
Cobertura
Na noite de 24 de setembro, o coletivo Greenlight Filmes reuniu em torno de 15 pessoas para assistir a 10 curtas-metragens experimentais no centro cultural A Porta Maldita, na Vila Madalena. Foi a primeira Mostra Greenlight de Curtas Experimentais, um evento gratuito que se propôs a servir de casa para filmes pouco aceitos em circuitos de festivais.
28 de setembro de 2025
Íris Chadi
Íris Chadi e Adriana Melo
Reprodução Greenlight Filmes
A mostra contou com curtas de ficção, documentários e ensaios, majoritariamente realizados por estudantes de cinema, animação e jornalismo de faculdades como Faap e Anhembi Morumbi. Um dos destaques da noite foi o videoclipe ‘Lynchiana’, da banda Feralkat, dirigido pela vocalista curitibana Natasha Durski. A obra nasce a partir de referências cinematográficas como Veludo Azul (1986) e Estrada Perdida (1997), do diretor americano David Lynch, mas evoca também símbolos visuais de O Sétimo Selo (1957, Ingmar Bergman) e De Olhos Bem Fechados (1999, Stanley Kubrick).
Giovanni Giani, um dos fundadores da Greenlight Filmes, conta que a escolha das obras partiu de um lugar de familiaridade: ele e Matheus Cerullo, estudante de jornalismo e também fundador do coletivo, buscaram obras de seus colegas que já conheciam e admiravam. Por isso, também, explica Matheus, que o evento teve um enfoque em produções estudantis: “Não é exatamente por acaso, é muito pelo nosso momento de vida. É o que a gente tem contato, organizar uma coisa pra gente experimentar como fazer.”
Mas a parte mais desafiadora – e recompensante – da organização da mostra foi pensar na ordem de exibição dos filmes. “A gente parte do princípio de que, se a gente vai fazer alguma coisa, tem que ter algum significado. (...) Quando chegou a hora de definir a ordem, isso se torna uma coisa muito importante, assim como a ordem das cenas de um filme ou a ordem das músicas de um álbum”, explica Giovanni.
Assim, eles refletiram sobre elementos dos filmes como a mídia utilizada, o formato e as sensações que cada obra evoca no espectador. A mostra, então, começa com um filme em super 8 (ENTRE_LATIDOSERUÍDOS, Lucas Lespier) e segue com Para Dentro Da Noite (Greenlight Filmes), que trabalha com o “saudosismo da película”, nas palavras de Giovanni. O clipe de Feralkat, o terceiro exibido, traz também a estética do super 8, além de fotos e imagens de arquivo. A metade da mostra foi marcada por Vestígios (Marina Fortunato Herweg e Milena Rey-Sanchez), um curta-metragem de animação melancólico, que dá uma pausa dos temas mais pesados e sombrios que marcam outros filmes da mostra. Mas daí em diante o pessimismo e a confusão se intensificam a cada obra. “Como todas as nossas histórias, a história da mostra é de decaimento e tragédia. Começa nesse lugar puro e termina num lugar catastrófico”, menciona Giovanni.

Audiência reunida na Porta Maldita para assistir aos curtas. Foto por: Íris Chadi
Para Matheus, a experiência de assistir a todos os filmes na mostra mostra que eles conseguiram construir de fato uma narrativa a partir de todas essas outras narrativas. Para ele, o sentido que fica após aproximadamente 1h20 de exibição é uma inquietação sobre o consumo midiático contemporâneo, permeado por vídeos curtos, inteligência artificial e arte se tornando conteúdo: “O conflito que a gente tá agora do antigo entrando em conflito com o novo (...) tem muito de onde a gente, como indivíduo, está ficando nessas mudanças. A gente acaba deslocado.” De fato, algumas das obras propuseram essa reflexão entre o autor e o cinema, como Fragmentos da Estrada, do próprio Matheus, e Todo Caminho Que Tomo Me Leva A Você, de Vitória C Costa, ambos documentários metalinguísticos.
O local de exibição também contribui para esta reflexão acerca da produção artística atual. A Porta Maldita é um centro de cultura que hoje se localiza na Rua Luís Murat, na Vila Madalena, mas que, ao longo de 11 anos construiu uma história de apoio a artistas independentes, começando na casa do fundador, Arthur Amaral, passando por espaços públicos e casas de show até ter seu próprio lugar. “O cinema tem muito a agregar com o movimento independente, de criação de cultura nacional (...) A maioria das pessoas quer que seu trabalho seja visto e a casa se coloca neste lugar de palco para os artistas se apresentarem ao mundo”, comenta Arthur.
Ulisses Ferreira, estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas na UniFecaf, de 21 anos, foi um dos espectadores da mostra e sente que o propósito da equipe foi cumprido. Ulisses ficou sabendo da mostra a partir de amigos, que o chamaram para comparecer: “[O que mais me interessou foi] poder assistir o trabalho de diferentes artistas independentes e conhecer o gênero de curtas experimentais. Eu não havia assistido nenhuma obra do tipo antes e fiquei com curiosidade de pesquisar mais sobre os artistas apresentados.”
Agora, o objetivo da Greenlight Filmes é transformar a mostra em um festival anual, que conte com uma curadoria mais robusta de filmes. De acordo com Giovanni, a ideia seria expandir para além da produção estudantil, mas mantendo uma linha de filmes ‘fora da norma’ que muitas vezes não encontram abrigo em circuitos de festivais tradicionais: “Se a gente tem um guia, um propósito de coisas que a gente quer, seriam coisas mais independentes, que não estão sendo vistas em outros lugares.”
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