Cobertura

Festival do Delírio

Um porão escuro, muito barulho e centenas de malucos vorazes por insanidade. Confira já o especial sobre a 3A EDIÇÃO DO DELÍRIO FEST.

15 de janeiro de 2023

Texto: 

@_.ilegas

Delírio é um prato que se come frio

No flyer dizia 16h, mas como todo bom festival underground, não tinha como ser diferente: atrasou. No entanto, isso não foi problema. O Porão da Cerveja, onde ocorreria a 3a ed do Delírio Fest, era grande, espaçoso e bem estruturado. Para além dos sofás confortáveis e da cerveja boa, havia ainda flash tattoo no térreo feita pela @emboscad4 e uma expo com diversos artistas underground.

Enquanto se espera... a entrada

Eram 15h, e o pessoal estava se organizando. Mary, a tatuadora, esterelizava todo seu equipamento e a rapaziada se arrumando em seus estandes. 

Na mesa de @atopi.co, seus hq’s bem humoradas sobre um Pikachu assaltante; na de @camiseta_pp, patches e roupas DIY pintadas no gotejo; @raphaeltumor expunha seus zines; @bitrinha mostrava suas prints de afronta; @mostre_suas_cores e @semembargos nos mostravam, em quadros coloridos e textos, uma possibilidade de um mundo melhor e livre; e @ceciliaplg maravilhava com seus adesivos fofíssimos.

A fome consome

Definitivamente, apoiar arte independente ou fazer uma tatuagem na bunda é um puta jeito de passar o tempo. E foi assim que o público que ia chegando aos poucos esperou o início dos shows.

As expectativas em relação ao evento eram variadas, podendo ser resumidas em algo como “ver coisas diferentes, mas um pouco de sempre (vários homens sem camisa se batendo ao som de hardcore)”. Fofo.

Talvez, de tanto baterem a cabeça tenham se esquecido do quão insano aquele dia poderia ser. Afinal, a line up era monstruosa: Pizza Câncer, Aimiss, Carniça Gore 666, Lili Carabina e Void It. 

Será que esses malucos iriam tankar o bostil que estava prestes a vir?

A Pizza tá no forno

Às 17:10, Pizza Câncer já estava fazendo a passagem de som: tentando encontrar o equilíbrio perfeito entre a voz rouca e o bandolim elétrico de Sid e a escaleta melódica de Rick. E às 17:30, já estava tudo pronto. Com uma fucking hora e meia de atraso o primeiro show do festival estava prestes a começar:

Hora de baquetear!

A passagem de som já tinha revelado a todos como, mais ou menos, a parada iria funcionar. Assim, apenas alguns minutos de apresentação já foram o suficiente para os garotos da Pizza Câncer mostrarem para o que vieram.

Gosto de escorbuto

Com seus violões, escaleta e bateria entregaram uma música energética. Uma espécie de Ska Folk Punk animado, que fez com que todos se sentissem, por vezes, em um cais cheio de bêbados ou em um navio lotado de piratas que absolutamente iria naufragar num mar de álcool.

A viagem delirante inspira poetas navegantes

E justamente por todos estarem nesse estado de frenesi digno de um assalto bem sucedido a um navio imperialista inglês, entre cada música, foram ouvidas sair da boca do vocal palavras de sabedoria, como: “essa é sobre a depressão pós masturbação”, ou “essa é dedicada a todos que já trabalharam no BK”, ou “a vontade de viver de um hammster sempre será maior que a sua gaiola. Não importa o tamanho da gaiola”.

Tais frases inspiraram Preton, que subiu no palco para dar uns scream loko ao som de um bandolim elétrico frenético e da bateria rápida mas na medida certa de Fugazi. Nessa hora, o pau comeu e a revolta foi instaurada no convés, como um motim contra Barba Negra.

Almas penadas se divertem no miasma

Foi definitivamente uma experiência assistir um mosh sendo formado por um bandolim elétrico e 2 violões. (Muito pica).

E o show seguiu assim até o seu final. Numa animação que lembra a revolta tragicômica de ir correndo pro trampo (ou pro BK), em um barco todo fodido, que é o transporte público de SP. Mas com Pizza Câncer, o desfecho é diferente. O destino não são os gritos de um chefe ignorante, mas gritos contra a sua ignorância em uma ilha de experiências sonoras.

Uma sobremesa pesadíssima

Logo em seguida, veio Aimiss, um trapstar criativo e versátil. Revelou depois, em depoimento, que aquela era sua primeira apresentação. Apesar de dizer isso, não foi o que pareceu.

Chef de cozinha

Em palco, se mostrou bem à vontade gesticulando com as mãos e rimando em um flow delicado porém brutal, ao som de um beat estourado seguido de melodias calmas.

 

Aquela piscadela pro chef

A recepção foi ótima, com o público cantando algumas de suas canções mais conhecidas. 

Também foi motivo de Giovana, que atualmente mora em Recife, vir para São Paulo, para vê-lo. Ela disse que a viagem foi massa, mas que o show a superou, pois Aimiss é um rapaz “Carismático e humilde”, além de ter sido um show intimista no qual as habilidades de improvisação impressionaram.

Prato especial: Cu de curioso!

Apesar de eu não ter tanto conhecimento na área do trap, era possível ver uma dedicação ao trabalho que ele fazia, tanto musicalmente e liricamente quanto performaticamente. Cheio de energia e sabedoria, sabendo equilibrar o peso de seu som durante todo o rolê.

Bloody Mary

Antes mesmo da carnificina começar, Carniça Gore 666 já intimidava com seu visu das trevas:, cabelos longos e guitarra e baixo pontudos. Desse jeito era impossível achar outra coisa senão que o pau ia comê.

Após uma longa arrumação de palco, já devidamente despidos e com umas palhinhas de gutural de dar frio na espinha, Carniça Gore 666 já estava pronto pra destruir tudo.

Tripas de bode à moda da casa

A escuridão do porão davam a ele um ar sinistro. O som dos instrumentos distorcidos ecoava por todos os cantos e mentes perturbadas. Via-se pessoas pondo as mãos nas cabeças como se estivessem delirando. Os outros, já enlouquecidos, formavam moshs imensos que alternavam entre pancadaria desenfreada e a maldita “andada punk”. 

A parada foi tão insana que até perderam um cinto no meio. Felizmente, dono foi encontrado logo depois.

Houve uma hora em que, após os gritos do público e um anúncio com voz dracônica do vocalista, uma passagem de noise com guitarra e baixo iniciou uma espécie de ritual satânico em forma de sonoplastia. 

Sacrifício por mosh

Após isso, um death metal trevoso levou todos ao chão. Estavam sendo exorcizados pelo anticristo em forma de homens sem camisa com sangue escorrendo pelo corpo.

Barriga aberta, estômago faminto

Do começo ao final o show foi assim, com o público ensandecido pelos tons baixos dos instrumentos, pelo sopro de dragão do vocal e pela batida de surf maldito do batera.

Simplesmente do mal.

Um brinde à liberdade!

Lili Carabina, uma girl band punk prá kacete descrita como “foda-se core” e o “terror dos bandeirantes”. 

Enquanto elas se preparavam para de fato dar início à chacina, o público ia chegando aos poucos e era realocado como em um matadouro, cujo carrasco eram 3 MICROFONES PODEROSAMENTE CARREGADOS PARA CUSPIREM GRITOS CONTRA A CARA DESSE SISTEMA DE MERDA!

Paulada nervosa

O show começa, e que porradaria! Constantes rodas punk e o povo todo se movimentando em danças e saltos que acompanhavam a vocalista. 

A microfonia criava uma atmosfera insana e ensurdecedora, que junta da guitarra rápida, da baixista maestrosa e da bateria pancada destruíam qualquer estabilidade. Foi tanta terra arrasada, que um mano que foi levantado pelo mosh logo foi jogado no chão.

Após isso, a vocalista deu um discurso sobre a cena e logo a pauleira retornou em dobro. O pau comia no meio do porão e as cervejas voavam como pombas na praça da Sé em direção aos olhos de um policial fascista.

O ritmo aumentava e o clima esquentava, então, para isso “Uma música de amor. Para quem gosta de lovezin”. Amor só se for aquele mostrado através da brutalidade (igual Claudin e Buxexa). 

Conversas bêbadas e brutais

Gritos ovacionadores de um público que cada vez aumentava mais. Uma mina até cantou no mic. Mas se engana quem achou que isso era um show burguês. Essa não foi a única participação direta do público: ao refrão “Ele nos odeia”, um grupo de minas se juntou para gritá-lo. E ao fundo, a bateria sendo martelada.

O estardalhaço foi tanto que a guitarrista até perdeu a palheta. A seguir, o diálogo que se deu entre ela e o público:

Alguém tem uma palheta?

Eu tenho um cigarro!

Palheta!

Cabeça de fascista servida na bandeja

Após encontrar uma, voltam com tudo! O público aumenta, fazendo o porão quase beirar a super-lotação e tremer nas bases ao som do punk rock “AC Imperitalista”.

Animadas e carregadas agradecem a presença do público e vão para a saideira. Mesmo cansados e suados, sempre tem espaço para mais e aquela multidão virou uma só no meio do mosh e do som frenético de Lili Carabina.

Delirando, danço pelo porão escuro

Deus mata. No porão, os corpos mostravam sua verdadeira forma se encolerizando contra qualquer forma imposta. A mais de 180 bpm o coração se transformava em um amontoado vermelho de carne perante a identidade encontrada em corpos se batendo. Apenas com 3 meses de existência, Void It foi capaz de levar o porão a esse estado.

Gritaria satânica

Um hardcore brutal que fez o público ficar incrédulo e desejar que aumentassem o peso e que o vocal cantasse mais alto (que só pra deixar claro, arrasava alternando entre um gutural sinistro e um scream assustador). 

Na pista, malucos endoidecendo sendo puxados repuxados e revirados pelos pedais duplos que surgiam e ressurgiam. 

Um jantar inesquecível

Já tarde da noite, o público queria mais e sempre mais. Os dedos do guitarrista pegavam fogo. E ainda tinha muita lenha pra queimar, afinal, a saideira foi a “saideira das saideiras” terminando a noite com um gostinho de quero mais (insanidade).

Bagulho foi tão loko, tão hardcore, tão mais underground que o próprio capeta, que nem tem muito o que falar sobre. Só se deliciar mesmo, se rememorando com a morte da angústia.

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