Outros

Neil Young VS Joe Rogan:

No final das contas, o streaming realmente substituiu a mídia física? 

21 de março de 2024

Imagens: 

Imagens da internet

Nos últimos anos, vimos um grande acréscimo de artistas que se viram lesados pelas políticas das tais plataformas que apoiam músicos. Isso mostra a importância fundamental de uma plataforma de streaming independente para que seja desfeita a hegemonia dos grandes streamings sobre os artistas independentes.

São mais de 8 milhões de artistas inscritos no Spotify, sendo que boa parte deles mal conseguem chegar a uma meta de 400 ouvintes mensais. Até mesmo grandes músicos como, o “Weird” Al Yancovic, passaram pela piada que foi o retorno monetário deste app verdinho. Mas a pauta de hoje vai muito além das cagadas de algoritmo e passadas de perna na hora do pagamento.

Uma luta mais aguardada que Popó e Bambam 

Neil Young, após olhar com desgosto pro Spotify, retira todo o seu catálogo da plataforma.

Já se passaram dois anos desde que o cantor e compositor Neil Young saiu do catálogo do Spotify. Tudo por conta de uma coisa bem simples: a guerra contra a desinformação em massa. Para aqueles que não pegaram essa treta homérica desde o começo, lá vai uma recapitulação.

Em janeiro de 2022, o querido Neil Young expôs publicamente sua insatisfação com a plataforma de streaming que tanto conhecemos. Afinal, o gerador dessa intriga foi nada mais e nada menos do que Joe Rogan. Sim, aquele careca que fumou maconha com Elon Musk e deu palco para diversos ídolos Incel aparecerem em seu podcast. Porém, a briga não foi gerada por ele convidar um "Paulo Kogos americano", mas sim pela desinformação em relação à covid-19 e outras fake news.

Assim se começou uma guerra que não duraria muito tempo. Quando Neil Young disse que se “pode ter Rogan ou Young, não ambos”, o Spotify prontamente ouviu suas reclamações. No dia 26 de janeiro, removeu todo o catálogo de Young da plataforma. Mas não percam a esperança, o capitalismo é uma máquina cruel que obriga um idoso a trabalhar até morrer.

Young juntou sua velha trupe de camaradas e começou um boicote contra o gigante verde que assombra músicos pelo mundo todo. Dentre os artistas que se juntaram ao boicote de Young, estão nomes como Joni Mitchell, Ava DuVernay e India Arie, figuras importantíssimas para a história da música, que acabaram sendo trocadas por um maconheiro conspiracionista.

Já se foram mais de 700 dias. E o Spotify continua sendo uma das maiores plataformas de streaming que temos. O boicote de Young falhou, e diversos artistas que se juntaram a ele no começo acabaram eventualmente voltando para o app. 

O motivo pode se dar pelo simples fato do Spotify ter criado, basicamente, um monopólio ao redor do streaming musical. Um daqueles que nenhum artista consegue escapar. Afinal, se todos os seus ouvintes estão lá, por que ficar apenas na Apple Music, que tem uma qualidade tão ruim quanto o Spotify?

Joe Rogan e Elon Musk "super chapados" durante podcast.

Neil Young falou a respeito: “Minha decisão ocorreu no momento em que os serviços de música da Apple e Amazon começaram a oferecer os mesmos recursos de podcast de desinformação aos quais me opus no Spotify. Não posso simplesmente deixar a Apple e a Amazon, como fiz com o Spotify, porque minha música teria muito pouco canal de streaming para os amantes da música, então voltei ao Spotify, na esperança sincera de que a qualidade do som do Spotify melhore e as pessoas possam ouvir e sentir toda a música enquanto a fizemos".

Até mesmo uma lenda da música passa por dificuldades nos tempos modernos. Não existe lá muita atenção para  qualidade e valores artísticos no modelo de negócio do Spotify. Agora, quando um podcaster pseudo-facista tem mais direitos em seu contrato do que um artista consagrado e reconhecido por seu trabalho musical, o app que foi feito para música torna-se uma plataforma de desinformação e desigualdade algorítmica. 

Existe futuro?

Acaba que não é só o Neil Young que se viu dependente do Spotify. Os próprios usuários se vêem sem muita opção, já que os serviços são caros ou ruins. Isso sem citar quando está ligado a algum pacote de operadora. 

Ouvir música sempre vai ser algo caro. Existe toda uma indústria por trás. A diferença é que, quando você comprava um disco, ele era seu — e não iriam surgir propagandas depois de um mês, muito a qualidade seria a de uma batata por você ter esquecido de pagar uma fatura.

É óbvio que você não teria acesso aos oito milhões de artistas que você tem no Spotify, mas você teria seu artista favorito pelo resto de sua vida (se você cuidar bem do disco, né). 

Mas já é tarde para voltar aos vinis e CDs de antigamente. O avanço chegou e, com eles, a necessidade de soluções para problemas que nunca pedimos se tornam cada vez mais frequentes.
Este é o espírito de nosso tempo e diante dele, alguns indivíduos começaram a falar por aí sobre a criação de iniciativas desse tipo. Nos covis de discussões de ideias da internet, diversas propostas surgem, tendo como norte o mesmo sonho: um lugar, que administrado pela comunidade, seja possível ganhar dinheiro com a sua música.

O sonho em si, claro, é lindo. Mas em termos práticos, deve ser problematizado, sobretudo que diz respeito à tal administração. Como de praxe, devemos estar atentos e fortes. Perguntas devem ser feitas: quem administra? como administra? cumpre-se o que foi prometido? E, neste caso: como é feita a curadoria? quem faz a curadoria? o que é música independente?

Essas e outras questões trazemos na próxima matéria da série "Debate", que sai amanhã. Fique de olho.

Envie sua música