
Cobertura
Apresentando os conceitos centrais para a elaboração do “Prognejo”, Clóvis Cosmo e sua banda realizaram um show teatral exemplar que serve como prelúdio do álbum vindouro. Unindo a história de Uberlândia à sátira, a narrativa ambientada em um futuro distópico reflete os sintomas de uma sociedade alienada e cada vez mais caótica.
14 de outubro de 2025
Giovanni Giani (@thegiovannigiani)
Matheus Cerullo (@matheus_cerullo_rock_)
Kiko Medici (@kikomedici)
O show que tomou o Centro da Terra, deixando todos imersos no universo do Vasto Pasto foi de muitas formas uma grande união, realizado por diversos talentos que se agregaram ao longo dos anos ao projeto de Clóvis: Victor José (viola caipira), Marco Benvegnu (clarinete e percussão), John Di Lallo (sintetizador), José Eduardo (bateria) e João Queiroz (baixo). Todos eles utilizando-se do interesse em retomar as raízes da música brasileira e transgredir-la através da junção de gêneros musicais responsáveis por dar corpo ao Prognejo, que por sua vez reflete alguma verdade sobre o Brasil em si.
Sem delongas o show iniciou-se com uma canção lançada previamente como single em 2024, Vigília (Modão Apaixonado), com uma versão instrumental e outra cantada. A canção carregava os principais elementos que seriam vistos no decorrer do show: o sertanejo, a marcação do baixo, e sintetizadores contrapondo a tradição, junto da guitarra energética - diferindo do arranjo do single, carregado pelo violão.
Clóvis flutuava entre a guitarra e a flauta transversal durante a apresentação. Foto por: Matheus Cerullo.
Inicialmente, a ideia do Prognejo surgiu para Clóvis como uma sátira: uma mistura macarrônica de gêneros para ironizar tudo aquilo que o desagradava no sertanejo moderno. “Prognejo foi um processo que eu comecei a ter mais ou menos em 2020 e pouco, assim, lá em Uberlândia. [...] O sertanejo foi mudando muito na década de 2010 assim, desde ali do Gusttavo Lima, tudo isso. Foi entrando num lugar que eu comecei a achar meio ridículo, essa coisa mega produzida, sempre fazendo propaganda de umas coisas que são meio escrotas, e que reduz a nossa vida do interior como pessoas meio brutas, como se aquilo fosse a única possibilidade. Eu nunca gostei muito disso, eu sempre gostava de ouvir outras músicas, prog e tudo mais, e a princípio o Prognejo foi como se fosse uma espécie de uma sátira, para quebrar a música sertaneja e fazer ela ficar meio que desconfigurada, como se fosse um CD riscado, como se fosse um computador crashando, dentro dos ritmos e das melodias típicas [do sertanejo]”, explica Clóvis.
Os sintetizadores e intervenções de John Di Lallo explicitam os descompassos do moderno, trazendo para as planícies áridas do Vasto Pasto algumas semelhanças a mais com a da cultura americana impostas a nós pelo avanço tecnológico e econômico. Nesse cenário, a cor alaranjada escolhida pela direção de arte do show reforça não apenas o sertão e sua aridez, mas ideias que beiram a obras steampunk ou a tradicional franquia “Mad Max” que trata sobre o colapso do sistema capitalista onde as tecnologias do passado próspero se tornam tesouros inestimáveis do presente desolado.
A TV de tubo serve de apoio para o sintetizador da John Di Lallo. Foto por: Matheus Cerullo.
Desconfiguração essa que também se expressa no show de maneira imersiva através da decoração do cenário e dos figurinos, elaborados por Bettina Vettori a partir da direção visual de Clóvis. Na narrativa explorada no álbum, o agronegócio transmutou Uberlândia em Uberaba 2: um império mundial utópico em que o progresso reina, pelo menos por um tempo, antes do colapso total que destrói o planeta inteiro com exceção da região do Planalto Central. Neste novo mundo, denominado de Vasto Pasto pelos sobreviventes, um bem acima de todos é cobiçado: a sucata. Representando para os andarilhos os tesouros divinos de uma utopia caída, os artefatos tecnológicos ganham uma carga mitológica. No palco, é possível ver disquetes e televisores de tubo espalhados, enquanto os membros da banda também são adornados com essas preciosas bugigangas. Victor José anda com fitas cassetes penduradas em sua calça, John Di Lallo tem um mouse pendurado em seu pescoço, João Queiroz veste um exuberante e enorme chapéu de palha luminoso que orgulhosamente exibe um flip-phone no topo, e até a guitarra de Clóvis Cosmo é decorada com CDs.
“A gente tentou trazer o universo que o Clóvis já criou, que vai aparecer aí no futuro em outras formas, mas trazer essa ambientação mesmo, pra pessoa ir para esse universo e ver esse povoado enquanto as músicas acontecem, já que a gente tá falando aqui de um musical, é um musical que acontece, é uma narrativa, tem uma história, então era muito importante que a gente não só fizesse um show, que a gente fizesse esse lugar também né”, nas palavras de Bettina.
O show realizado no Centro da Terra, apesar do seu charme teatral, não se tratava da narrativa do disco que ainda será lançado, e sim de uma espécie de introdução dos conceitos chaves para a compreensão do Prognejo. Como antes mencionado, apesar do gênero ter nascido inicialmente com um objetivo puramente irônico, ao longo dos 5 anos de desenvolvimento do projeto - em que Clóvis compôs as músicas do disco sozinho, com a exceção de participações pontuais - houve uma evolução do entendimento do compositor pelo sertanejo e suas raízes.
“Acho que a principal alteração para mim é que agora eu tenho um profundo respeito pela música sertaneja, que é uma coisa que eu não tinha no começo. Eu acho que no começo eu tinha apenas esse olhar irônico, de sátira, porque ela simbolizava na minha vida esse lugar ‘tóxico’, digamos, de Uberlândia, tipo essa coisa da masculinidade muito besta, tudo que a música sertaneja trás, do agronegócio, da devastação. Mas acho que agora eu consegui observar o que que realmente é a origem disso. A música de viola, a música caipira [...]”, diz Clóvis.
Marco alternava entre instrumentos de percussão variados enquanto não tocava seu clarinete. Foto por: Matheus Cerullo.
Importantíssimo também para a compreensão mais aprofundada do gênero e de suas raízes culturais foi a colaboração e a troca de experiências com as outras pessoas da banda, como explica Victor José, que também compõe a dupla de folk rock alternativo “Antiprisma”: “É engraçado, o folclórico brasileiro, o caipira, tem um quê de arabe. É isso, a viola, a origem dela é o alaúde, que vêm lá de trás. É o instrumento de cordas basilar, vamos dizer assim, para o ocidente, né? [...] Então de certa forma isso tá dentro da gente, isso tá enraizado em algum lugar da nossa concepção cultural mesmo. E a gente se encontrou aí na vida por acaso, nós todos, e esse encontro tem muito a ver com esses gostos que se trombaram assim. Essa coisa da viola que eu venho atrás há um tempo, aí o Clóvis veio com essa ideia. A gente tem pensado muito nisso nos últimos tempos; como trazer de volta pras pessoas de alguma forma essa coisa do caipira, do sertanejo, essa coisa do Brasil um pouco mais profundo e não levar pra essa lado sempre caricato ou totalmente massificado.”
Clóvis, João e José Queiroz tocam “Lanterna do Saber”. Foto por: Matheus Cerullo.
José “Dudu” Eduardo e João Queiroz, que juntos formam a dupla “Oblomov”, também contribuíram para essa troca cultural. “É, meu tio é violeiro, meus tios tinham uma dupla, tipo, acho que anos 80 assim; eles tinham uma dupla sertaneja, chegaram a lançar disco, assim. E sempre teve isso do sertanejo, sempre foi uma música muito presente, assim, na família”, diz José, e João completa: “E eu acho que eu tive um caminho muito próximo do que o Clóvis teve, de no começo não gostar, de negar o sertanejo assim, e querer fazer outros sons[...]. Só que de alguma forma o sertanejo sempre esteve presente ali, mesmo que de uma forma que não fosse tão explícita quanto é no prognejo, mas que tava ali também. Então as pessoas ouviam o nosso som e falavam ‘nossa, modão psicodélico’, coisas assim, e tipo, eram coisas que a gente nem tinha intenção de que fosse. [...] Mas aí a gente foi vendo que realmente tinha a ver, que a gente vêm desse lugar, que a gente trás também essas influências, e aí saindo de Goiás e indo para Uberlândia, inicialmente o Dudu se aproximou mais do [Clóvis], e depois eu também. E foi isso, a gente foi tendo essas trocas e fomos conhecendo cada vez mais a música sertaneja.”
A dupla da Oblomov conseguiu trazer a sua referência de interior, quando na quarta música do show, o palco foi cedido quase que exclusivamente para eles performarem uma de suas canções em uma configuração que consegue evocar as ideias basilares do que seria o sertanejo, com uma roupagem moderna e sem recorrer às convenções que as letras do gênero costumam ter.
Victor e Clóvis tocam “Os Peregrinos do Oriente”. Foto por: Matheus Cerullo.
A reinvenção dos elementos tradicionais do interior do Brasil continua na quinta música do show, quando Victor José e Clóvis ficam sozinhos no palco para tocarem uma música desenvolvida pela dupla para um projeto de Victor que busca explorar a viola caipira mais a fundo. O efeito conquistado no palco pelos dois era de pura magia, duas fontes de música conversavam-se com os temperos oitavados da viola, formando um coro grandioso com a flauta de Clóvis, que tocava com energia, usando todo seu corpo para conduzir a canção, provando que a grande força do show foi a união da trajetória daqueles músicos com experiência diferentes, capazes de transformar o velho em algo novo.
O olhar ácido que inicialmente motivou a criação do projeto ainda é palpável, porém certamente de maneira mais direcionada. A narrativa apresentada no show é uma de cataclismo; um exercício imaginativo de extrapolação da “simulação proto-texana”, nas palavras de Clóvis, que parece alimentar tanto da degeneração cultural que pode-se observar no sertanejo moderno devorado pela cultura de massa, seus signos digeridos e seus ritmos regurgitados de maneira completamente alienada de suas raízes culturais enquanto engordam os bolsos da indústria fonográfica e do agronegócio que devasta as regiões das quais o gênero germinou. “É, também, a expressão musical de um sertão atropelado pelo progresso”, diz Clóvis em um dos intervalos do show, e nessa tentativa de expressar o descompasso, a desconfiguração, não só da música sertaneja moderna mas também de todos nós que vivemos um processo de ostracismo cultural de nossas próprias raízes ao sermos sufocados pela montanha de informação produzida pela cultura de massa, ao esbravejar contra a descaracterização, o Prognejo se revela como algo verdadeiramente novo. Uma espécie de reivindicação do caos, um retorno para o singelo, e uma revelação de que a música tradicional brasileira ainda tem, sim, muito chão pela frente.
A banda descansa ao som de Pena Branca e Xavantinho. Foto por: Matheus Cerullo.
Para deixar claro ao que veio, no final do show as cortinas fecharam-se e os músicos se reuniram na parte esquerda do palco, onde uma fogueira cenográfica iluminava os músicos reunidos em seu momento reflexivo ao som de Pena Branca e Xavantinho, Visite o Sertão. Uma música que convida o ouvinte a refletir sobre o progresso e a devastação do sertão em prol da ganância do homem, e que por sua vez convidava o espectador a refletir sobre a mensagem do espetáculo, e afinal de contas ela acaba por não ser tão nova assim ao entoar:
Amigo, não se demore
Venha logo visitar
Pra poder guardar na mente
O que vai se acabar
E contar para seus netos
O que eles talvez não veja
Pode ser que ao nascer
Os campos já não viceja
O que será desse mundo
Quando acabar o sertão?
Será o fim de toda a vida
O final da criação
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