Outros

Peach Eyes

O Rock Continua Divertido!

21 de agosto de 2024

Imagens: 

@terroronline_

Há mais ou menos um ano, em uma bebedeira generalizada no meio da Av. Alfonso Bovero, em Perdizes, na capital paulista, nascia uma banda que — além de ser a matéria de hoje — futuramente se tornaria a promessa de um som mais sujo e divertido para uma cena frequentemente permeada pelo amadurecimento precoce.

O grupo traz consigo uma bagagem sonora cheia de referências vindas do Pop, Garage, Stoner, Psych, Surf (?), Hardcore e tudo mais que te faça pensar “roque, meo🤘”, tudo sintetizado num Power Trio visceral, onde até o baixo se torna uma guitarra e o grito vem mais cedo que o canto do rabo de galo.

Estamos falando de — Alisson, Marco e Larissa — Peach Eyes, um grupo que, para além da simplicidade, traz um grito sincero sobre o desejo de fazer música e o desapego da seriedade que consumiu os nossos tempos. 

#blessed🙏

Direitos de um Bobo da Corte

Apesar de ter apenas um lançamento em sua discografia, a Peach Eyes conseguiu chamar atenção deste redator. O carisma de seu primeiro lançamento foi suficiente para me contagiar a ir atrás do single “Jester Rights”. Me encantei com a visceralidade embutida naquela música, invocando um sentimento de “pode rir que eu rio mais”.

O single começa chutando a porta na cara. A bateria e o baixo intercalam ritmos, mas sempre mantendo um certo agito. A guitarra pesada quebra numa levada Stoner/Garage/Punk/Indie/Pop bizarro que estranhamente dá certo. O vocal tem uma melodia chicletona, feito um Pop, que se embute na cabeça. A letra, em inglês, parece usar do idioma para poder brincar com as rimas. O resultado é algo despretensioso. 

É uma música com vários momentos. Há espaço para dançar, cantar, pegar um fôlego e ainda terminar se jogando num mosh que com certeza vai ferrar com a sua costela. Sendo exatamente o que se propõe a ser, um som para chutar o balde e bater cabeça. Divertido e sincero em sua mais pura essência.

Apesar de não ser a intenção inicial da banda, a produção é clean. Isso já seria suficiente para diferenciar bandas que dialogam com Garage e Stoner. Além disso, comentaram ter sido engraçado, pela primeira vez, poder ouvir os instrumentos ao lado do vocal com mais clareza. Mas, puristas do Fuzz e Noise num geral, não se preocupem: nos próximos lançamentos, eles pretendem trazer uma produção mais Lo-Fi. 

Não tardei para entrar em contato com os integrantes. Mesmo sabendo que havia pouco material, achei que fosse uma boa oportunidade para falar com bandas que estão começando – como nos velhos tempos. Afinal, eles estão envolvidos na cena como nós que ouvimos música: desde o começo, assistindo a evolução que nos leva até o ponto em que estamos.

Vivemos num momento onde algoritmos e promessas são empurradas goela abaixo fazendo da nossa juventude enjoada e séria. Peach Eyes, nesse sentido, é um alívio. Não se trata de ser levado a sério. Trata-se de fazer música por amor. Tornando-se um amálgama de tudo aquilo que os integrantes escutam, profundamente enraizado e destilado no seu som intenso. Sincero em sua simplicidade, como dito anteriormente.

Gastrofotografia Sanitária

Uma Bosta de Transporte Público

Ao marcar a entrevista, não pensei duas vezes: os chamei para virem ao meu trabalho. Parecia engraçado a ideia de entrevistar uma banda enquanto servia drinks e cerveja para desconhecidos alheios. Realmente foi, mas não era nada prático.

Eu tinha marcado de encontrá-los por volta das 18 horas. Isso seria impossível. Afinal, moramos numa metrópole — e sempre acontece alguma coisa. É claro que naquele dia, logo no horário de pico (que mais pareceu um horário de pica), a porra do trem quebrou e ficou parado por uns 40 minutos. 

Por sorte, enquanto eu esperava aquele fracasso metálico voltar a funcionar, reparei em dois maconheiros ao meu lado. Pra minha surpresa…. Eram eles! O guitarrista/ Vocalista, Alisson, e o baixista, Marco, da Peach Eyes. Nos cumprimentamos e contemplamos com os olhos semicerrados o caos instaurado pela ineficácia do transporte público.

Meus chefes iam me xingar quando eu chegasse no trabalho. Já estava atrasado Mas o que é um peido para quem está cagado? Decidi começar nosso bate-papo ali mesmo. Ficamos falando sobre bandas que gostamos, picos que costumávamos ir e rolês que foram extintos. 

A caminho do meu trabalho, acompanhado pelos queridos, chegamos à Alfonso Bovero — onde, por coincidência, Alison disse que há um ano a banda havia se formado. O sentimento de nostalgia foi inevitável. Memórias desses dois últimos anos passados orbitavam nossas cabeças.

O sofá mais Famoso de SP

Efeito-Cascata

Ao chegar, avisei meus chefes que faria uma entrevista enquanto trabalhava. Desde que eu conseguisse servir os drinks, daria tudo certo. Mas pera lá, tá faltando alguém. Como o metrô continuava lento, o terceiro elemento deste Power Trio peculiar, Larissa, a baterista, estava presa na mesma estação que anteriormente ficamos. Fomos obrigados a tomar uma cerveja.

Percebi que o motivo que me atraiu à banda foi o sentimento agridoce que senti quando os ouvi pela primeira vez. Comecei a questioná-los sobre isso: inspirações, motivações. Falaram que o single é exatamente sobre essa despretensão. Definem a Peach Eyes dentro de um sentimento que pode ser resumido a gostar de tocar com os amigos, não havendo necessidade de correr atrás de show o tempo inteiro ou ficar se preocupando com a sua presença online. Apenas fazer música por ser algo divertido, reunindo numa obra conjunta, gostos, ideias, e pensamentos distintos.

Alisson Bolando um Biriri

O Segundo Atraso

Após uma hora de conversa, os dois garotos foram buscar a baterista. Até lá, não se tratava de um roteiro jornalístico padrão, mas sim de entender como aquelas pessoas se comunicavam entre si. E acima disso, era um papo sobre música. 

Agora, tínhamos o trio reunido em potência máxima e a conversa tomava outros rumos. Eles começaram a fazer brincadeiras entre si, contar piadas e comer salgadinhos durante o photoshoot no banheiro. No meio desse rolê gastrofotográfico, falamos sobre a dinâmica de grupo deles. Um exemplo da descontração são os ensaios que apresentam um fator em comum: uma música nova no final de todos eles. 

O grupo pontua que isso vem de uma vontade de experimentar com sons e ritmos diferentes, como se brincassem com as diversas possibilidades na hora de compor. Destacaram suas referências de música Pop. Apesar de, à primeira vista (ou primeira escutada) não parecer, aquele som sujo e visceral possui, de acordo com eles, um forte viés Pop. “Lá no fundinho, sabe?”.

Em meio a caipirinhas e daiquiris, clientes dançando uma pisadinha e salgadinhos baratos com textura de isopor, uma dúvida permeia minha cabeça. O que vem em seguida? Qual vai ser o próximo tapa na cara com backflip que eles vão dar?

O próximo lançamento está marcado para esta semana 23/agosto, não perca a chance de ouvir a nova pedrada da Peach Eyes.

Escuta Juvenal é uma matéria opinativa e uma recomendação de banda que se baseia nos gostos do redator que a escreveu. Gosto é relativo. Quando procuramos bandas novas, temos que estar abertos para coisas diferentes. E que façam sentido para a gente, como consumidores e apreciadores de música.

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