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Hermeto Pascoal x Miles Davis:

O embate do século em Nova York

19 de abril de 2024

Texto: 

@_.ilegas

Não é desconhecido de ninguém que músicos brasileiros lido como excêntricos por aqui são, muitas vezes, mais reconhecidos lá fora do que em território nacional. Hoje vamos falar de um desses exemplos: o mestre Hermeto Pascoal. Quando viajou a Nova York, sua presença proporcionou um dos maiores encontros da música.

Um contato, uma palavra

Conhecendo apenas Airto Moreira e munido do bom e velho português, o pequeno nordestino desembarcava, em 1971, na terra dos arranha céus de vidro escuro. Maravilhado, embarcou na bohemia estadunidense junto de seu amigo Airto — que, além de grande percussionista, tinha bom gosto.

Airto levou Hermeto logo num show onde Miles Davis tocaria. O antigo sanfoneiro não o conhecia pessoalmente

Miles Davis tocando em sua famosa jam "Lennie’s on the Turnpike" (1971), junto de Airto Moreira nas baquetas.

O pós-show foi um show a parte. Miles Davis e Hermeto conversavam pela primeira vez. O jornal espanhol El País contou um pouco do desenrolar desse papo. 

Miles, aos olhos vesgos de Hermeto, parecia inalcançável. Àquela altura, o trompetista já havia alcançado dinheiro, fama e reconhecimento. Assim, iniciou um teste: perguntou a Hermeto se tinha ouvido absoluto, tocou uma nota e o mandou reconhecer. Em seguida, pediu-o para que cantasse uma outra nota de sua escolha. Hermeto gabaritou. Impressionado, Miles o submeteu ao desafio final.

Se você tem coragem, lute comigo.

O combate

Na casa Miles Davis, havia nada menos que um ringue de boxe no meio da sala. Isso mesmo: além de ter composto verdadeiros socos no estômago, o trompetista também era boxeador. E dos grandes. Recebia treinadores por lá toda semana e levava o lance todo a sério. 

Já no ringue, Miles olhava fixamente para Hermeto, já trajado para o combate. Tinha tudo para vencer: a confiança, o talento, a técnica, o treino... Porém, lhe faltava algo. Algo que só a natureza pode lhe dar: a vesguice. E Hermeto sabia muito bem disso.

“Não sei se você percebeu, mas meus olhos têm vida própria, o que quer dizer que um aponta para um lado e o outro, para o contrário. Disse a mim mesmo: ‘vou aproveitar esse dom que a natureza me deu’”, conta o brasileiro.

Um olho acompanhava o olhar de Miles, enquanto o outro varria seu corpo em busca de pontos desprotegidos. Foi assim que, em um rápido movimento de gancho, Hermeto acerta um cruzado bem dado na cara de Miles, chamando-o de "almofadinha".

Além do que o músico chama de amizade, essa noite intensa de shows, testes de aptidão e uma luta de boxe proporcionou, ainda no mesmo ano, a expressão musical deste encontro de gigantes: o álbum Live Evil.

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