárquicos, bagunçados, perigosos, dramáticos; personas, personagens, mentiras, ilusões. Porque almejar algo comportado? Complacente? Inerte? Excentricidade é real? Rebelião faz diferença? Lou Reed é autêntico? Dylan? Cobain? A resposta de Charli: quem se importa, porra? O mistério, e a bagunça, é o que chega mais perto de algo que se assemelhe a eternidade. Para ela, é o único jeito que o descolado ao se tornar mainstream pode reter seu potencial artístico: se o artista tratar sua imagem por si só como parte essencial da experiência artística, não correspondendo a visão de sua audiência de autenticidade, mas a sua própria. Comercialidade, exposição em massa, popularidade, nada disso por si só mata o fator “descolado” da obra. Almejar isso, sim.²⁵

O que nos traz a conclusão natural de alguém que diz não se importar quando um artista mente: ela realmente acredita nisso? 

Talvez seja isso que ela precise venerar.

BRAT SUMMER FOREVER

As cenas são gravadas de maneira imperfeita. Se comprometendo com a estética associada ao documental, The Moment abraça distorções. A imagem simula película, com alta granulação e halation nas áreas com incidência de luz. O contraste salta, as sombras marcam e a luz estoura. A câmera se move de maneira errática em busca de seus personagens, zooms sendo ajustados no momento e o foco se perdendo frequentemente. Rostos são o interesse principal. Conversas frequentemente beiram a cacofonia, palavras esvoaçando ao redor de Charli como os lasers de uma boate. Isso quando os diálogos não são definidos por suas pausas desconfortáveis, frutos ou do temor da equipe em relação a cantora ou da mesma em relação a sua própria imagem. Como eu vou parecer? Como eu serei interpretada?

Reprodução Studio365

Conforme o plot principal progride, Charli sofre cada vez mais a pressão para ceder o controle criativo da sua tour ao diretor encarregado de gravar o filme concerto de Brat, Johannes, interpretado por Alexander Skarsgård. O objetivo de Johannes é essencialmente repaginar a imagem da cantora e de Brat para algo palatável e comercial ao extremo, sem polêmicas ou conteúdos potencialmente “ofensivos”. Ele tem o papel essencialmente de um executivo tentando agradar os quatro quadrantes, um publicitário que vê a cantora como um produto a ser achatado para atender a todos os gostos – inofensivo, comportado, genérico. Do outro lado há a diretora criativa de Charli, Celeste, interpretada por Hailey Benton Gates. É uma dicotomia óbvia – o anjo e o demônio no ombro da cantora, um que tenta a convencer a se render a uma visão cínica de mercado e retirar toda a personalidade do seu trabalho para que ele possa ser vendido ao maior número possível de pessoas, enquanto um tenta a fazer com que ela se mantenha firme em sua visão criativa. É uma premissa que corre o risco de se desenvolver de maneira cafona e egocêntrica, com a artista corajosamente superando o livre mercado e vencendo seus covardes oponentes em nome da integridade artística.

Mas acontece o oposto. Ela se rende.²⁶

Sobrepujada pelas tensões da organização da turnê e do seu status como celebridade em geral, Charli parte para um hotel em Ibiza para se aproveitar de um pacote que lhe foi oferecido. Apesar de no geral essa ser umas das decisões estruturais mais fracas do filme, afastando a protagonista do núcleo de conflito principal, acaba rendendo um de seus melhores momentos

Após uma sessão de massagem facial que sai do controle e acaba com Charli sendo ofendida pela massagista por seu rosto “estressado”²⁷ e por sua postura defensiva, a cantora dá de cara com Kylie Jenner, membro da dinastia Kardashian. Em uma cena que utiliza de maneira exemplar o casting de uma celebridade para personificar a carga temática do filme, Charli fica cara a cara com tudo que ela nunca vai ser. Caracterizada de maneira especialmente caótica, ela é confrontada com a imagem de uma mulher que se adequa perfeitamente no que é esperado dela. Kylie não é nichada, Kylie não é insegura, Kylie não pensa duas vezes sobre seu lugar na cultura, Kylie não está envelhecendo, Kylie é a imortalidade que Charli almeja.²⁸ Famosa por ser famosa, conhecida por ser conhecida, icônica por ser icônica – a cultura de celebridade após seu ponto de efervescência, assimilada pela indústria do turismo e da propaganda. O momento de Charli XCX é efêmero, se ela não jogar o jogo certo. O de Kylie é permanente.²⁹

O encontro, por mais que breve, acaba sendo o ponto de virada do filme.

Reprodução Studio365

Sua insegurança culmina em desespero, e ela renega o controle criativo do tour para Johannes. Ela faz um post promovendo o cartão Brat e consegue dinheiro com a publicidade para financiar o filme concerto. 

Um copo estoura em sua mão e sangue voa para todo lado.

A partir daí nós acompanhamos a depenação da direção de arte do show. Lá se vão os strobes, as imagens piscantes, a atmosfera abrasiva inspirada pelo dance pop noturno de boates Berlinescas. No seu lugar sobem holofotes verdes, letras gigantescas formando a palavra BITC# (escrito exatamente assim), cigarros e isqueiros comicamente grandes. O verde Brat da capa do álbum foi alterado para ser mais agradável aos olhos. O figurino de Charli se torna colorido e lúdico, com mechas verdes no cabelo e detalhes brilhantes na maquiagem.³⁰ Interações padronizadas que performam autenticidade com a plateia são encorajadas.³¹

Durante o teste de uma geringonça com cabos para levitar Charli nós temos nosso único momento de “performance” do filme: I might say something stupid, uma das faixas vulneráveis do álbum sobre a ansiedade da artista sobre não pertencer aos lugares que ocupa. A música é performada enquanto Charli se encontra desajeitadamente pendurada em cima do palco, perguntando freneticamente para o seu assistente se aquilo está uma merda enquanto o plano enquadra a expressão incerta de seu rosto em um dos telões,³² e a filma também por debaixo da passarela transparente do palco. O resultado é um conflito tonal que beira o absurdo, com a música sensível sendo performada de maneira ridícula, filmada de jeito angustiante e montada de maneira cômica. 

Até os cortes súbitos no final da música para a imagem de um pássaro despencando para a sua morte seguida de um close de Charli caída no chão, antes de claro, voltar para a performance. Um mero devaneio.³³

Reprodução Studio365

Conforme a campanha do cartão Brat evolui para um escândalo envolvendo fraude em larga-escala e o banco é levado à falência pela obsessão dos fãs em se aproveitar de uma brecha na tal promoção para conseguir ingressos para turnê, o momento de Charli parece ter acabado. As redes sociais a denunciam pelo comportamento “irresponsável” e a cantora corta contato com seu círculo social e com o mundo. Dias depois, com os executivos da gravadora tentando manejar a imagem pública de Charli para poder continuar lucrando com a mesma, eles percebem que ninguém viu nem falou com a cantora desde o início da crise.

Surge a hipótese de que ela talvez esteja morta. Pânico se instaura.

CONSIDERE A PARTYGIRL

Em Graça Infinita, David Foster Wallace escreve sobre uma nação adormecida por suas obsessões.

Seja pelo vício em drogas, pelo carreirismo, ou por suas telas em alta-definição, é um mundo onde o Entretenimento³⁴ literalmente mata. Em uma de suas passagens ele descreve o final das chamadas de vídeo – após a introdução de câmeras e de cartuchos de vídeo para Teleputadores³⁵ capazes de transmitir as chamadas ao vivo, há uma corrida tecnológica para o desenvolvimento de dispositivos que permitem que o usuário calibre sua imagem com cuidado. Primeiro máscaras holográficas, para o aperfeiçoamento de características faciais, depois modelos de corpo para a ilusão de físicos definidos, e por último dioramas que cobrem por completo as câmeras, garantindo uma imagem totalmente fictícia não só da pessoa mas também do seu ambiente.

Por mais que tratar The Moment em termos literais seja atraente – discursando apenas sobre as problemáticas apresentadas na narrativa em relação ao conflito entre capitalismo e intenção artística – também restringe algumas das extrapolações que podem ser feitas na área do que o filme propõe sobre nossa relação com a identidade alheia em um mundo em que toda a população está online 100% do tempo. Durante o filme nós nos deparamos com as diversas visões possíveis sobre Charli XCX. Ela é um ícone. Ela é onipresente. Ela é um produto. Ela é inovadora. Ela é sua chefe. Ela é uma partygirl. Ela é um fracasso. Ela é uma vendida. Ela é insegura. Ela não sabe o que ela quer. A impressão fica que a própria personagem não sabe qual dessas versões é realidade, então ela escolhe perseguir aquela que lhe garante maior capital, tanto literal quanto cultural. Se eu não sou ninguém, porque não ser um ninguém que é visto por todos?

É provável que você não conheça a Charli XCX. Você nunca apertou a mão dela. Você nunca bebeu com ela. Você nunca teve uma conversa significativa com ela sob o zumbido do neon de uma boate decadente. Ela é uma abstração. Tudo que ela é para você é o que ela te faz sentir. Até certo ponto todas as pessoas na sua vida são, ou pelo menos começam assim e, idealmente, ganham profundidade na sua visão conforme você as conhece intimamente. 

Porém, enquanto no passado a ambígua fronteira midiática que se impõe entre imagem e o que nós comumente definimos como autenticidade estava geralmente limitado a celebridades e seus admiradores, essa experiência foi democratizada na era das redes sociais. Nós somos confrontados com inúmeras performances por segundo, personas cuidadosamente curadas para transmitir a impressão de autenticidade, ou de excentricidade, ou de autenticidade por excentricidade. Sua imagem vale ouro. Seu comportamento precisa ser rentável. Evoluímos em direção a uma sociedade de abstrações, reféns das milhares de câmeras que cospem nossos deuses que por mais que sejam nossos semelhantes, tem pouquíssimo em comum com a sujeira da vida cotidiana. Somos todos desconhecidos, caçando a verdade em ciclos de álbum e camisetas de banda, venerando nossa busca obsessiva pelo que nós já sabemos que não está lá. Nós veremos o que quisermos ver, por mais perto que a câmera esteja, por mais convincente que seja uma demonstração de aparente vulnerabilidade. Seja uma fraude. Seja você mesmo. Quando alguém te vê, está encarando no espelho. O preço da visibilidade são mil mortes por segundo, uma em cada tela com sua imagem. Todo esse jogo de percepção acaba levando a uma soma zero. No hay banda.

Para onde ir então, quando para todos os lados há um novo beco sem saída? Outra ficção, outro metacomentário, outra tirada irônica que na verdade não é tão irônica assim. Todos nós sabemos o que está acontecendo, todos nós jogamos o mesmo jogo – mesmo quando nos dispomos a insistir que não estamos – todos nós somos vigias e catalogamos a eficácia das performances ao nosso redor de acordo com o quanto elas nos validam. O papel de Johannes no filme não é só o de um executivo, é também o de um algoritmo, determinado a achatar dissidência em nome de uma experiência padronizada. Se até relações interpessoais correm o risco de emular o comportamento do mainstream que prioriza estética e obediência em troca de visibilidade, que esperança há para os nichos?

Charli não está morta no filme, por mais que ela pareça quando nós a vemos pela próxima vez. Os membros de sua equipe a encontram, sonhando com um mundo em que ela manteve um pouco da selvageria de sua persona Brat. Após pedir desculpas para Celeste e confessar suas inseguranças, nós vemos a propaganda do filme concerto BRAT Live!. Abandonando as distorções da película, a cena é gravada em digital cristalino, abusando do slow motion. Uma review da Rolling Stone nos diz para esquecermos tudo que nós sabemos sobre Charli XCX. O último plano do filme é uma visão aérea do estádio, com a propaganda nos avisando que o filme está disponível na Amazon e incentivando todos a serem partygirls do conforto de suas casas.

Reprodução Studio365

Talvez Foster Wallace tenha errado por pouco. Talvez a ironia seja a canção de um pássaro que se convenceu de que precisa amar a própria gaiola. Um plot ficcional que se centra na ideia de uma versão alternativa de Charli se vendendo pode parecer tão egocêntrico quanto um filme concerto, uma espécie de validação a partir da autoconsciência – “olha como eu me salvei do capitalismo na vida real!”. Mas você sai da sala de cinema e ainda está em uma realidade onde a cantora fez um comercial do Super Bowl para vender refrigerante. Ela ainda tem um ensaio onde discorre sobre o poder da comercialidade para manter uma marca pessoal. Essas contradições³⁶, que podem enfraquecer o filme para alguns, para mim fortalece o impacto do mesmo. A ansiedade deixa de ser contida pelas beiradas da narrativa, ela vaza. Ela está presente. Ela está aqui. Ela está em todo lugar. It’s so Julia.

A verdade liberta, mas quando ela se torna tão elusiva quanto àquela descarga de dopamina que atinge após um like no instagram, a busca pela tal pode se tornar uma prisão. Há uma maneira de ser verdadeiramente, indiscriminadamente autêntico em público? Nós gostaríamos de ver? Nós gostaríamos de ser? Por definição uma verdade incontestável sobre a personalidade de alguém é inalcançável. Mas não estamos todos futilmente tentando atingir o inatingível?

 Paz de espiríto. Amor incondicional. Visibilidade. Liberdade para sermos quem verdadeiramente somos. Buscas intermináveis. Momentos que duram para sempre. Tentemos dar boas vindas a fins inevitáveis. Aceitar fracassos como inerentes à experiência humana, e tentar se render a mesma sem nos tratar como marcas a serem vendidas.

Talvez tudo isso seja um pouco demais para um álbum de pop. Quando se está a dançar é fútil perguntar se o chão está prestes a cair.

NOTAS DE RODAPÉ

1 - Gênero que busca emular as características estéticas do documentário e utilizá-las como artifícios em uma narrativa ficcional.

2 - Julia Fox, it-girl que alcançou a popularidade após estrelar em Joias Brutas (2019), longa dirigido pelos Irmãos Safdie

3 - Balada consagrada de São Paulo, popular na comunidade queer. No dia 21/02 de fato ocorreu uma festa especial para celebrar o “fim da era Brat” por conta do lançamento do filme.

4 - Gravadora fundada por A. G. Cook e lar de boa parte dos artistas associados ao hyperpop.

5 - A ambiguidade do termo e o fato de que boa parte dos artistas que se encontravam definidos pelo mesmo o rejeitarem foi um dos fatores chave para o declínio do uso. A pandemia de 2020 também contribuiu. Cook também é responsável pela trilha original de The Moment.

6 - O título, além de fazer alusão às diversas referências a carros na discografia de Charli (Vroom Vroom, Speed Drive, White Mercedes, Taxi, etc), também referencia o filme de 1996 dirigido por David Cronenberg que adapta o romance de mesmo nome. A narrativa do longa acompanha James Ballard conforme adentra um submundo de pessoas que desenvolveram um fetiche por colisões automobilísticas violentas.

7 - Por mais que houvesse um período extenso de sua carreira cujo interesse em seus lançamentos surgia principalmente dentro de um nicho específico, o sucesso comercial não era nenhum estranho para Charli. Seu boost inicial de popularidade surge com o hit Boom Clap, faixa que integra o álbum de 2013 SUCKER e composta para a trilha da adaptação de A Culpa é das Estrelas no mesmo ano em que um feature em Fancy de Iggy Azalea a introduz a outra parcela do público. Além disso, tem seu nome atrelado a composições de hits como Señorita de Camila Cabello e Same Old Love de Selena Gomez.

8 - Parafraseando o ensaísta Lewis Hyde, especificamente seu texto Alcohol and Poetry: John Berryman and the Booze Talking. A frase original, em tradução livre: “Ironia só possui uso emergencial. Se utilizada com frequência é a voz do aprisionado que passou a amar sua cela”

9 - Crash é, nas palavras da artista, o que acontece quando ela se compromete a jogar “o jogo”. Fonte: https://www.npr.org/2022/03/18/1087238345/i-love-selling-out-charli-xcx-on-the-volatile-pop-of-crash

10 - Boa parte da motivação do álbum vem da relação tensa da cantora com sua gravadora, a Atlantic Records. Tendo assinado com a mesma já na adolescência, toda a sua carreira artística a partir daí foi definida pela indisposição da gravadora de apoiar os riscos que XCX gostaria de tomar em sua arte, a pressionando para se alinhar com os sucessos das paradas musicais. Sendo Crash o último álbum necessário para livrá-la do acordo que tinha assinado, a artista escolhe o caminho de menor resistência, satirizando com indulgência as maiores fantasias da Atlantic. Mesmo assim, após o álbum ela negocia com a gravadora e assina novamente com ela.

11 - Inclusive incorporando na montagem campanhas reais das quais a Charli fez parte, como para a Converse e para a marca de lingerie SKIMS, co-fundada por Kim Kardashian.

12 - Sabe Deus que não faltam tentáculos para o monstro abissal que é o marketing do século XXI.

13 - Mais precisamente sua versão ficcional no filme.

14 - Impossível dizer o quão genuíno está sendo o personagem neste momento, e no final das contas pouco importa. A ironia ou a pose de ironia são sintomas da mesma doença.

15 - Uma certa falácia que parte do princípio de que todo consumo é genuíno, descartando a ideia de consumo irônico. Um erro, mas que serve para verbalizar o subtexto da cena que se mostra crucial para o desenvolvimento temático do filme, assim como o desenvolvimento textual desta obra.

16 - Suas letras pós Bringing It All Back Home, para ser específico, já que nesse período o liricista passa a favorecer composições surrealistas que contrastam com suas letras de protesto mais diretas de seu período inicial.

17 - Talvez se aplique a todos os documentários até certo ponto, mas esta contradição no centro de Dont Look Back sempre me pareceu particularmente potente de um jeito que não me atinge vendo um documentário mais sensível, como Edifício Master (2002), ou até um mais incômodo, como The Act of Killing (2012).

18 - Alguns anos depois, Dylan dirigiu e editou um documentário “resposta” a Dont Look Back, intitulado de Eat The Document. Filmado por D. A . Pennebaker durante sua tour de 1966, a primeira a incorporar instrumentos elétricos e os músicos da The Band, o primeiro corte editado pelo diretor foi apresentado para Dylan após o acidente de moto do músico que o afastaria dos olhos do público por anos. Rejeitando a abordagem por ser muito similar ao filme gravado em ‘65, Dylan reedita o material e o transforma em um documentário experimental de fluxo de consciência que funciona menos como o doc observativo que é Dont Look Back e mais como uma colagem alucinada de momentos e paisagens que busca criar um significado completamente próprio a partir da colisão de imagens. Em um momento especialmente provocante, Dylan corta da filmagem de uma entrevista na qual um repórter lhe pergunta se há algum momento em que ele não está performando, para um plano desconexo de si mesmo em outro contexto, dando de ombros.

19 - Documentário de Brett Morgen que utiliza animação para trazer a vida algumas das passagens do diário de Cobain.

20 - Longa ficcional de Gus Van Sant que foi inspirado por Cobain, apesar de não se propor a ser uma obra biográfica.

21 - The realities of being a pop star, disponível no Substack.

22 - O Velvet Underground, no qual Reed era compositor e vocalista, é no geral uma inspiração para Charli. Ela cita o momento do documentário de 2021 dirigido por Todd Haynes em que John Cale afirma a necessidade das músicas da banda serem “delicadas e brutais” como uma frase chave durante o desenvolvimento de Wuthering Heights.

23 - Ela saiu imediatamente da tal reunião.

24 - Mesmo que um artista postasse todos os seus pensamentos e fotos de todos os seus momentos, essas tentativas ainda estariam restritas pelos limites estéticos da forma escolhida, ou seja, o enquadramento das fotografias, o limite de caracteres do extinto Twitter, as lógicas de complexidade de informação que são determinadas como aceitáveis nestes sites, etcetera. Há um limite para a autenticidade; a ilusão da mesma é o mais próximo que qualquer um de nós pode chegar no mundo virtual.

25 - De seu texto The Death of Cool, disponível no Substack.

26 - Poderia haver um texto do tamanho deste ensaio que explora The Moment a partir do viés da busca por significado: o que acontece quando você conquista a coisa que você definiu como objetivo final? Há uma vida após o propósito? Como suas relações com todos os outros elementos da sua vida fora àquele que lhe garante o significado são alteradas? Deixarei isso para outra pessoa.

27 - O filme também aproveita sua exploração sobre imagem e percepção para discutir quais tipos de feminilidade são palatáveis e quais são rejeitados. A massagista repreende Charli por não estar envelhecendo “bem” e a incentiva a preservar o máximo possível sua aparência jovial, tal qual os executivos que esperam que Brat dure para sempre. A progressão, o novo, a mudança, sempre são rejeitados em favor da reiteração daquilo que já se prova lucrativo e atraente. Johannes repagina a imagem da cantora, removendo quaisquer elementos da feminilidade agressiva e selvagem associadas com a persona de Charli, optando por uma visão submissa e comportada de uma popstar comercial. Logo no início do filme as consequências da manutenção de um certo tipo de imagem nos são apresentadas em uma cena onde Charli revela que está perdendo cabelo por conta de uma facelift improvisada com seu penteado que funciona ao puxar duas mechas localizadas em suas têmporas para trás.

28 - Jenner também faz uma ponta no videoclipe de Residue, faixa composta por A.G. Cook para a trilha sonora do filme. No clipe, dirigido também por Aidan Zamiri, nós acompanhamos Charli conforme ela entra em um galpão escuro antes de nós a perdermos de vista e acabar em uma sala cheia com sósias suas. Um telão pisca frases contraditórias como “Girl, it’s over” e “Please don’t let it be over” conforme as sósias dançam freneticamente. No momento final do clipe todas elas somem e nós nos aproximamos da silhueta de uma última sósia, interpretada por Kylie Jenner, que encara a câmera como se estivesse em um comercial de perfume.

29 - Continuando a linha de pensamento da nota 27, ela também corresponde a uma visão de feminilidade socialmente aceita: sensual sem ser disruptiva, valorizando seu status e sua aparência acima de tudo. Uma crente do status quo.

30 - Similar a maquiagem de performances ao vivo de Crash, como nas aparições de Charli em Saturday Night Live em 2022.

31 - Em contraste com a imagem altamente sexualizada da cantora na era Crash, é interessante considerar esta evolução da perspectiva de Charli no quesito de qual imagem feminina é altamente comercial. Em Crash ela é vampiresca, após Johannes tomar o controle da direção criativa da artista em The Moment ela se torna uma boa garota, comportada e subserviente; amigável e divertida. Infantil. America’s Sweetheart.

32 - O rosto de Charli em telas é uma imagem recorrente no filme.

33 - Tal qual as menções ao suícidio em Sympathy is a knife e Crash.

34 - "O Entretenimento", no livro, é a designação de um filme que mata todos que o assistem pela alta quantidade de entretenimento presentes na obra.

35 - Mistura de telefone, televisão e computador que existe no mundo da obra.

36 - A mais gritante provavelmente é a questão do cartão Brat, que não só é vendido pela A24 como merchan do filme e se tornou elemento crucial do marketing do mesmo, como também existe como uma opção de cartão funcional em parceria com o aplicativo bancário Cash App.

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