Cobertura

Maldita DST obscura precoce

Clique aqui e tenha um olhar recíproco do abismo.

29 de janeiro de 2023

Imagens: 

@fotosdepoisdobeck e @venanciomarcos (fotos da DST Noise)

O dia mais terrível do século: Maldita DST obscura precoce.

Uma celebração do único legado bom da pandemia rolou dia 28 no Porão da Cerveja. As mentes mais malignas da cena paulista se reuniram na casa, localizada a alguns minutos da estação Marechal Deodoro, para prestigiar a vinda dos quatro cavaleiros do apocalipse: Malditos Jovens do Reggae, DST, Obscurus Harshnoise e Burrice Precoce! A noite ainda viria nos brindar com a participação especial de convidados surpresa.

Por um singelo valor de 5 lulas, a tropa pôde desfrutar do espaço charmoso do porão, com seus dois andares, paredes espelhadas e mobília bonita e arrumada (tem até piano!), curtir os shows (e como curtiram!), apreciar belíssimos trabalhos dos artistas que foram lá expor, além, é claro, da boa e velha troca de ideias, camaradagem e clima de azaração, característico do underground.

Os trabalhos se iniciaram pontualmente por volta das cinco da tarde (risos). Apesar da temporada de chuvas que assola a megalópole, a expectativa era de casa lotada. Aos poucos, o local foi adquirindo forma e se diversificando com punks, headbangers, gyarus, goths, emos, pessoas de todas as cores, gêneros e gostos, todos reunidos com o propósito de celebrar o morto, numa espécie de dor pela perda, só que do avesso. Nesse momento de tensão, onde quem tem que calibrar no goró calibra e quem tem que deixar a sobriedade em segundo plano deixa. Nossa equipe já estava a postos para registrar toda a comoção.

Noisea e problemas técnicos

Poucos minutos após a maioria das pessoas chegarem, era possível ver uma galera ajeitando um aparato de som ao mesmo tempo simples e complexo. A formação do DST estava toda presente, mas algo parecia esquisito. Ela parecia maior do que o usual. Os cabos p2, conhecidos entre os técnicos de som, recusavam-se a dar sinal de vida, i.e, o ruído que todos esperavam, um claro sinal da presença de um espírito de porco entre nós. Mas resolvidos os problemas técnicos, o mistério acabou.

Interrompemos a programação normal para um comunicado urgente

A verdade era que a participação secreta iria dar início a esse rolê inesquecível! Nada mais, nada menos, do que um sequestro de aparelhagem feito por Existência com Gosto de Nada, Guinea Pig e Me Desculpa (após quase três anos de hiato). Cerca de 15 minutos de sirenes ensurdecedoras, berros, gritos de guerra e beats dançantes foram suficientes para que o público pudesse se situar na furada em que tinha se metido. A intervenção foi combinada na hora e feita de maneira improvisada.

Doença silenciosa que rebenta em scream  

É a partir do momento em que Lizandra vem somar a balbúrdia, macetando a bateria, que se abre a brecha para o show do DST! Acompanhada por Edgard no vocal e Diogo na guitarra. Suas expectativas para seu primeiro show no porão eram de reencontrar amizades de longa data, casa cheia e muita diversidade de gênero (todas se confirmaram). A pessoa que vos escreve perdeu uma das lentes dos óculos já nesse primeiro mosh, que começou violentíssimo. Muita gente viria a perder muito mais, e todos perdemos a nossa dignidade!

Definir o melhor momento de um show do DST é muito difícil. Já teve aquela impressão de querer viver um acontecimento pro resto da vida? Pois é. Mas já que é pra escolher, eu diria que foi em “Testebunda de Jeovagem”, afinal, vilipendiar o cidadão de bem é sempre bom. Outro momento destaque foi em “Foda-se, escoteiro”, e mesmo que a gente não saiba exatamente quem é o escoteiro- talvez, seja aquele carinha chato pra caralho mesmo, que todos nós conhecemos, que todo mundo tem um igual na vida- foi bom mandar ele se foder.

Foda-se a sala de espera

Obscurus Harshnoise entrou também logo de embalo, sem massagem, ao final do show do DST. O projeto inspirado na temática dos filmes de horror, idealizado por Edgard, manteve a atenção da galera com seus knobs de reverb e distorção malucos emulados pelo celular. Com a presença dos berros que são indispensáveis- a única linguagem que um coração revoltado é capaz de entender. Para contar sua narrativa grotesca, o Obscurus precisou de cerca de 20 minutos. Ao final da performance, Edgard mandou um papo reto, e muito necessário, sobre a necessidade da arte para encarar a dureza da vida, e sobre saber pedir e oferecer ajuda nos momentos difíceis.

Esticar as pernas esmigalhadas pelo mosh

Após o ocorrido, um momento de trégua para todes se aliviarem do calor do verão paulista somado ao aperto gerado pela superlotação no Porão. Cerveja entrando, papo furado saindo, punks do lado de fora puxando um coro do Replicantes, legalizes legalizando, tempo para trocar idéia com o pessoal das bandas. O sol já estava se pondo no horizonte e, com isso, um anúncio da próxima atração do show de horrores:

Burrice Precoce

O quarteto, formado por Igor no vocal, Gudão na bateria, Gabi no baixo e Magal na guitarra trouxe de volta o quebra-lata! Os ânimos na banda, antes do show, iam desde nervosismo até animação e ânsia de vômito. Apesar do mix de emoções, os rapazes estavam felizes e esperançosos com a morte do astrólogo, e o parabenizaram por estar a um ano no straight-edge. 

A cena não reconhece distância e cansaço na hora de apoiar suas bandas favoritas, então, o mosh logo foi formado outra vez, ainda mais intenso que antes.

Os destaques desse show fodido vão para “Estocolmo” som com um riffzão a la grind, extremamente bem executado e levado até às últimas consequências pelo Burrice Precoce. O cover de Notha Thang, dos Coneheads, é, na opinião de quem escreve, uma das coisas mais inusitadas surgidas no underground atual, algo que eu não esperava ouvir tão cedo fora da internet. Ao final do show, Igor simplesmente largou o mic e saiu, deixando a banda tocar junto com a galera que ia lá berrar. A insanidade foi tanta que se formou um mosh da baratinha no chão do porão. Todo mundo começou a deitar e se debater no piso insalubremente sujo de cerveja, suor e vai sabe-se lá o que mais.

Grand-finale

Último intervalo da noite. O cansaço e os sentimentos inoportunos tomavam conta de mim, essas coisas são comuns pra quem tem experiência em rolê. Mas o clima no geral estava bem animado, e ninguém parecia preparado pra voltar pra casa ainda. O que foi muito bom, pois era chegada a hora dos Malditos Jovens do Reggae!

A formação atual conta com Preton no vocal, Sid na guitarra, Gustavi na batera e Rodrigo no baixo. “Insanidade, amor em forma de energia, vai ser zica” palavras dos próprios integrantes do norvana do noisecore que, definitivamente, uniu todas as tribos. O quarteto de noisecore do ABC paulista encerrou a noite com chave de ouro, entregando aquele que foi considerado pelos fãs como “o melhor show da banda”.

Os efeitos do mosh podem ser observados pela internet afora: narizes fraturados, hemorragias e desmaios de Gustavi após um stage-dive-pirueta, galo na testa e muito amor. A escatologia protagonizada por Preton e companhia envolveu hip-hop, reggae (ah, vá!), enquete pra saber a diva pop favorita de cada um (a minha é a Bjork), homenagem às bandas, projetos (anti) musicais, artistas visuais, forte discurso de repúdio ao fascismo e celebração de ingressantes na USP, que fazem a frase “a favela venceu” tomar um fôlego difícil de conceber fora da bolha das redes sociais. Destaque para as novidades “Gato Makonha”, recentemente liberada pelo crivo estranhamente autoritário do Spotify, e ao mais novo single da banda, “Carlos”.

Pancadaria? Sim. Mas tem carinho também

E assim se encerrava a noite, relativamente cedo. Algumas pessoas foram pra Roosevelt, outras foram pra Black Hole e, aqueles que ainda tinham algum resto de sanidade interior, foram pra casa digerir a informação. Quem tinha as tags pra representar, representou no meu caderno, quem precisava de companhia pra voltar, teve. A violência exerceu o papel terapêutico, protagonizado da mesma forma que no clube da luta, deixando todes com gostinho de quero mais, e com a certeza de que terão.

Registro feito por @fotosdepoisdobeck da entrevista feita pelos Malditos Jovens do Reggae ao Desconhecido

Envie sua música