Entrevista
Banda apresenta EP inédito em São Paulo e escreve novo capítulo na história da já tradicional cena do litoral paulista.
20 de dezembro de 2024
Final de novembro, tarde de sol. Era mais um domingo de Banda de Casinha, dessa vez em clima de comemoração do aniversário do evento. Uma das bandas convidadas era a Capote, quinteto da baixada santista que apresentava pela primeira vez seu EP homônimo de estreia.
Shoegaze, Post-Hardcore, Emo. O grupo transita entre todos essas vertentes do Rock Alternativo e mescla influências tanto de bandas de sua cidade natal quanto de nomes internacionais, como Hum e Narrowhead, resultando em seu som nostálgico e poderoso.
A banda, que conversou com o Desconhecido Juvenal nos bastidores do festival Banda de Casinha, é formada pelo vocalista Pedro Cosme, por João Pedro Oreggia e Johnny Freitas nas guitarras, Cassiano Guedes tirando o som do baixo e João Pedro "Truck” Gonçalves na bateria. João Pedro e Johnny também fazem vocais.
A Capote começou com João Oreggia, Cassiano e Pedro, que tocam juntos desde os 13 anos. O nome da banda remete à gíria "capotar”, muito usada pelos santistas. De acordo com Pedro, “é um nome que passa muito a vibe das nossas letras: de você tomar um tombo e depois se levantar e recuperar desse capote”.
A conexão dos membros, porém, vai além da música. Todos se conhecem desde a infância, sendo esse um aspecto essencial para o entrosamento tanto no palco quanto no estúdio. “O Joãozinho e o Johnny são amigos há anos; eu sou amigo do JP desde os dois anos e do Pedro desde os seis, então o que rola de legal na banda é que existe essa conexão de irmãos”, conta Cassiano.
Para todos, a cidade de Santos influencia diretamente na sonoridade e atitude da banda. “Santos, principalmente nos anos 1990, teve uma influência forte do Hardcore e, ainda que não seja tão latente nas nossas músicas, a gente traz essa essência no nosso som”, conta Cassiano.
Pedro ainda recomenda o documentário “Califórnia Brasileira – O Hardcore Punk em Santos de 1991 a 1999”, de Wladimyr Cruz e Rodiney Assunção. “Conta muito da vibe que acabou influenciando a gente e mesmo não sendo super fãs das bandas dessa cena, nós estávamos inseridos naquele ambiente onde Charlie Brown Jr. era endeusado, então, inconscientemente, pegamos as influências”, diz ele.
Pedro, a voz que orquestra o movimento, se entregando ao som
O processo criativo do novo EP foi feito de maneira colaborativa entre os membros, onde cada um contribuiu à sua maneira. “Normalmente a gente pega uma ideia boa de alguém, como um riff, ai eu tento construir uma melodia para depois escrever uma letra e trabalhar no estúdio”, diz Pedro.
Os integrantes ainda revelam que o maior problema enfrentado não foi durante as gravações em si, mas sim os atrasos na entrega das músicas — além da muita ansiedade de querer ver o produto finalizado.
Apresentar o projeto pronto ao público foi um momento marcante para a Capote, descrevendo a situação como uma mistura de ansiedade e satisfação. “Foi uma loucura ver o pessoal cantando as músicas que a gente acabou de lançar”.
Ainda que existam dificuldades em relação às casas de shows, a banda destaca a união e apoio entre os artistas da cena independente da cidade. “Hoje a Central do Brasil é o maior berço para todas as bandas independentes da cena local. O problema é que algumas outras casas de show exigem todos os equipamentos e tem gente que não tem essa condição”, conta Cassiano, que completa: “Por mais que sempre tenha shows e rolês, Santos atualmente não tem a estrutura para fazer um rolê como o Banda de Casinha. É bem underground”.
Os membros acreditam também que a cena, na atualidade, ocorre de maneira descentralizada, citando Bia Vaccari, idealizadora do Banda de Casinha, como uma das responsáveis pela promoção de bandas fora de São Paulo. Sobre isso, Truck diz que “hoje em dia não existe mais esse lance de localidade de cena. A gente vem da mesma cena do Chococorn, de Santa Bárbara D’Oeste; da Bela e Olmo da Bruxa, de Porto Alegre; do Jonabug, de Marília. O lance é que a Bia ta juntando um rolê absurdo sem barreiras de municípios”.
Voltando ao litoral, a banda cita de maneira quase uníssona qual seria o lugar em que o EP passearia se estivesse de rolê em Santos: Central do Brasil. Locais como o Canal 2, Seventy Surf, Estúdio Warzone e Praça dos Palmares completariam as paradas. “Querendo ou não, Santos é uma cidade que escuta muita música no geral, então dá para escutar cada música em um ponto da cidade”, afirma Johnny.
Olhares de admiração, foco e êxtase rolando em cima do palco da Algohits
Os próximos passos para a banda são ambiciosos: “Vamos pegar os milhões que ganhamos com esse EP e fazer uma turnê mundial com tudo pago”, conta (e ri) Cassiano. “Temos mais algumas músicas no forno e algumas já prontas. Agora em dezembro vai ser um bom mês para a gente se reunir e decidir quando a gente vai voltar a gravar, mas será em breve”, complementa.
“Amigos e rock”, “um sonho de criança”, "comprometimento”, “doideira pra caralho”, “uma aventura muito louca". Essas foram as respostas dos integrantes quando perguntados sobre o que é a Capote. Essas palavras refletem sobre como esse projeto, além de ser uma realização pessoal, também é uma força movida pelo coletivo e pela amizade antiga: um grupo da antológica cena de Santos que está apenas começando a escrever sua história na música.
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