
Cobertura
O Desconhecido Juvenal foi até a Casa Rockambole conferir o evento feito em parceria com a Porta Maldita, que contou com Cianoceronte, Tubo de Ensaio e Gabiroto X
17 de maio de 2025
Pedro Penteado
A sexta-feira à noite da cidade de São Paulo é uma profusão estonteante de rolês, shows, festas e tudo que abrange esse mundo cultural. No underground, então, nem se fala. Numa noite morna, várias opções quentíssimas chamaram a atenção do Desconhecido Juvenal, mas uma brilhou mais nossos olhos - uma rodada de shows organizado pela Porta Maldita na Casa Rockambole. Um aceno desse triângulo independente na Vila Madalena que se criou após a reinauguração do Porta - apenas Porta - na Rua Horácio Lane, no ano passado. Assim, então, se esboçou a possibilidade de um roteiro cultural que passa pela antiga nova casa, na sua amiga paralela Rockambole, na Belmiro Braga e, alguns passos mais afastado, o Porta Maldita - na Rua Luís Murat. Um inferninho mais rebuscado, outros menos; alguns grandes, outros não; enfim, um cardápio interessante para aquele raio de 220 metros.
Mas, aparentemente, no dia 9 de maio, foi dado o pontapé inicial dessa mistura com a “Noite Especial Porta Maldita”: um trio de shows com regência psicodélica para encher a Casa Rockambole. O line-up contava com Cianoceronte, Tubo de Ensaio - que fazia o show de lançamento de seu álbum de estreia, o Endofloema - e Gabiroto X. Não tinha como resistir a curiosidade e, sem querer ser profeta do óbvio, fomos ver esse evento que prometia ser interessante.
Procedimento padrão: fila, pulseira, comanda e entrar para mapear o lugar e o público - que era uma atração à parte. A experimentação não foi exclusividade do som, mas também se aplicava às pessoas em seus estilos. Muitos cabelos longos, maquiagens trabalhadas como máscaras, chapéus de aba longa, algumas pinceladas e composições de roupas bem criativas. Isso ajudava a criar um clima mágico no ambiente de luz quente e aconchegante, que dava palco para todos se expressarem.
As portas abriram às 20h, mas o primeiro show começou apenas às 22h, inaugurado pela Cianoceronte, um quarteto formado por: Eduarda Abreu nos teclados e vocais,Victor Alves no baixo, Bruno Giovanolli na guitarra e Gabriel Rego na bateria. A banda entrou com a bateria em marcações cardíacas numa contra luz vermelha e já estava no ar o perfume feérico da psicodelia. Usando o gênero de mote, o grupo beliscava elementos do jazz mas tinha como plano de fundo o rock. Tudo funcionava como um relógio suíço recém-comprado, e encantava pelo tom das músicas. Uma banda que passou por uma grande dificuldade nos últimos tempos devido a um troca-troca de bateristas, mas conseguiram achar a engrenagem que fez com que cada estalada do ponteiro deste relógio soasse como uma marreta. A vinda de Gabriel à Cianoceronte rolou há poucos meses, mas já soa como se estivesse desde o começo. Era ressoante a alegria e o alívio de finalmente ter se restabelecido, com um tom esperançoso. O que era de se esperar, afinal, os ponteiros do relógio giram até encontrar o outro.

A Cianoceronte abriu a noite psicodélica da Casa Rockambole (Foto: Matheus Aleixo)
Após a abertura ideal, em meia hora foi dada a largada para a segunda banda, a Tubo de Ensaio. O jovem sexteto foi ao palco dar vida ao seu primeiro disco, o Endofloema, lançado em março deste ano. Formado por Manuela Cestari no vocal, Lorenzo Zelada na guitarra, Gabriel Ribeiro na bateria, Lorena Wolther no teclado, Francisco Barbosa no baixo e Gabriel Gadelha nos sopros. Um palco e tanto para uma estreia. A banda foi por um caminho diferente do relógio chamado Cianoceronte. Eles abriram o show com uma cerimônia de casamento, regada de sopros e pratos, ministrada pela tecladista Lorena Wolthers com a vocalista, Manuela Cestari, de noiva. O conjunto fez a ambientação com plantas nos tripés e nos instrumentistas, televisões de tubo com estáticos na tela e um jogo de luzes alaranjadas e, por vezes, verdes que desmaiavam na banda. Coroando a mistura entre a fauna e a flora; os sons e as texturas; o movimento e o estático. A Tubo de Ensaio não era um relógio, não era nada perto de uma máquina; era uma criatura, uma forma viva que erra - como a falha técnica no começo do show - e acerta. Era uma protocooperação entre banda e música que, com auxílio do som experimental e de letras não convencionais, que trombavam na temática da natureza, se enraizou e tornou-se em uma simbiose única no fim da apresentação. Essa relação natural se expandiu para novos hospedeiros, como quando um fã subiu ao palco para dançar com a banda. A exploração progressiva dos ritmos e harmonias ramificou uma alegria no ar, era a natureza tomando conta de uma música que tinha sangue correndo nos instrumentos.

A vocalista Manuela Cestari, da Tubo de Ensaio, e seu vestido de noiva (Foto: Matheus Aleixo)
Logo depois de duas grandes apresentações, faltava apenas uma para fechar a noite. Era essa a missão do vocalista e guitarrista Gabiroto X e sua trupe formada por: Pietro Benedan na bateria, João Monteiro - pai de Gabiroto - no baixo, Lukas Pessoa no teclado e o percussionista Matheus Machado. Antes do início, à 1h da madrugada, desce uma mulher, mais velha que boa parte do público, para proclamar o batizado do show. Um discurso longo, intenso, que fazia uma ode à música independente. Num ritmo que lembrou os discursos épicos de Zé do Caixão, a fala proclamava para bebermos da loucura, para vivermos e retomarmos à ela, ao homenagear a loucura da música e a casa organizadora “Essa porta maldita que abre as portas da percepção: sejam bem ‘fritos’”! Uma declaração daquelas à psicodelia. Guiada por um trovador guitarrista e uma banda muito bem calejada que, segundo a mestre de cerimônias, ensaiou durante 7 horas por alguns vários dias, para levar o público a outro patamar. Foi um show longo - duas horas, mais tempo que as bandas anteriores -, que teve que encurtar duas músicas e encerrar às 3h da manhã. Porém, não deixou de ser encantador.
O quinteto que se apresentava estava afiado, e tocavam como se fosse o último show de suas vidas. As músicas eram longas e tinham uma psicodelia hipnótica, mas uma hipnose que pesa toneladas pelo teor dos instrumentos e pelos solos megalomaníacos que colocavam uma enorme cereja no bolo. Foram algumas várias músicas e um cover acima da média de White Rabbit do clássico Jefferson Airplane que durou 10 minutos. Uma homenagem e tanto com a participação de Agatha Blue, foi o ápice da noite. Não contente apenas com o som, o show foi recheado de outras performances, como a declamação do tecladista Lukas Pessoa que evocava não apenas a aparência de Rasputin, mas também uma presença de ar misterioso; o Rasputin dos teclados começou a se apresentar como um viciado. Um viciado em palavras - que valorizava a sua carga, que tropeçava nelas na rua e desprezava os cumprimentos de bom dia, pois acreditava que desgastavam-a. Outra intervenção fora de série foi a apresentação performática de quatro artistas, a qual duas usavam o tecido acrobático que fora solto para o ato, um perna de pau e um dançarino. A apresentação inicial tinha uma música clássica tocada pelo tecladista de fundo, destaque especial ao perna de pau que apresentava uma alegria melancólica, um sentimento confuso que chamou a atenção. A performance teve um segundo ato ainda mais épico, em que a banda toda entrou em ação. Fora os solos por todos os lados, saindo pelas orelhas.

Foto: Nicolas Moura
Definitivamente foi uma noite inesquecível. Mais uma das grandes noites ignoradas da música brasileira, um momento efêmero para 200 pessoas, um momento que grudou na retina de seus espectadores para nunca mais sair da cabeça. A escolha certa de um dos vários rolês que rolavam naquela sexta, poderia facilmente ter sido em outra esquina. Um acidente, mesmo que os acidentes da vida não sejam tão mutáveis quanto os sentimentos que a arte provoca na natureza humana.
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