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Festival traz grandes nomes da cena de graça para o ABC Paulista.
7 de julho de 2023
@eusoukravezuk
@eusoukravezuk
O calor seco característico do outono paulista e as ruas próximas abarrotadas por carros estacionados já anunciavam que aquela tarde de sábado no Parque Engenheiro Salvador Arena, em São Bernardo do Campo, seria lotada de gente interessada em música.
Esta previsão revelou-se fato e estendeu-se até o dia seguinte, tornando o final de semana no ABC Paulista mais colorido e vivo, graças ao Festival Casaberta. A iniciativa estreou este ano e tem o apoio da prefeitura de São Bernardo. O grande diferencial deste evento em particular é que a entrada é franca. Os organizadores do evento apenas convidaram o público a doar um quilo de alimentos não perecíveis.
Quem mora na Região Metropolitana de uma cidade como São Paulo sabe como é difícil ver bandas de maior destaque na cena do rock contemporâneo e naquela limiar entre o underground e o mainstream. Particularmente se você for jovem e duro.
Não é fácil você pegar duas ou três conduções — dentre elas, um ônibus caro da EMTU — até alguma casa de shows ou Sesc na capital paulista quando você tem menos de 20 anos e está desempregado. Se você for menor de idade, então, esqueça: provavelmente não terá acesso ao artista que você quer.
Por isso, trazer bandas cacifadas entre o público de graça para uma cidade na Grande São Paulo tem um enorme impacto social. Dá direito a todo adolescente e adulto de ver aquele som que ama de perto.
E não eram bandas que se vê todo dia desses de graça.
Duas mancadas do seu correspondente
Antes de discorrer sobre os marcantes shows do final de semana, gostaria de pagar meu profundo respeito à Giovanna Moraes e ao Continue. Como de praxe em festivais, não consegui chegar a tempo para ver estes shows, que abriram, respectivamente, o sábado e o domingo. Mas isso não diminui a excelência destes artistas que espero ver em outra oportunidade.
MORRO FUJI
De som espirituoso, Morro Fuji fez um show atmosférico para um público que ainda se habituava à vibe do festival. A voz aconchegante da vocalista Angela Destro ornou perfeitamente com o instrumental cheio de referências oitentistas.
Apesar da vibe retrô, a banda detém um som que só é possível na era da Internet, onde o interesse do artista não é necessariamente subserviente à moda vigente. Ou seja: é notável que o som do Morro Fuji é um som feito por quem ama o que faz.
A performance particularmente energética de “D’Artagnan” e um cover engajado de “Tudo o Que Você Podia Ser”, de Milton Nascimento no intocável álbum Clube da Esquina, são pontos altos do show e mostram porque esta banda revela-se uma grande promessa da cena. Um sucesso crescente parece ser o destino.

Thomaz Kravezuk ©
MAGLORE
Um show bem amarrado e capaz de manter o público fascinado até o fim mostra a experiência conquistada nos 15 anos de carreira do Maglore. A banda trouxe sua orgânica música, que remete com força às psicodelias brasileiras da década de 1970, para um público que cantou emocionado e com muito gosto.
É um som que preza em ser nacional e que estimula reflexões. Vai de amores e como lidamos com eles até a conjuntura política nacional, sempre tão caótica e contestada, com absoluta fluidez e naturalidade. Maglore encontra muita virtude em seu orgulhoso abraço à MPB.

Thomaz Kravezuk ©
FRANCISCO EL HOMBRE
A energia induzida pelo som cabeça e muitas vezes sereno do Maglore foi completamente revirada com o chute na porta que é Francisco El Hombre. O ritmo alucinante e energético não se difere de um trio elétrico em época de Carnaval, engajando o público em uma grande festa coletiva.
Se o Maglore é inerentemente brasileiro em um âmbito clássico, Francisco El Hombre não nega sua brasilidade por soar popular e acessível. Além disso, é uma banda que estabelece diálogos com a população LGBTQIAP+, sempre pouco representada em festivais de rock e na cena em geral. Agrega uma diversidade extremamente necessária em um ambiente que pretende ser democrático em sua gênese.

Thomaz Kravezuk ©
MENORES ATOS
Visceral. Não há jeito melhor de definir o power trio que é o carioca Menores Atos. O vocalista Cyro Sampaio brinda o público com guitarras eletrizantes e que estabelecem um amarrado diálogo com o baixo e bateria, fazendo desta banda algo catártico.
O som pesado e as letras intensas contrastam positivamente com a melodia instaurada por um instrumental bem pensado e por um jeito marcante e original de cantar de Cyro, mostrando porque Menores Atos é uma banda tão original entre a vasta cena do hardcore brasileiro.

Thomaz Kravezuk ©
FAR FROM ALASKA
Uma energia catártica e uma marcante atuação no palco conquistada em 11 anos de carreira traz muito brilho ao potiguar Far From Alaska. O som tem muita presença e a banda usufrui com absoluta fluidez do espaço que lhe é reservado.
Para além dos viscerais vocais cantados majoritariamente em inglês, a Emmily Barreto revela-se também uma pessoa conversativa e carismática, que te abraça e praticamente te convida para uma cerveja.

Thomaz Kravezuk ©
TERNO REI
A enorme lotação da plateia reforça que o paulistano Terno Rei talvez seja a maior banda de Indie Rock brasileiro em termos de alcance de público. E o show seguro e bem amarrado reafirma os porquês disso.
A performance é sólida e a sonoridade é atmosférica. Os vocais aveludados de Alê Sater dialogam eficientemente com sintetizadores que evocam a década de 1980. Além disso, as letras nostálgicas a respeito de amor e juventude são acessíveis e ressonam em um público que canta de forma engajada, muitas vezes aos prantos.

Thomaz Kravezuk ©
O ABC Paulista, tão importante em conquistas musicais e políticas para o Brasil, precisava há tempos de uma valorização desta história e de respeito a seu público. O Festival Casaberta faz isso, injetando vida à cena musical da Grande São Paulo e mostrando de forma pujante que a música pode ser acessível a todos.
Apesar de algumas falhas, como a ausência de acessibilidade pela falta de intérpretes de libras, e na segurança em casos de acidentes, pela aparente lotação excessiva, este é um evento estimulante e que precisa do comprometimento da cena para sua manutenção.
Afinal, todo mundo tem direito a participar desse corre. E não há melhor maneira de reforçar isso do que em um festival gratuito.
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