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Underground em papel: zine abismo e os impressos na cena curitibana

Chegando em sua segunda edição física, a Zine do Abismo demonstra a importância da circulação de publicações impressas independentes e faz delas o verdadeiro palco da noite.

4 de março de 2026

Texto: 

Fran Augusto (@frandefrango)

Imagens: 

Fran Augusto (@frandefrango)

Janaíno ao anoitecer (@frandefrango)

Quarta-feira nunca foi um dia de grandes comoções no Largo da Ordem, lar secular de diversos bares curitibanos marcados por notória boemia, lembrado por cada geração de uma forma diferente. No dia 21 de fevereiro os primeiros gritos carnavalescos começaram a ecoar antes mesmo do sol se pôr, trazendo consigo foliões ansiosos pelo feriado e logo ao lado, uma dupla de músicos que adentra o bar Janaíno Vegan para começar a montar seus equipamentos. Passando pelas ruas ao redor, são diversos os lambes de divulgação de shows, bandas e eventos que se sobrepõem e lutam por um espaço de atenção nas paredes (vigiadas à rodo pela polícia) do centro histórico de uma cidade em que as manifestações de arte de rua, consideradas vandalismo pela elite política, resistem através do papel.

O abismo e o papel

Créditos: @frandefrango

Chegando na terceira edição do evento e na segunda edição do impresso, a Zine do Abismo foi concebida por um anseio de conexão humana, com a proposta de misturar estilos musicais e aproximar o público das bandas, utilizando o formato físico como um eixo articulador que, além das lembranças musicais, permite que o pensamento imagético ligado à elas possa também correr solto e ganhar nas páginas um espaço para se manifestar das mais diversas formas. 

Por trás da organização estão Charlie e Kauê, amigos de longa data que formam o duo Look Into The Abyss. Desde 2023, os dois vêm articulando lançamentos musicais e encontros desse tipo como forma de fortalecer o circuito underground, abrindo espaço para que tanto músicos como expositores mostrem suas criações. A proposta da Abismo Fest é simples na estrutura e ambiciosa na intenção: reunir o duo anfitrião a uma banda local e outra de fora da cidade, convidando o público a sair da zona de conforto de ir em shows apenas de bandas que já conhecem e se abrirem para a experiência de conhecer novas sonoridades ali mesmo na hora das apresentações.

Dessa vez, o encontro iniciou-se com uma abertura surpresa da Fetosujo, projeto experimental dos músicos Muri e Miguel (Conhecido como Nojera), em que a imprevisibilidade de cada faixa criou um loop hipnótico que serviu perfeitamente para introduzir o evento ao público, estabelecendo um convite à escuta sem se prender em rótulos prévios. E assim, seguiram-se as apresentações com a enigmática Cobre, banda que, sem muitas descrições em suas redes, chama a atenção de quem ouve por sua atmosfera densa e nostálgica. Em seguida, Manual de combate, duo chileno que está atualmente se apresentando em diversos estados do Brasil, mostrou ao público sua fusão de punk com noise e hardcore, carregando consigo um pedido de irmandade frente à opressão e fazendo do baixo, bateria e gritos, suas armas de denúncia. Look into the Abyss fechou a noite, conduzindo seu próprio clímax com uma apresentação crescente e catártica, em que o público se recusou a dizer adeus, pedindo bis para prolongar ao máximo o final daquela quarta-feira. Indo para casa, muitos levaram consigo as zines da edição, cujas páginas trazem um contexto sobre as bandas, agora transformado pela experiência de vê-las ao vivo.

Curiosos e empolgados com a continuidade do projeto, Muri, ao lado de seus companheiros Salako e Yuri, comentam: "Não acho que é um vídeo na internet, às vezes, que vai dar essa proximidade, tá ligado? Ter em mãos uma zine é literalmente uma prova física de que a banda esteve ali, interagiu com o público, você guarda um pedaço da banda com você, isso é muito foda. Ela esteve perto de você. Porque, mano, uma coisa que às vezes me incomoda em alguns shows assim de bandas que sei lá, furam um pouco a bolha, é que parece que elas são tão distantes da gente."

A sinfonia das impressoras

Zine produzido pela Manual de Combate (foto: @frandefrango)

É difícil apontar uma origem ou até uma definição do que se enquadra na categoria de "zine". Uma plataforma? Um grito? Uma divulgação? Os caminhos sonoros e impressos parecem se cruzar quase que naturalmente, numa espécie de partitura de duas claves, geradas pelo desejo de compartilhar com o mundo aquilo que um dia esteve apenas na cabeça de alguém. É esse domínio total do meio e da forma de produção que torna o zine um feito autoral cujo processo de concepção se torna muito similar ao de compor uma música, utilizando muitas vezes apenas aquilo que se tem no agora e em mãos. Essas possibilidades infinitas de se usar o papel, dobrá-lo e distribuí-lo é o que torna a zine um dos principais meios de comunicação dentro da cena, levando de letras à explicações ideológicas para qualquer um que diante da própria curiosidade, se interesse em levá-la para casa. De mão em mão as comunidades se constroem, sem uma intervenção necessária da mídia tradicional e longe de um ideal comercial, permitindo que argumentos, poemas, ironias, manifestos, empates e desempates coexistam numa mesma página.

De nicho em nicho, essas publicações se tornaram historicamente um instrumento próprio da contracultura, se popularizando nos meios musicais de Curitiba (e nos outros núcleos urbanos) principalmente nos anos 80 e 90, quando fanzineiros locais criaram uma rede alternativa de comunicação para divulgar artistas e conectar públicos da cena underground, especialmente ligada ao punk e ao metal, divulgando letras e ideias em páginas xerocadas que circularam da Gibiteca à tradicional casa de shows 92°. Dessa época, poucos são os impressos que sobreviveram ao tempo, mas são muitas as memórias guardadas com carinho por Mitie Taketami, que, ao lado de seu companheiro Xico Utrabo, fundou a Itiban, uma das mais tradicionais lojas de quadrinhos da cidade: "A gente se conheceu em São Paulo, na cena mais alternativa de rock e viemos para Curitiba e aqui também tinha uma cena de punk que propiciou o acesso a muitos zines. Abrimos a loja em 89. No começo, a gente não vendia zines, a gente trocava pelo correio. Era um outro esquema, né? Sinto que toda a cena underground sempre se expressava através desses zines."

Foi no final dos anos 90 que a internet foi introduzida e se tornou um elemento modificador geral: para uns um símbolo de pânico e ruína diante de um perigo desconhecido, para outros uma nova forma de produzir. Antes restritas a fotocópias, correio e distribuição manual em shows ou lojas alternativas, as zines passaram a ser diagramadas digitalmente, compartilhadas em PDF, divulgadas por redes sociais e até mesmo se transformaram em blogs, o que reduziu custos e ampliou o alcance, abrindo espaço para conhecer também novas publicações sem a necessidade de verificar a caixa de correio. Mas até que ponto isso é realmente proveitoso? O que acontece quando esquecemos das nossas raízes analógicas e nos voltamos totalmente ao meio virtual?

A importância do analógico

Créditos das fotos: @frandefrango

Pensar sobre uma resposta para esses questionamentos não é uma questão de antagonizar as ferramentas digitais, mas de entender que elas jamais serão o único palco possível, pois faltam nelas algo que é essencial no ato de criar: a presença de um fator tátil e humano, em que as relações não são geridas por métricas que fora da esfera virtual são insignificantes. Tradutora e zineira de longa data, Emanuela Siqueira observa, "Não só na cena musical, acho que na cena literária, na cena do cinema, enfim, com todas as cenas possíveis, a gente costuma achar que as coisas não precisam mais serem impressas, né? Que ah, todo mundo tá na internet. Assim, mentira. Nem todo mundo tá na internet. E outra que, cara, o algoritmo, ele fodeu com tudo."

No pós-pandemia, o desejo de reconexão com o real parece ter ganhado força: depois de um período marcado pelo excesso de mediação digital, isolamento e saturação de estímulos virtuais, muita gente passou a buscar experiências mais concretas como forma de se reconectar à uma realidade plural, tentando deixar no passado esse individualismo imposto pelas circunstâncias do momento. Em Curitiba, isso se traduziu no surgimento de coletivos que adotaram a zine como principal plataforma de ação, recorrentemente abrindo chamadas para que qualquer interessado possa contribuir e assim, despertando o interesse de pessoas que antes nunca tinham tido contato com esse universo. Multiplicaram-se também iniciativas como a feira (des)dobra, realizada em 2025 e idealizada por Manuela e pela também zineira e tradutora Daniele Rosa, voltada exclusivamente à venda e troca de fanzines, que trouxe à cidade mais de 50 expositores em um final de semana.

Se contrapondo diretamente a ideia de uma mediação algorítmica, as zines exigem uma escolha ativa de existir, onde alguém imprime, alguém distribui, alguém pega, lê e dedica tempo. Elas permitem esse mergulho no universo do outro e funcionam como um filtro qualitativo do excesso informacional, criando espaço para ideias e narrativas que talvez nunca passassem pelos crivos digitais. A conexão estabelecida nasce de um encontro físico que envolve uma troca ativa, onde se forma um vínculo entre quem lê e quem produz, devolvendo à comunicação cultural uma dimensão humana que o ambiente algorítmico frequentemente dilui.

Na cena musical, as zines voltaram a se encontrar com os acordes e apresentar novas bandas ao público, compilando letras comentadas e recomendações musicais direto no papel, aprofundando a escuta e a experiência do show, de quebra se tornando também uma forma alternativa de divulgação. Talvez, seja por isso que encontros como o do Abismo carregam uma sensação tão particular de presença, onde esses impressos deixam de ser apenas um extra e se tornam uma plataforma própria, ganhando uma dimensão extra no pós show com a própria memória de quem a carrega e passa adiante. 

Look into the abyss (foto: @frandefrango)

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