Entrevista

MEIO ÉDEN: O TEMPO SE ARRASTA COMO UMA LÂMINA NAS COSTELAS

Conversamos com Clara Estolano sobre seu curta de 2023 que emprega o ritmo como uma arma cortante, colocando a audiência em um Éden sem Deus e assombrado pelo que resta do amor após o fim de um casal.

9 de janeiro de 2026

Texto: 

Giovanni Giani (@thegiovannigiani)

A história de Adão e Eva depende essencialmente de duas coisas: Deus e punição. A tentação do fruto proibido é secundária; a consequência já está prescrita quando Eva estende os braços e imagina que gosto pode ter aquilo que lhe foi negado.

Em Meio Éden (2023), curta-metragem escrito e dirigido por Clara Estolano, ao invés de Adão e Eva, nós temos Ádina e Ivo. Ádina (Rebeca Figueiredo), florista, passa o tempo cuidando do jardim e realizando afazeres domésticos. A presença de Ivo (Everton Aguiar) se sente apenas em uma mensagem na caixa postal, nos porta-retratos em que o casal aparece alegre, e no sangue que escorre pelo rosto de Ádina.

NO PRINCÍPIO, ERA O VERBO

Clara, que sempre possuiu um interesse pela leitura e pelo cinema, colidiu suas duas paixões durante a pandemia, quando se matriculou no curso de cinema da Universidade Federal de Juiz de Fora ao mesmo tempo em que começou a trabalhar na sua escrita, redigindo durante esse período alguns contos. Em 2022, ao se inscrever no Laboratório de Roteiro Luzes da Cidade, a cineasta escolhe, em nome da praticidade, adaptar um destes contos para o roteiro de um curta: Meio Éden. Quatro dias e cinco tratamentos depois, o roteiro é premiado como o vencedor do Laboratório.

O conto coloca o leitor na função de vigia. Descreve espaços, cheiros, sensações, e as ações da protagonista (que diferente do curta, aqui se chama Maria Cristina), mas nunca seus pensamentos. A escrita faz um acordo: o mundo externo é todo seu, mas o interno ficará inacessível. A história preserva seu senso de mistério até as últimas palavras, ainda assim não deixando de lado a intimidade inerente que acompanha a descrição do cheiro da terra molhada de chuva e do reflexo das luzes na janela – é um jogo que tenciona constantemente o que se pode decifrar sobre uma pessoa pelo seu habitat e pelos seus gestos.

Na hora de adaptar a prosa para o meio cinematográfico, Clara conta que inicialmente a abordagem escolhida era muito mais metafórica, dependendo de imagens simbólicas para servir como fio condutor visual da narrativa. Conforme o processo do Laboratório progrediu, no entanto, o roteiro acabou chegando em uma linguagem mais direta que se assemelha ao foco do conto no gestual, e que tem como inspiração um gênero cinematográfico pouco trabalhado no mundo de curta-metragens universitários: o slow cinema.

Categorizado pela longa duração dos planos e a falta de estruturas narrativas convencionais, tendo um foco muito maior na experiência sensorial, a principal influência para a obra foi o trabalho de Chantal Akerman em Jeanne Dielman (1975), um dos maiores clássicos do gênero, que acompanha a rotina de uma viúva e dona de casa. Não é à toa que se prova uma abordagem pouco aderida por cineastas que buscam ser aceitos em festivais: cada minuto a mais na obra diminui as chances de aceitação, já que a organização dos eventos frequentemente prioriza colocar o maior número de curtas possível por sessão, que geralmente tem por volta de uma hora. Um gênero, então, que pede paciência e recusa respostas simples e gratificação imediata, se prova uma aposta arriscada. Mesmo assim, Meio Éden, com seus 20 minutos, já foi exibido em diversos festivais.

Clara Estolano durante as gravações de Meio Éden. Foto por: Laura Souza

O DIVINO ESTÁ DISTANTE E VOCÊ TAMBÉM

O lar do casal nos é apresentado com imagens de solitárias dualidades. Duas almofadas em um sofá desocupado, duas cadeiras que quase se tocam. Na secretária eletrônica, a voz de Ivo fala para Ádina se arrumar, porque ele vai levá-la para almoçar fora. Nós vemos fotos do casal, instantes de alegria congelados nos porta-retratos. Um deles está ao lado de um vaso de tulipas murchas.

Nossa introdução a Ádina é um plano fechado de sua mão esquerda, dedo indicador esticado em uma pose que invoca A Criação de Adão de Michelangelo. Há um corte para um plano aberto – não há Deus do outro lado. 

Na verdade, não há ninguém. 

Ela está completamente sozinha no quarto do casal, inquietamente remexendo uma aliança com a mão direita, antes de se levantar e colocá-la junto com a aliança que adornava seu dedo anelar esquerdo na mesinha de cabeceira, ao lado da foto do seu beijo de casamento com Ivo.

Ádina (Rebeca Figueiredo) posa de modo que remete a obra A Criação de Adão. Reprodução Meio Éden

Existe uma inquietação que se estabelece no curta durante esses primeiros momentos. As referências religiosas parecem cada vez mais deslocadas conforme o filme progride e se assenta na rotina de Ádina. As cores são vivas, mas os planos estão estáticos. Nossa protagonista troca a roupa de cama. Pisa em cacos de um espelho quebrado que ela parece se recusar a olhar. Coloca a água do café para ferver. Faz um sanduíche. Esse lar, divino como um dia possa ter parecido, é (ou se tornou) acima de tudo mundano.

A ideia de dualidade reaparece como um fantasma. Além das duas cadeiras e das duas almofadas, há dois travesseiros na cama (antes de Ádina guardar um) e, claro, as alianças, que só existem em dupla. Após o recado de Ivo, não há mais diálogo. O silêncio se torna a decoração mais proeminente da casa.

Silêncio esse que foi umas das razões pelo qual Clara escolheu o roteiro para ser seu TCC. A falta de diálogo e o foco em ações cotidianas parecia apresentar uma produção tranquila e de fato: o filme foi filmado em duas diárias, sem grandes percalços. Poucos takes e set-ups simples, mas que mesmo assim renderam um primeiro corte que possuía 57 minutos de duração.

A SANTA CEIA

Depois de nos familiarizar com a casa e assim que sua estrutura parece ficar previsível, o curta reafirma suas ambições no mesmo plano que recontextualiza tudo que veio antes. Ádina prepara um sanduíche para si – pega um pão, peito de peru, alface e maionese. Seus gestos, como o roteiro descreve, são abrutalhados, característica essa que Clara frisou na hora de dirigir Rebeca. Ela começa a comer e nós vemos seu rosto inteiro pela primeira vez: há um corte na sua testa que deixou uma trilha de sangue escorrendo pelo lado esquerdo do seu rosto, e o olho logo ao lado se encontra inflamado com um hematoma.

O plano segura por quase 4 minutos exatos até ela terminar de comer o sanduíche.

Ádina come o sanduíche. Reprodução Meio Éden.

A presença fantasmagórica da violência alinhada com o mundano absoluto tinge todo o resto do curta com uma aura de surrealismo. Ádina continua sua rotina, toma seu café, lava a louça, varre o chão (ignorando um amontoado de cacos), escova os dentes (depois de jogar uma das duas escovas de dentes do banheiro no lixo). O incômodo se alastra por cada gesto, cada processo mecânico que afastados do puro cotidiano se tornam interrogações, mistérios, becos-sem-saída. Algo horrível aconteceu aqui, e o seu fedor infecta o normal. É inegável e onipresente.

O plano do sanduíche, o mais longo do filme, é o que costuma ter o maior impacto na audiência. Eu entrei em contato com o filme pela primeira vez durante o MUCA (Mostra Universitária de Cinema e Audiovisual), tendo o prazer de assistir o filme em uma sala de cinema lotada. Ver o curta neste contexto de coletividade, sentado no fundo da sala com ampla vista para a audiência, oferece uma experiência antropológica fascinante do efeito que a cena tem nas pessoas. É palpável o incômodo que causa, a agonia do momento que se prolonga, da ação que se recusa a ser resumida. Clara conta que após a estreia do filme em Juiz de Fora algumas pessoas levantaram com ela a questão da duração da cena, e no MUCA, não foi diferente: quando as pessoas falavam de Meio Éden, elas falavam do plano do sanduíche.

Mesmo no dia da produção, a cena foi um momento de destaque: “Esse daí era o plano do filme, na verdade. Tava avisado que não podia repetir. Eu falei assim: ‘Cara, eu não vou fazer ela comer dois sanduíches desse tamanho, a gente tem que acertar de primeira. Não vai ter 10 planos dela comendo sanduíche. Ela vai comer o sanduíche inteiro e vai ser só ele’. Aí todo mundo se preparou, [a Rebeca] se preparou, e a gente gravou. Só tem um take”, conta Clara.

O tempo, que em tantas produções universitárias é pensada como um obstáculo prático e maleável, é empunhado aqui como a principal arma do filme; seu meio primário de dialética. Assim como no cinema de Chantal Akerman, a duração não é um meio para um fim, ela é o fim, nos forçando a prestar atenção nas ações que tão frequentemente são realizadas de maneira inconsciente, e a confrontar o fato de que existe sim uma poética no cotidiano e nas sombras que se esticam sobre ele.

SAL NA TERRA DO PARAÍSO

O último plano do filme é o corpo de Ivo, estirado em meio ao jardim com uma tesoura em suas costelas, uma poça de sangue cercando o ferimento. No conto, a revelação final do corpo ocorre em uma banheira, tendo sido sufocado pela protagonista. A mudança, motivada principalmente por questões de produção (achar um banheiro que tivesse banheira se provou difícil), serve bem o curta. Nas palavras de Clara: “É aquele negócio, né. Cê vai aceitando o que a vida te dá e os limões viram uma bela limonada”. 

O cenário é bucólico e vivaz, e no meio do jardim paradisíaco apodrece àquele que um dia foi visto como a fonte de todo amor. Se há um Deus nesse meio-Éden, é Ádina: ela exerce o poder sobre a vida e a morte; ela cuida da vegetação ao lado do cadáver que irrevogavelmente baniu do Paraíso. Ao contrário do Deus cristão patriarcal, contudo,  o banimento de Ádina é um ato de defesa, já que Ivo foi o primeiro a macular o Paraíso com sua violência. Claro que, tal banimento não afeta só seu companheiro – ela também se encontra, agora, habitando um Éden que assombra e é assombrado por tudo que poderia ter sido. Sua punição respinga em si.

Mesmo assim, o jardim precisa de cuidados, de carinho. Ela ainda precisa escovar seus dentes. Ela ainda precisa podar as flores. Mesmo com o cheiro agridoce do podre. Mesmo com as moscas.

 Ivo (Everton Aguiar) morto no meio do jardim. Reprodução Meio Éden.

Envie sua música