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Da borda ao epicentro: o estranho também dança

Na noite do dia 11 de julho, um primeiro andar no Estúdio Lâmina, espaço cultural no centro de São Paulo conhecido por abrigar eventos de arte experimental e resistência Cuir, foi tomado por ruídos, vozes, corpos e pulsações. Era mais que uma festa. Era mais que um evento. Um experimento sensível, onde artistas encontravam novos artistas pela proposta do microfone aberto.

31 de julho de 2025

Texto: 

Leuni Denoni

Imagens: 

Lola Mend

*A matéria a seguir foi produzida a partir de entrevistas obtidas no segundo episódio do podcast Nada de Ensaio, programa parceiro do Juvenal. Você pode ouví-las na íntegra logo abaixo

Idealizada por Sérgio Villafranca, Mariana Metri e Henri Daio, a Festa Concreta nasce da fissura entre o que é estrutura e o que é improviso. No lugar da pista tradicional, um campo de escuta e criação, onde quem performa é também quem ouve e quem assiste pode, a qualquer momento, atravessar a cena. 

“Cada edição é um mistério”, disse Voyeur, um dos artistas da noite. “Mas hoje foi mais misterioso ainda.” Para ele, a Festa Concreta é um saber coletivo em construção, mesmo quando cercado por ruídos e instabilidades: “Tive que me adaptar. Explorar um lugar onde eu estivesse confortável mesmo quando o sistema de som parecia um embrião. Foi muito divertido”.

Naquela noite, segundo Voyeur, o som não obedecia. Por isso, era necessário escutá-lo com o corpo, com o gesto e improviso. E foi assim que a performance vocal de Paola Ribeiro atravessou a todes. Com escuta refinada, flexível, havia uma viva convergência entre música e presença. Criatividades diferentes que conversavam de maneira única e irreplicável.

Em um pequeno debate entre os artistas e público participante, as paredes deixaram de limitar e a rua era mais que rua: era metáfora, tensão, e debate.

Colagem digital por Lola Mend: Idealizador do evento toca teclado sob pedais sendo manipulados.

Horas a música da Festa Concreta estava em disputa com a rua. E assim, para Voyeur, o Estúdio Lâmina talvez não fosse o lugar mais legal para o evento: “A festa concreta não é pra debater com a rua. Não sei se ela conversa com o som aqui embaixo e vice-versa”.

Embora o microfone estivesse aberto, ele estava aberto para quem? Tal reflexão talvez seja importante quando estamos falando de uma festa que exala a cultura Cuir (termo derivado de ‘queer’, ressignificado em contextos latino-americanos), uma festa que amplia nossa voz e dá abertura para o “estranho” caminhar livremente sem ser questionado ou repreendido. Algo que talvez em outros espaços e eventos não seja tão possível.

Para Eldra La Fonte, jornalista e artista que  não se escondeu do microfone aberto, a existência Cuir se dá no canto da sala, mas também no meio e centro dela. “A gente precisa mostrar que existe. Mesmo que as pessoas não entendam. Mesmo que olhem torto.” Eldra fala de resistência não como grito, mas como presença. Fala de existir como quem se desloca do canto até o centro sem pedir permissão. E isso, talvez, seja a própria definição da festa concreta.

Ali, entre beats, corpos em transe e ideias sussurradas e cantadas, uma política da presença foi se desenhando:

não se trata de caber,

mas de transbordar.

não se trata de explicar,

mas de expressar e ser.

não se trata só de consenso,

mas de continuidade.

Colagem digital por Lola Mend: Interventores do microfone aberto se sobrepõem em imagem e som.

Mais para o final das apresentações com os artistas fixos, não apenas o microfone estava aberto como outros instrumentos. Uma banda coletiva de desconhecidos rotativos se formava e desformava continuamente. Uma espécie de grupo não apenas de improvisação como de pesquisa e experimentação se transformava em um grande diálogo.

Entre cigarros, performances e conversas jogadas no canto, no meio, no centro da sala e uma pequena varanda do Anhangabaú, ser Cuir ali não era só identidade, era um gesto com a mão que reverbera no corpo todo até soltar a voz. Como disse Eldra: “fazer uma festa Cuir é organizar o caos e ainda assim saber que tá tudo certo.”

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