Na imagem, está uma mulher branca, de cabelos pretos. Ela usa um vestido, uma gargantilha no pescoço e óculos. Os cabelos cobrem o rosto. Ela segura uma guitarra.

Cobertura

Haôma Fest: três bandas se reúnem em apoio a bar que abre portas para cena autoral


O Haôma Baixo Centro, localizado em Florianópolis, é espaço para a música independente. Mas em 2024, luta para se manter na ativa

17 de fevereiro de 2024

Texto: 

@anaquinto__

Imagens: 

@anaquinto__

Edição de texto: 

@eusoukravezuk

Na primeira sexta-feira de pré-Carnaval em Florianópolis, acontecia o Berbigão do Boca. Foi na Avenida Hercílio Luz, onde se concentram os bares e as principais casas de show de música alternativa. A noite unia dois públicos: quem ia pular o Carnaval, e quem estava na calçada do Haôma Baixo Centro, localizado entre o popular "mercadinho", como é chamado pelos frequentadores, e o Selva Bar.

O evento da noite foi o Haôma Fest, que trouxe aos palcos as bandas Fiscais de Cu, Distopix e Nöjo. Organizado pela Lodo Coletivo, responsável por realizar eventos na cena do underground,, a proposta principal foi auxiliar financeiramente o Haôma, espaço fundamental para a cena independente catarinense, e que enfrenta desafios para continuar aberto desde o último ano.

Crexi, nos vocais e baixo da Fiscais de Cu. Foto: Ana Quinto

Punk com influência paulistana

A noite iniciou com o show da Fiscais de Cu, banda autoral de Punk Rock formada por Crexi no baixo e no vocal, Larson na guitarra e Jeff na bateria. Os três integrantes se conheceram entre os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, e se reúnem atualmente em Floripa. O som da banda era bem familiar à plateia do Haôma, já que eles costumam tocar bastante no bar. 

No repertório, a banda incluiu músicas como "Termos de Uso da Liberdade Democrática" e "Fiscais de Cu", com letras políticas que são exatamente a proposta do trio. "A gente tenta fazer um som mais parecido com o Punk Clássico, é uma pegada mais Rock n' Roll, mais Inocentes", explica Crexi. A banda paulistana é uma das principais influências do grupo. 

Durante a apresentação no palco, os três integrantes envolvem o público, que conhece bem as letras dos Fiscais, que fogem do óbvio: "Agora dá licença, eu vou olhar o seu cu, será que vai sair mais uma grande merda?", gritava Crexi enquanto a música acelerava cada vez mais e terminava com o solo de guitarra de Larson.

Riot Grrrl

Maria Mú, vocalista da Distopix. Foto: Ana Quinto

Liderada por Maria Mü nos vocais e na guitarra, a banda catarinense Distopix trouxe para aquela noite de início de Carnaval, nos palcos do Haôma, um pouco da cena do Riot Grrrl. O grupo mesclou o repertório com músicas autorais e alguns covers de bandas como Hole e L7. Nesses momentos, a roda Punk incluiu meninas na frente do palco. 

A banda se iniciou no final de 2021 e já passou por algumas formações. O grupo, formado por Caio na guitarra, Leffa no baixo e Dutra na bateria, tem o objetivo de gravar as suas composições autorais no estúdio. 

Maria encara com naturalidade o fato de ser uma mulher no vocal na cena de underground. "Eu tenho banda desde os meus 14 anos de idade", conta Maria, que afirma ainda ser "desafiador, mas ao mesmo tempo é um espaço que a gente tem que ocupar."

Despedidas

Vinizin, na bateria, em seu último show da Nojo. Foto: Ana Quinto

A Nöjo, grupo de Hardcore manezinho que também traz influências do Punk, realizou seu show de despedida naquela noite. 

Quem acompanha a cena alternativa catarinense com certeza já ouviu falar do grupo. Ou, ainda, esbarrou com eles no centro de Florianópolis. Além do Haôma, a Bro Cave e o Beco do Corvo também receberam apresentações da banda durante a sua curta trajetória.

Composto por Vinícius no baixo e na voz, Guilherme na guitarra e Vinizin na bateria, a banda lançou o EP de estreia "Desumanização Coletiva" em novembro de 2022. Nas faixas, destaca-se "Eu Odeio o Agronegócio".

A apresentação final trouxe um sentimento agridoce. Para Gui, a Nöjo conseguiu alcançar bons momentos nos últimos dois anos: "A gente fez coisas muito rápido. Gravamos um EP cavernoso e rústico, fizemos um material com o que a gente tinha. Aconteceram shows muito interessantes e vimos que as pessoas curtiam o que a gente fez".

Lodo Coletivo

A Lodo foi fundada pelos amigos Jupi, Guilherme Willimann e Vinicius Dias. Em 2019, eles já se articulavam, promovendo eventos no Plataforma Rock Bar, em São José, município da Grande Florianópolis. Pouco tempo depois, Maria Mü também começou a integrar o coletivo. Após a pandemia e o fechamento do Plataforma, eles se mantiveram empolgados. "A gente continuou com esse sentimento de querer movimentação, de querer trazer a galera. A gente gosta de fazer isso, é o que nos movimenta", explica Guilherme, que também é integrante da Nöjo.

O coletivo é responsável por colocar nos palcos da “Ilha” — como quem é de Floripa chama a cidade — bandas locais que estão começando ou que já são familiares ao público do underground, como Cosmic Void, Sepulcro Death e Sömbriö. Também organizam eventos em parceria com outros coletivos da cena, como a Urtiga. 

Neste ano, se preparam para trazer bandas de outros estados: "Já temos datas para várias bandas de fora, como Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Isso está sendo muito legal, porque trazemos um atrativo para as pessoas que já ouvem as bandas daqui, mas colocamos para tocar junto com as bandas de fora", conta Jupi.

A escolha do local para sediar os eventos da Lodo tem um significado: todos acontecem no Haôma, espaço que desenvolveu um forte laço de parceria com o coletivo. O bar, administrado por Fabricio Sfredo e Geovania Ramos, abriu as portas para que a Lodo se firmasse na cidade. Segundo Guilherme, todos têm um lugar no Haôma: "O Fabrício abre espaço para todo mundo, independente do estilo ou da pessoa. Ele confia muito nos artistas independentes da região e, trazendo público ou não, ele ajuda, dá todos os equipamentos. Ele faz muito mais do que qualquer pessoa dos outros bares faz. Ele realmente confia e abraça a gente”. 

Essa identificação entre o grupo e o bar perpassa as características que definem a Lodo, entre as quais ser um coletivo político anti-facista, comunista e que tem como uma das prioridades abrir espaço também para as mulheres no underground.

Para Maria, vocalista da Distopix e integrante da Lodo, esse é um fator importante na organização dos eventos: "A gente sempre busca garantir que tenha pelo menos uma banda com mulher. Tem muita banda, muita mulher massa tocando, só que muitas vezes acabam ficando inviabilizadas. Eu penso que às vezes a dificuldade não é tão explícita, mas as oportunidades são mais escassas." Além da inserção de mais diversidade nos eventos, um dos objetivos, segundo Jupi, "é criar um ambiente que seja seguro para todos os tipos de pessoas."

Um espaço que quer acolher

O Haôma se instalou no Baixo Centro, em Florianópolis, em 2019. A região é conhecida pelos moradores da capital por abrigar espaços culturais. As ruas Victor Meirelles e o Calçadão João Pinto, por exemplo, estão ao lado da Avenida Hercílio Luz.

É lá que o casal Fabrício e Geovania abriu o seu primeiro negócio, um sonho antigo de oportunizar um espaço para que artistas independentes pudessem ter a chance de mostrar o seu som. "Eu trabalhava no Centro Integrado de Cultura, no teatro, e o Fabrício no café. A gente sempre estava nesse negócio de música, show e evento. Lá dentro vimos que há pouco espaço para artistas locais, até a pessoa conseguir pisar ali [no CIC], é bem diferente", conta Geovania. 

Para Fabrício, a ideia do Haôma é ser um espaço em que as bandas possam criar portfólio. "Teve um menino, na sexta passada, que a primeira vez que ele subiu num palco, foi aqui. As meninas da Dirty Girlls começaram aqui e agora elas estão no Psicodália [festival catarinense]. A ideia do bar foi ser isso, um espaço mais democrático para os artistas, e focando no rolê autoral".

Foi pensando nesse objetivo que a dupla começou a investir na infraestrutura do Haôma. Além de ser um bar com drinks, comidas e espaço para shows, há também um estúdio em que as bandas podem ensaiar. "A gente quer proporcionar para o músico que tá começando a sensação de acreditar que ele vai tocar num lugar legal. Tem músicos que tocaram a primeira vez na nossa casa, e talvez ele não pudesse pagar um backline. Tentamos dar o melhor de estrutura que a gente consegue. Ainda está longe de ser o que queríamos, mas sempre tentamos melhorar", conta Geovania.

São diversas as bandas que realizaram o seu primeiro show nos palcos do bar. A Fiscais de Cu, por exemplo, fez a sua estreia ali em junho de 2022. Apesar do público fiel que frequenta o espaço, os desafios de mantê-lo ainda são muitos: "A gente passou um ano em Florianópolis que praticamente só choveu. Para quem trabalha a noite com bar é muito difícil, tiveram muitos eventos fracos", explica Geovania, "foram muitas coisas da gente falar 'vamos desistir, não dá pra gente continuar', porque o aluguel continua vindo, a luz, a água".

Para Vinicius, integrante da Lodo, e guitarrista e vocalista da Nojo, a ideia de ajudar a casa foi natural. "A gente pensou em retribuir tudo o que ele [Fabrício] já fez pela gente, deixando a gente usar o espaço… a maneira mais simples que pensamos que poderíamos ajudar, é fazer um evento para beneficiar a casa. Aqui é o lugar mais receptivo, é uma casa onde a gente já se sente à vontade, temos uma convivência com o pessoal que trabalha aqui". 

Foi o laço de amizade com as bandas que se apresentam com frequência no Haôma e a vontade de manter a cena do underground viva que movimentaram a ideia de realizar o Haôma Fest. As bandas abriram mão do cachê naquela noite, e a Lodo Coletivo reverteu todas as vendas da portaria para o bar. 

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