Cobertura

Alternas invadem o porão

Clique aqui e saiba mais sobre este pequeno, mas memorável festival.

16 de janeiro de 2023

Imagens: 

@wast3lands

Preparamentos alternativos

O Festival Alternativo estava marcado para começar apenas às 16h, mas às 15:30 Dartganan Não Mora Mais Aqui, uma das bandas que tocaria no dia, já estava no palco arrumando tudo. Entre fumos, microfonias e improvisos do batera Ph, como ter vindo sem ensaiar ou tocar descalço, Dartagnan ia arranhando seus primeiros sons amplificados. A insistência em balancear o volume dos instrumentos e todos os três microfones mostrava que eles tinham um cuidado especial na preparação do palco. Com esse domínio e o jeito desódeles, começaram a passagem de som às 16:20 (não ironicamente).

Era uma psicodelia doida ao melhor estilo rock 70’s. As guitarras de Derick e Dimas se espalhavam em seu reverb e se mantinham longamente, compondo o tecido sonoro que estava se construindo.

Mas antes... um combinado

Entre a palhinha da passagem e o início do show, uma rapaziada foi chegando, até que lotou legal o porão. Às 17h, estava bem cheio a ponto de encorajar Dimas a fazer um acordo com o público: sempre que PH se empolgasse, gritaríamos “AAH, PH!”.

Logo após esse acordo, o show começou.

17:10 - D'Artagnan Não Mora Mais Aqui

Um som de peso enorme faz com que todos queiram dançar em meio às assonâncias e dissonâncias.

O dilema da corda de Dimas

O começo foi tão pedrada que a corda ré de Dimas estourou no meio da segunda música. Nisso, todos se entreolharam: o que fazer? Continuariam? Pediam, insistentes, uma corda ou uma guitarra. Ajoelhado, vendo sua filhota ferida, Dimas aguardava. Os outros da banda, seguiam tocando, com a guitarra de Derick sendo a principal agora. No meio disso, o guitarrista da banda Porto - que mais tarde tocaria- emprestou sua guitarra a Dimas, que rapidamente vestiu a correia e arrumou os pedais. O dilema não foi problema, pois, todos tomaram uma mesma decisão: a música se acalmou, e nessa cama um solo de bumbo se iniciou. Ele se desenvolveu em um inesperado e criativo sambinha, e nesse climão de JAM, a guita voltou!

Com as duas guitarras em cena novamente, não poderia haver outra opção senão, um dedilhado maluco simultâneo. Ricas, da Naimaculada, disse que esse se tratava de um som sofisticado e como gesto de aprovação isqueiros foram acesos.

A confusão se transforma em algo

Se tudo aquilo já não fosse inesperado, o show foi se superando cada vez mais. Uma hora Ph se empolgou, quase destruiu a bateria e acabou a música em pé no banquinho (AHH, PH!). Outra hora, Dani, com uma voz maravilhosa, começou a cantar uma música de saudade. Nessa música, houve participação especial de Ricardo, que cantou um arranjo diferenciado de SP, de Caetano Veloso em cima do som da banda Dartagnan.

O silêncio, que também era surpreendido, deixava de existir. O vazio era ocupado o tempo todo por interlúdios improvisados de bateria ou um “Boa tarde” que antecedia o verdadeiro apocalipse sonoro com guitarras gritantes e um baixo denso.

Livres, energéticos e brilhantes.

A voz também fazia brincadeiras. Em uma das músicas, não uma voz mas três vozes que iam de um lado para o outro se complementando e contagiando o cérebro a querer entender que brisa era aquela. E pra variar, Ph quebrou tudo novamente, cantando. Sim. Enquanto tocava bateria, o menor cantou. (AHH, PH).

Mudança de clima

Já pro final do show- esse que corria já há bastante tempo, se tratava de um set longo- a sonoridade tomou uma estética mais antiga, dos anos 50’s ou 60’s, em levadas calmas, voz feminina, guitarras dispersas e refrãos grandiosos.

Um show completo

E assim, terminava o show da Dartagnan. Variado, diverso, muito divertido, movimentado, cheio de simultaneidades, sobreposições e complementaridades. Com cada um dos membros brilhando do seu jeito: seja com uma voz linda, ou com solos incríveis, ou com uma presença de palco cativante, ou com uma completa falta de noção, eles entregaram um set maravilhoso que levou o público numa viagem no tempo, indo desde o rock dos anos 50 até um indie dos anos 90. 

19h - Show da Vinco

Reorganizando o palco podia-se ver 4 moleques com seus instrumentos. Quem via de longe, achava que era só isso mesmo:4 moleques com seus instrumentos. É, mas com apenas 10 minutos de show todo mundo que pensou isso teve sua boca mental calada por um mathrock fino e gostoso de se ouvir.  E isso foi só a apresentação, na qual enquanto os membros se apresentavam, o batera Gabriel lanssava uns poliritimo loko, dando à apresentação, uma carinha de começo de filme.

Abstrações sonoras

No melhor estilo midwest emo, os dedos dedilhavam guitarras que soavam como se andassem de mãos dadas em um passeio no parque. O baixo descia escadas e subia elevadores. A bateria matinha-se no volume perfeito complementando o som, preenchendo seu fundo e dando viradas quentes que faziam todos gritarem “Uhuu!”.

Retorno à uma casa familiar

Infelizmente, foi uma apresentação curtíssima. Apenas 2 músicas (afinal, eles realmente não só tem duas músicas, ATÉ AGORA!). Mas sem dúvidas, uma viagem deliciosíssima que deixou todos na vontade de ouvir mais.

21h - Show da Porto

O que aconteceu? Não sei. Mas me vê um cigarro?

Houve um longo intervalo antes da Porto começar. Como o show da Vinco tinha acabado de repente, ninguém entendeu direito o que tinha acontecido. Se perguntavam se o seu final se tratava de uma piada bem humorada ou não. Por isso, levou um tempo para que o público percebesse que, sim, o show havia chegado ao seu fim. Somado a essa indecisão, um set todo novo de instrumentos teve de ser montado, com adição de um teclado e a subtração de uma guitarra. 

Quem esperava do lado de fora, não via o minimalismo detalhista que estava sendo armado: uma bateria, uma guitarra, um baixo e um teclado. Somente o necessário.

Os de verdade eu sei quem são

Assim, quando o show da Porto começou, o clima era intimista, com os poucos que estavam lá de fato prestando muita atenção no que rolava.

A mistura perfeita, quase alquímica, que   inha entre o batera preciso e musical e a baixista que te transporta para vários lugares ao mesmo tempo, resultando em um ambiente completamente novo. Isso somado ao teclado espiritual e à guitarra que ecoava, fazia com que cada um ali flutuasse na vibração das cordas.

Elevação

Nesse estado quase metafísico, vislumbrava-se como cada um entendia o seu som. A compreensão mútua completava um ao outro, fazendo a música nascer como um todo.

Era tudo extremamente inesperado, com um timing inacreditável, que junto de todas essas camadas sonoras de outra realidade, fazia todos flutuarem, pensando: como fizeram isso? Ao mesmo tempo em que não se pensava em nada; apenas se sentia… tudo e em todos os lugares.

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