Entrevista

“Eu sou a Juvi da nova geração!”

Entre ironia, crítica e festa, Juvi reúne músicas geradas por inteligência artificial, funk e performance política em show no Picles Cardeal.

18 de setembro de 2025

Texto: 

Leuni Denoni

Imagens: 

Lola Mend e Matheus Cerullo

Imagem do Banner: 

Lola Mend

Em O Guia do Mochileiro das Galáxias, a resposta para a pergunta fundamental da vida, do universo e de tudo é apenas: 42. Um número seco, cômico e vazio. Cheio de sentido justamente pela ironia. Foi impossível não pensar nisso no show de Juvi, na quinta-feira de 11 de setembro, quando a artista trouxe um repertório que misturava músicas autorais, criadas por IA, batidas de funk e o calor de uma banda ao vivo.

O número 42 do nosso tempo

Autointitulada no Instagram como “a webnamorada do Brasil”, Juvi transforma a lógica íntima da internet em espetáculo, onde até músicas criadas por inteligência artificial viram performance explosiva e bem-humorada.

“Eu pensei muito nisso: o que a IA não pode fazer? Um show ao vivo”, disse Juvi antes da apresentação.

Por que um show com músicas geradas por IA?

Mais do que curiosidade tecnológica, o show soou como uma resposta irônica no espírito do 42: não dar uma solução definitiva e devolver a questão em forma de festa. Havia política no gesto de reunir pessoas para ouvir, além das autorais, canções compostas por máquinas — mas suadas por humanos.

“É divertido e é crítico ao mesmo tempo. Acho que o caminho é esse: usar a IA como provocação, mas valorizar ainda mais a música ao vivo”, afirmou.

A música artificial reuniu uma multidão de curiosos e cronicamente online. Foto: Matheus Cerullo

100% Digital. Será?

O setlist reforçava a mistura: ao lado de músicas autorais como “MLKTOSPIROSE”, ouvimos e cantamos juntos “Popotão Grandão” e “Predador de Perereca” que entravam hits reinventados com humor e comentário social. A cada virada, um meme, uma vinheta ou uma referência pop atravessava: do Plantão da Globo ao Shark Tank Brasil, da “Eguinha Pocotó” ao “Nothing Beats a Jet2 Holiday”. Além do clássico “Só Não Vai Jair”, cantado com força num 11 de setembro simbólico — exatamente o dia em que Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão.

Era como se estivessemos interagindo em linguagem digital, sem sentir a solidão de rir sozinho de um meme. 

Amizade em cena

Entre a ironia e o 42, a cena lembrava que, por trás das máquinas, o coração da festa ainda era humano. E isso ficou claro quando Juvi chamou ao palco sua melhor amiga, Vicky, para dividir os vocais em “São Paulo”. A parceria arrancou gritos e muito entusiasmo da plateia, não havia uma pessoa que não soubesse a letra.

“A gente já canta essa música juntas em casa, zoando. Trazer isso pro palco é um jeito de celebrar nossa amizade”, contou Juvi.

“Vocês querem novas drogas legais?”

Se a IA é a nova droga legal — como canta Juvi em uma de suas faixas —, o show era uma forma de experimentar sem se viciar. A artista trouxe a crítica sem perder o humor: “Não é você usar o ChatGPT que vai acabar com a água do mundo. O problema está nos data centers das Big Techs. A discussão tem que ser política”.

Entre beats dançantes e frases afiadas, Juvi lembrou que a música pop já funciona há anos em lógica parecida à da IA: refrões curtos, fórmulas repetidas, hits moldados para o algoritmo. O gesto, então, era duplo — zombar da máquina, mas também espelhar a máquina que já existe em nós.

Juvi em apresentação no Picles. Foto: Matheus Cerullo

Jeito de bixa, VIADO

A resposta 42 é irônica justamente porque não se encaixa em nenhuma caixa. O mesmo vale para as músicas de Juvi, atravessadas por sua identidade não-binária. “O papel das minhas letras é expor esse ponto de vista nas entrelinhas, seja falando de amor sem recorte de gênero, seja trazendo críticas ao nosso tempo. O som tem que refletir isso”, disse.

No palco, esse gesto se cristalizou em “La Elu”, apresentada por Juvi como um espaço seguro para pessoas não-binárias. Entre versos de afirmação e brincadeiras com funks clássicos, a faixa virou ponto de encontro: riso, dança, gutural improvisado e abraço coletivo. A fluidez que atravessa a canção se expandiu para o show inteiro, que transitava sem esforço entre festa e reflexão, deboche e política — como se cada música fosse uma crônica líquida do cotidiano humano e online, além de uma declaração de presença no aqui e agora.

O que vem pela frente

Se este show foi um experimento irônico à moda do 42, Juvi já sonha com novas respostas. De um feat com a misteriosa Tocana (nome associado a música “São Paulo” gerada por IA que viralizou) até encontros improváveis com Ney Matogrosso, Deadfish ou mesmo uma balada romântica com Anavitória.

“É sobre misturar, ver como as coisas podem se encontrar. E também sobre lembrar que música é feita de pessoas, com as próprias mãos”, concluiu.

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