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MONCHMONCH lança MARTEMORTE e usa um humor cru para expor os ridículos das grandes riquezas
5 de julho de 2025
Pedro Penteado
Marina Mole/Divulgação
Uma figura magra de articulações quebradas e rosto esguio passeia entre o oceano que separa o Brasil de Portugal com seu codinome onomatopaico: MonchMonch. Esse nome que obriga sua boca a abrir e carregar o chiado tem um dos shows mais explosivos da cena independente e acaba de lançar seu segundo disco, o MARTEMORTE (Saliva Diva e Seloki Records).
Seguindo o roteirinho do release, o disco trabalha com o conceito do “trabalho: bilionários colonizam Marte e, de lá, assistem — e contribuem — para o colapso da Terra”. Uma ideia inevitável. Nós, os fodidos, estamos fadados à isso pelo passo da caminhada, e Monch faz questão de jogar essa merda superlativa no ventilador e ir pro extremo em suas letras e sons para ver se desta forma, algum de nós se toca. Esse jeito debochado carregado de muito escárnio é posto pra jogo em músicas como ‘Jeff Bezos Paga Um Pão de Queijo’ e ‘Velhos Brancos Jovens Carequinhas’. Apesar dos títulos engraçadinhos, as faixas vem sempre com uma letra bem nervosa e direta. Até porque, “se você não vai à guerra em prol de meninos mimados, você vai morrer”.
O artista adotou um visual obscuro para divulgar o disco. (Foto: Marina Mole/Divulgação)
É nessa toada desgraçada que o disco é levado, algumas músicas servem como marteladas na cabeça para te lembrar constantemente que esse inferno de vida que você vive será sempre em prol de quem tá lá em cima. Destacando que, na primeira oportunidade, os viciados em quetamina pegarão o foguete para Marte e nos deixarão largados às traças - e, talvez, aos robôs. Uma versão atualizada e mais sarcástica do que os punks cantavam em São Paulo há 40 anos.
“Bora geral se matar, eles não sabem trabalhar, eles vão morrer”, clama Monch em “Prédios”. O trunfo da obra é justamente esse desapego com qualquer modo e etiqueta com aqueles que nos olham de cima. Esse desleixo certeiro em tratar aos cuspes os que se escondem atrás de ESG 's, propagandas bonitinhas e aqueles posts motivacionais do Instagram que mostram que o primeiro escritório da Microsoft foi uma garagem. Dar cara e cheiro para o motivo da sua raiva, expor através do ridículo o quão patético é o nosso destino, costurado por esses que sempre figuram nas listas de sucesso da Forbes e da Times.
Pessimista ou conformista? (Foto: Marina Mole/Divulgação)
MARTEMORTE caminha pelos becos escuros da CityBunda que o novo punk proporciona, e conta suas guitarras carregadas e todos os barulhos com uma cara meio lo-fi que te deixam desconfortável. O disco tem vocais que lembram a Patife Band nas harmonias e ritmo, além de uma base instrumental plantada no Viagra Boys - mas com uma experimentação mal educada que a pomposa vida na Suécia não permite -, Tom Zé e com sobressaltos de Ana Frango Elétrico.
Nesse jeito desajeitado, Monch tenta adaptar a essência de seus shows anárquicos, caóticos e barulhentos, no disco - seu principal trunfo. Talvez os arquivos .wav não suportem a explosão que o luso-paulistano traz às apresentações, como os barulhos digitais que abrem o disco dão a impressão, mas consegue se repaginar usando alguns recursos como a voz metálica que percorre as faixas, em que parecem se debater entre os canos até estourar nos nossos ouvidos, como se saíssem daquela terra deserta do Bob Cuspe. Os instrumentos às vezes corrosivos e outras vezes convulsivos, que parecem estar soltos, também dão cara à catástrofe com cara de apocalíptico. Tudo isso ajuda a construir uma ambientação quebrada, que serve ao conceito do álbum.
Essa talagada de 18 minutos condensados em nove músicas é apenas uma pequena amostra do trabalho do MonchMonch. Se você quiser ter uma pitada da experiência do que é um show dele, dê uma olhada no disco ao vivo do Zigurfest, mas também visite seu primeiro disco, o “GUARDILHA ESPANCA TATO”. Porrada certa. Também é importante ressaltar que existe vida além do streaming, e que o vinil do lançamento contém um lado B com músicas que não estarão nos Spotify's da vida, além de uma HQ que será vendida nos shows, que complementa o conceito trazido em MARTEMORTE.
Foto: Marina Mole/Divulgação
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