Quando ouvi "Poça Platônica", o álbum de estreia de Gilberto — ou Gibaa — fui transportado para uma jornada de autodescoberta musical, repleta de transformações sonoras que refletem as transições da vida. Mas a jornada não se iniciou aí. O começo de um grande acontecimento não precisa ser o assassinato de um arquiduque austro-húngaro. Tudo pode se iniciar num momento de descontração na faculdade.
Quem diz que “vagabundear” na faculdade é perda de tempo está muito enganado. É o tipo de gente que não aproveita as coisas boas da vida. Sabe? Às vezes tudo que você precisa é ficar jogado num sofá, conversando com um amigo enquanto um som bacana toca de fundo.
Foi nesse clima que meu chegado Donho me contou sobre a banda em que é baixista. Falou de um certo maninho que faz música sozinho no quarto. Isso é o tipo de coisa que deixa alguns curiosos (tipo eu). Então, perguntei mais sobre. Ele disse que estava tocando no projeto musical de um cara chamado Gilberto Walther e que esse projeto tinha o nome de “Gibaaaaa” (sim, ele arrastou o “a” por uns bons segundos). Assim que tive a chance, corri para escutar.
Capa do álbum feita pelo próprio Gilberto.
Camada sobre camada, os sintetizadores faziam uma ambiência psicodélica e tecnológica. Arpejos de guitarra viam em série já trazendo o tom daquela que seria a melodia da música protagonizada por um sintetizador com 0 de ataque, mas que é um soco inesperado e certo na cara de um ouvinte despreparado.
No ponto mais alto da música, a guitarra pesada, a bateria que fazia viradas de jazz e o baixo com fuzz e muita distorção sobreposta traziam um rock progressivo apoteótico e de proporções orquestrais que vazava pelas bordas do meu fone barato. Tudo isso ter sido feito por alguém sozinho em um quarto definitivamente me impressionava.
Eu pensava naquele garoto curvado sobre um teclado de computador com a guitarra no colo ajustando track por track, automação por automação. Nesse sentimento tão humano, a música também se acalmava, chegava a um platô lúcido e se tornava a introdução da próxima música: uma ode àquele artista desacreditado, mas que tem sim, o mundo quase em suas mãos.
Apertador de botão.
Era claro que a ordem das músicas foi escolhida a dedo. “Telinha”, hit do álbum, era um Indie sobre webnamoro, mas vinha seguido de uma composição toda em sintetizadores relembrando os primeiros trabalhos do artista, que fazia sua estreia nas plataformas com Gewalt — descrito por Gilberto como uma saudação ao Mort Garson e uma homenagem à sua cachorrinha Nana.
A conclusão de “Telinha” é “Ainda Sei Chorar”, uma música sobre o término deste relacionamento e que, assim como uma superação, levou tempo até ser finalizada. Os versos iam sendo escritos ao longo dos meses, sendo o processo de produção descrito por Gilberto como “gravava, deixava, voltava”. Essa dinâmica torna o som um retrato sonoro dos cinco estágios do luto, em que a negação é um começo introspectivo, sua intensidade é acrescida por sintetizadores que, após um minuto de silêncio, despontam em um shoegaze catártico que, por fim, chega à aceitação de que ainda se sabe chorar.
Toda essa narrativa me chamava atenção. Os vários momentos na vida de uma pessoa, sobretudo a transição do final da adolescência para o início da vida adulta, as muitas emoções trazidas à tona pela forma como o som mudava e te induzia a se sentir diferente ao final de cada canção, me fazia perceber que, até mesmo os sentimentos mais intensos e difíceis passam.
Cafundó é uma das novas casas do underground. Abriu recentemente e está metida entre um estabelecimento fechado e um motel na frente do Largo da Batata, em Pinheiros, na Zona Oeste da capital paulista. A casa traz semanalmente shows de bandas que ninguém conhece (ainda). Lá, me encontraria com Gilberto para conhecê-lo pessoalmente, numa apresentação com a sua banda sem nome.
Donho, o baixista, me mandou mensagem e pediu para que o ajudasse a descarregar o carro. Gilberto estava acompanhado de sua namorada. Além dela, junto estava Gabriel, o tecladista. Só faltava o Enrico — sim, o baterista responsável por aquelas viradas de jazz.
Ficamos ali, jogando conversa fora, fumando cigarros e explorando o ambiente, que se mostrou maior do que imaginávamos. O tempo ia passando. De tempos em tempos, éramos chamados por uma voz anônima que gritava “o show vai começar”. Foi assim três vezes, uma para cada banda que tocaria Grapeez, Luare e Perfídia. No final do show da Perfídia, Enrico chegou e Gilberto e seus amigos corriam atrás de seus instrumentos.
02/08 - Fffront
Vejo todos em cima do palco, uniformizados. Gilberto contava piadas no microfone e vê-los, ali, olhando um para o outro, rindo, trazia um clima leve pra situação. O ambiente acolhedor e amigável abriu portas para a nostalgia. Começava a imaginar como haviam se conhecido, como a banda havia começado. Descobri, mais tarde, que eles tocam juntos há sete anos, unidos por uma origem musical semelhante: rock dos anos 1960 e a banda L9 (uma piada interna deles).
Inclusive, Poça Platônica vem de “Platonic Puddle”, nome este sugerido por Enrico em 2019, para um projeto de cover de Queen que não foi pra frente. O que teve continuidade, porém, foi Gibaa, projeto solo de Gilberto e que, há quase seis meses, toca ao vivo com sua banda.
“É o meu projeto, mas pra mim, somos quatro. Vamos ver se a gente acha um nome de banda tipo "Giba e os filhos da puta", né? Alguma coisa assim. Mas começou com um projeto solo e hoje é banda. Posso falar que é a minha banda? Mais ou menos”.
O que mais me impressionou no show foi como replicaram em palco todos os aspectos de produção caseira e virtual que o álbum carrega. A chamada “mixagem opaca”, ou seja, muito clara, onde o papel e o posicionamento de cada instrumento é perceptível na audição, podia ser notada até mesmo ao vivo.
“Uma coisa que eu tinha um pouco de medo, mas aí eu comecei a brincar com os meus pedais e descobri que dá pra fazer ‘sound design’ ao vivo. Eu e o meu pedalzinho de volume, meu pedalzinho de delay já dá um ‘wah-wah-wah’ e os caras sabem o que tão fazendo…”
“Essa transferência do álbum pro show ao vivo eu boto nas costas deles, eu não faço nada assim, eu só mexo nos meus pedais e uh!”.
Apesar do grupo não ter nem um ano de existência, Gabriel revelou que ele e Gilberto sempre “trocaram fitas”, tendo acesso às primeiras versões de muitas músicas que, hoje, se encontram no álbum.
“Não só a gente toca há sete anos, mas acompanhamos as composições um do outro há muito tempo. Sempre fui fã do Gilberto, acompanhei o desenvolvimento do álbum desde o comecinho, porque esse é um álbum que tem uma história grande por trás”.
Essa grande história a qual Gabriel se refere é nada mais do que as experiências de vida que Gilberto teve ao longo do processo de composição do álbum. Apesar de ser um álbum muito pessoal, os temas que ele aborda são universais: tristeza, solidão e memória.
No entanto, na adolescência, esses sentimentos tão humanos parecem avassaladores e insuperáveis. A existência parece um mergulho mal sucedido, em que se acaba afogado. Conforme esses sentimentos tão maiores que a gente se acalmam, à medida que crescemos e vivemos, percebemos a tempestade em copo d’água que fazíamos. Tudo que já sentimos é válido, mas nem de perto, definem quem somos.
“Poça Platônica, porque não é tão profundo assim, quanto a gente acha na adolescência, e ela está toda na nossa cabeça, ela é platônica, ela não existe”.
"Poça Platônica" é um álbum que – após anos de produção – reflete as transformações e fases da vida de alguém. As muitas transformações do ser expressadas nas mudanças de sonoridade, clima e energia capturam a essência da experiência humana. O carinho na hora de produzi-lo e a sensibilidade na hora de montá-lo me fazem ver algo que não percebi ao chegar no final da adolescência: um mergulho na profundidade da própria existência pode ser feito de maneira controlada e consciente. Como uma poça, e não um poço sem fundo.
Escuta Juvenal é uma matéria opinativa e uma recomendação de banda que se baseia nos gostos do redator que a escreveu. Gosto é relativo. Quando procuramos bandas novas, temos que estar abertos para coisas diferentes. E que façam sentido para a gente, como consumidores e apreciadores de música.
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